Apfelstrüdel em Campos do Jordão começou no Restaurante Jardim do Embaixador

Imagens do saudoso "Restaurante Jardim do Embaixador", da D.Ilse Kolletriz Wolf. Na foto, ao fundo, de preto, D. Ilse.
Imagens do saudoso “Restaurante Jardim do Embaixador”, da D.Ilse Kolletriz Wolf. Na foto, ao fundo, de preto, D. Ilse.

Há muitas coisas, aqui em Campos do Jordão, que precisam ser registradas para que comecem a fazer parte da nossa história e da nossa cultura tradicional, livres e desembaraçadas de oportunismos indesejáveis, descabidos e inverídicos, quase sempre procurando algum resultado, vantagem comercial ou prestígio indevido, passando por cima dos reais merecedores das glórias da ideia inicial, da autoria, da criação ou até da simples introdução entre as coisas mais procuradas e famosas da cidade.

O APFELSTRUDEL é uma sobremesa nascida em Viena, na Áustria, feita com massa folhada, de formato oblongo e alongado (com maior comprimento que largura), recheada com maçãs bem sumarentas, de boa procedência e aroma ácido, cortadas em quadrados pequenos, passas ou nozes, amêndoas ou até pinhões, migalhas de pão, polvilhados com canela e açúcar, popularizado internacionalmente. Há quem acrescente ao recheio uma boa dose de rum ou outra bebida de sabor marcante, visando intensificar o sabor, ou até um pouquinho de baunilha. É até conhecida vulgarmente como torta especial de maçãs, feita com muito capricho, cuidado e habilidade à moda suíça, e até adaptada à moda alemã, conhecida simplesmente por STRUDEL. É uma dessas coisas que necessitam ser colocadas nos seus devidos lugares, para que não corra o risco de cair no esquecimento, em prejuízo da sua verdadeira história, tradição, autoria e méritos que a colocaram dentro do cardápio gastronômico de Campos do Jordão, justificando a tradição e o prestígio adquirido, merecidamente, por quase cinco décadas.

É bom esclarecer também que, devido ao cuidado, habilidade e profissionalismo de muitos sucessores, até confeiteiros que ficaram famosos e que continuaram a produzi-los artesanal e comercialmente, dentro dos princípios e requisitos da receita tradicional ou até procurando incrementar ou inovar, sempre prevaleceu o principal objetivo de agradar a população jordanense e, especialmente, os turistas que nos visitam e que são a base da nossa economia.

Manda a tradição austríaca, responsável pela criação da receita popular dessa delícia divinal, que a sua produção seja exclusivamente artesanal, sem a mínima possibilidade da utilização de máquinas especiais para sovar a massa e estendê-la com cuidado, capricho e perfeição, capazes de conferir-lhe uma espessura tão fina e elástica que a torne quase totalmente translúcida, possibilitando a leitura de um texto de revista ou jornal que seja colocado embaixo dela.

Tradicionalmente, essa massa é estendida cuidadosamente utilizando-se a ponta dos dedos e movimentos feitos com o dorso das mãos, evitando, a todo custo, furá-la. Sempre procurando estendê-la sobre o tampo de mesa recoberto com uma toalha, preferencialmente de material não absorvente, evitando prejudicar-lhe a umidade necessária, até que as bordas dessa massa fiquem penduradas nas laterais do tampo da mesa. Essa mesa deve ser preferencialmente retangular, de aproximadamente 1,00 m por 0,80 cm (um metro por oitenta centímetros).

Depois de pronta e devidamente aberta a massa, deve ser ligeiramente untada com manteiga de boa procedência e recheada com as maçãs previamente misturadas com um pouco de sumo de limão e açúcar, evitando o escurecimento da fruta, esperando que perca um pouco do seu líquido antes de ir ao forno, pois, nessa oportunidade, poderia umedecer a massa. Na sequência, agregar os demais ingredientes que, com cuidado, devem ser espalhados sobre a massa que, aos poucos, vai sendo cuidadosamente enrolada com o auxílio da própria toalha da mesa que, sendo levantada a partir de um de seus lados, vai fazendo a mesma rolar com o recheio sobre o restante da massa até que toda ela esteja recheada e enrolada. Ao completar esta fase, há necessidade de fechar bem as duas extremidades dessa massa recheada e enrolada, para evitar que, quando no forno para assar, o recheio saia pelas extremidades.

Se o tampo da mesa tiver, por exemplo, 80 cm de largura, ao final de toda a massa recheada e enrolada, teremos um Apfelstrudel desse comprimento, obrigando a alterar o seu formato reto para arredondado, possibilitando que ele possa ser colocado em uma assadeira para ir ao forno, em fogo forte com, no mínimo, 180 graus, por um tempo aproximado entre meia hora e quarenta minutos, até que a massa fique dourada.

O APFELSTRUDEL, acredito, feito mais ou menos da forma acima descrita, foi introduzido na gastronomia de Campos do Jordão através da habilidade e conhecimento de Dona ILSE KOLLERITZ WOLF, por volta do final da década de 1940, em seu tradicional, famoso e procurado Restaurante Jardim do Embaixador, situado no bairro de mesmo nome.

O Restaurante Jardim do Embaixador foi um dos mais sofisticados de Campos do Jordão, por quase três décadas. Devido ao seu charme especial, foi utilizado como palco de algumas cenas do filme “Floradas na Serra”, baseado no romance de autoria de Dinah Silveira de Queiroz, com o mesmo nome, filmado em Campos do Jordão no ano de 1954. O filme foi produzido pela saudosa Companhia Cinematográfica Vera Cruz e, lamentavelmente, o último dela. Figuraram no elenco desse filme, entre outros, os seguintes atores e atrizes: Cacilda Becker (Lucília de Castro Reis), Jardel Filho (Bruno), Ilka Soares (Elza Maia), John Herbert (Flávio), Célia Helena (Turquinha), Rubens Costa (Moacir), Marina Freire (Sofia), Silvia Fernanda (Olívia), Gilda Nery (Belinha), Liana Duval (Firmina), Lola Brah (Olga) e Bárbara Fazio.

Dona Ilse continuou com o Restaurante Jardim do Embaixador até início da década de 1970, quando, por motivos de saúde e idade, fechou suas portas para sempre, deixando um vazio na área gastronômica de Campos do Jordão, área que prestigiou com grandiosidade, excelência, esmero, dedicação, reconhecida capacidade e competência, durante todos os anos em que esteve atendendo a população jordanense e, especialmente, o turista, que visitou e prestigiou Campos do Jordão durante aquele tempo maravilhoso e pôde comprovar a qualidade e sabores indescritíveis dos pratos e iguarias servidos no restaurante.

Fica aqui o registro necessário, para que, no futuro, em qualquer época, fique comprovado que o APFELSTRUDEL foi introduzido aqui em Campos do Jordão pela Dona ILSE KOLLETRITZ WOLF, no seu Restaurante Jardim do Embaixador.

18/05/2005

Confira essa e outras cronicas no www.CamposdoJordaoCultura.com.br

DEIXE SEU COMENTÁRIO!

Leave a Comment