Bibliotecas de Campos do Jordão – Arte e fé na biblioteca pessoal de Luiz Pereira Moysés

Na foto, o querido e respeitado artista plástico Luiz Pereira Moysés diante de alguns de seus livros

Aprender com a vida, aprender com os livros

Era um fim de tarde em Capivari. Na rua tranquila, o artista plástico Luiz Pereira Moysés, o Tubarão, como é carinhosamente conhecido, abriu a porta de sua acolhedora e bem cuidada casa para nos receber. Acompanhado da doce e sempre impecável Dona Mariza, esposa e companheira de tantos anos, e de sua neta Larissa, com seu sorriso límpido, gostoso e sincero.

Os livros, sempre cobertos com anotações
Os livros, sempre cobertos com anotações

Sentamos na sala de visitas, perto das estantes, mas os livros talvez estejam um pouco por toda a parte da casa, pois durante nossa conversa, o artista várias vezes se levantou para trazer volumes e títulos para comentar e mostrar. Logo nos primeiros momentos, Luiz Pereira Moysés relata que sua biblioteca tem muitos livros de religião e de arte e mostra alguns volumes. Os livros estão repletos de anotações minuciosas feitas a lápis. Trechos sublinhados, observações, comentários, um verdadeiro diálogo entre autor e leitor. Pergunto como os livros entraram em sua vida. Conta que a biblioteca começou a ser formada depois que se casou. Ia até a Livraria Pires, em Capivari e comprava fascículos de obras literárias, filosofia e saúde.

Subitamente o assunto passa para sua infância. Conta que a vida seguia tranquila em Campos do Jordão para aquela família de origem humilde, com sete irmãos, quando um dia, aos 13 anos, seu pai perguntou o que ele queria ser, com o que queria trabalhar. Não sabia, essa questão ainda não havia lhe passado pela cabeça. O pai resolveu então que o filho seria pintor de paredes, o que aconteceu.

Conta que fez apenas o curso primário. Aos 20 anos foi fazer o curso de Madureza, o que na época permitia, para quem não tivera a oportunidade de estudar, a possibilidade de compactar o curso ginasial (atuais 5º ao 8º anos) em alguns meses. “Fiz um teste – o professor pediu para eu escrever uma frase que ele ditou e nela estava a palavra ‘há’. Escrevi um ‘azão’, sem o H. O professor respondeu: ‘Ih rapaz, mas você está ruim…’ Eu não sabia nada”. Desde então passou a ler diariamente os jornais, trazidos por um irmão que trabalhava nos Correios, hábito que permaneceu até os dias de hoje.

Uma leitura sempre cuidadosa e atenta, que leva o conhecimento para o cotidiano do artista
Uma leitura sempre cuidadosa e atenta, que leva o conhecimento para o cotidiano do artista

Um dia encontrou na rua com Joaquim Correia Cintra que lhe convidou a participar de um grupo que se reunia regularmente no antigo DMTUR (Departamento Municipal de Turismo de Campos do Jordão), em Abernéssia. Nessa ocasião o grupo tinha aulas de inglês dadas pelo Prof. Harry Mauritz Lewin, que havia selecionado uma obra de Dickens – “A tale of two cities” (“Um conto de duas cidades”) que era lido e comentado, abordando aspectos como sociologia, história, etc. Os encontros do grupo aconteceram durante incríveis 12 anos.

Chegou um momento em que percebeu que era preciso avançar mais nos estudos e decidiu fazer as provas do Curso Supletivo em Taubaté. Cada aluno estudava por sua conta, prestava os exames e, se fosse aprovado, conquistaria o diploma do então curso Colegial. Graças à leitura diária dos jornais, passou de imediato em 5 das 8 matérias. Posteriormente fez o curso de Teologia na Universidade de Taubaté.

Mas como o pintor de paredes se transformou em artista plástico? Pelo talento e por uma feliz coincidência de vida. Desde criança gostava de pintar, mas não havia quem ensinasse. Quando estava com 20 anos passou a trabalhar, ainda como pintor de obras, por conta própria. Havia outro empreiteiro em Campos do Jordão que estava com muitos serviços e lhe repassou um que não podia pegar naquele momento, a pintura de uma casa em Jaquaribe. Nas muitas voltas que o destino dá, o proprietário da casa era o consagrado pintor Camargo Freire.

Um dia, durante a obra na casa de Camargo Freire, observou que ele havia saído; viu surpreso que na casa havia cavaletes, quadros e uma paleta. Notou que havia alguns caixotes; pegou um deles e, no fundo, usando a paleta que encontrou, copiou uma obra de Freire; depois colocou tudo de volta no lugar, como se nada tivesse acontecido. Quando Freire voltou, ao mexer nos caixotes ficou com a mão suja de tinta. Perguntou quem havia feito aquilo. Moysés se identificou, certo de que seria demitido. “Não está mal”, disse Freire.

Os livros de arte, paixão desde sempre, adquiridos ao longo da vida
Os livros de arte de sua biblioteca, paixão desde sempre, adquiridos ao longo da vida

Certa vez, após juntar vidros vazios de remédios, perguntou ao responsável por uma das obras em que trabalhava se podia pegar um pouquinho de cada tinta e por nos vidros – vejam bem, as tintas eram aquelas usadas para pintar paredes ou janelas. Com arames e outros apetrechos improvisou um pincel. E pintou sobre caixas de chá, de madeira, que sua mãe não usava mais.

Mas chegou o momento em que enfim pintou um quadro numa tela. Viu Camargo Freire tomando um café e mostrou sua pintura. “Está interessante”, disse Freire, que durante uma hora lhe deu uma verdadeira aula de perspectiva e uso de cores. E como se faz para aprender a pintar, perguntou. A resposta foi: “Pintando. Quando pintar me avisa”. Um dia pintou uma pereira. Ao levar ao mestre ouviu “está parecendo um picolé de coco”, seguido de orientações que apontavam o que estava bom e o que estava falso na obra.

Boa parte da biblioteca é formada por livros de estudos religiosos
Boa parte da biblioteca é formada por livros de estudos religiosos

Camargo Freire participava de um Salão de Pintura em Taubaté e um dia convidou Moysés para inscrever uma tela. Era uma paisagem, que recebeu Menção Honrosa. Também com Freire, passou a participar do Salão Paulista de Belas Artes, tendo a partir daí, acesso a artistas consagrados.

Ávido de conhecimento, durante anos Moysés comprou livros de arte, principalmente quando ia a São Paulo. Uma variedade enorme de publicações sobre técnicas de desenho e pintura, movimentos e escolas artísticas e obras de pintores que hoje integram sua biblioteca em Campos do Jordão. O mesmo aconteceu com a ampla gama de edições sobre religião em seus mais variados aspectos, assunto em que se tornou um estudioso. E assim, nas curvas da existência, formou-se esta biblioteca.

Quando pergunto qual o recado que ele gostaria de passar às pessoas sobre leitura, diz sem vacilar: “Sugiro que todo jordanense vá à Biblioteca Municipal e leia tudo – ou pelo menos aquilo que lhe atrai. Quem lê, abre perspectivas”. Palavra de artista, conhecimento de leitor.

O artista plástico Luiz Pereira Moysés, que é também membro correspondente da Academia de Letras de Campos do Jordão, em sua casa, rodeado por suas obras
O artista plástico Luiz Pereira Moysés, que é também membro correspondente da Academia de Letras de Campos do Jordão, em sua casa, rodeado por suas obras

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Carlos abreu é do grupo ABCJ – Amigos da Biblioteca de Campos do Jordão, é membro efetivo da Academia de Letras de Campos do Jordão e vice-presidente da AMECampos
Carlos Abreu é do grupo ABCJ – Amigos da Biblioteca de Campos do Jordão, é membro efetivo da Academia de Letras de Campos do Jordão e vice-presidente da AMECampos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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