Engarrafar o ar puro de Campos do Jordão?

Parece incrível, mas esta foi a resposta que meu avô deu a seu compadre aqui em Campos do Jordão na década de vinte. Para que saibam o motivo dessa resposta, vou contar-lhes a história como contada por meu pai que, praticamente, vivenciou esse encontro.

Somente para posicionar bem os personagens desta história verídica, abaixo dou alguns detalhes sobre eles.

Meu avô, Joaquim Ferreira da Rocha, era um português natural de Castelo de Paiva, muito sério, rigoroso e exigente; porém, um homem de coração muito bondoso. Era um simples construtor que executava todo e qualquer serviço, desde construção de estradas de rodagem, de estradas de ferro, de casas e prédios, de galerias de águas pluviais e esgotos etc., que montou, juntamente com seu genro Floriano Rodrigues Pinheiro, uma das primeiras construtoras de Campos do Jordão denominada “Construtora Rocha e Pinheiro”, responsável pela construção de diversos prédios e edifícios importantes desta cidade, alguns dos quais permanecem até hoje. Trabalhou na prefeitura como mestre de obras, foi delegado de polícia interino e ocupou uma série de outras atividades na cidade.

Robert John Reid era um escocês muito próspero e abastado, nascido na longínqua Inverness e que morou em Campos do Jordão nas primeiras décadas do século vinte. Reid, como era comumente chamado, era engenheiro e veio para Campos do Jordão contratado como agrimensor para fazer a demarcação de uma imensa fazenda nestas terras da Mantiqueira.

Posteriormente, já radicado em Campos do Jordão, foi aquele que tomou a iniciativa para a construção das duas pequenas hidrelétricas que abasteceram a cidade com energia elétrica por muitos anos, a de Abernéssia e a do Fojo, nas proximidades da Lagoinha. Acabou adquirindo uma quantidade enorme de terras em Campos do Jordão.

Robert Reid e Joaquim Ferreira da Rocha
Robert Reid e Joaquim Ferreira da Rocha

Para esta história, é importante dizer que ele era o dono de todas aquelas terras que iniciavam nas proximidades do atual bairro da Biquinha, onde está instalada a garagem dos ônibus do Expresso da Mantiqueira, e incluíam todas as terras que pertenceram, posteriormente, ao Grande Hotel de Campos do Jordão, hoje pertencentes ao SENAC.

Meu avô e Reid eram compadres. Reid havia batizado uma de minhas tias, a Idalina.

Mantinham um relacionamento fraterno, amistoso e descomplicado.

Em certa oportunidade, quando meu avô passava pelas proximidades das terras pertencentes ao Reid, no trecho próximo à atual Parada Grande Hotel, da Estrada de Ferro Campos do Jordão, acabaram se encontrando.

Conversa vai, conversa vem, e o Reid virou-se para meu avô e disse mais ou menos assim:

– Joaquim, sei que tens uma boa criação de gansos em tua chácara da Vila Nova, (atual Abernéssia). Sei que tua esposa, minha comadre, retira as plumas desses gansos para fazer cobertas e travesseiros para a família. Sei, também, que esses gansos servem para tomar conta de tua propriedade, pois são tão eficientes como cães de guarda e, além disso, não deixam proliferar animais peçonhentos, como as cobras e aranhas, naquele local. Gostaria que me vendesses dois casais desses gansos para que eu possa criá-los aqui em parte destas terras.

Em resposta, meu avô disse mais ou menos isto (imaginem o sotaque português carregado de meu avô falando):

-Ó, compadre, não tem qualquer cabimento eu vendê-los a ti. Eu te dou de presente os casais de gansos. Podes passar lá na chácara e apanhá-los.

Reid então disse mais ou menos isto:

– Compadre, eu aceito os casais de gansos, porém, em troca ficas com todas estas terras aqui para ti – e indicou-as a meu avô.

Só para posicionar, essas terras são todas aquelas próximas ao posto de gasolina em frente à Parada Grande Hotel até as proximidades da Casa do Artesão.

Em resposta, vem o que está no título desta história:

– Ó, compadre, pega os casais de gansos que já te prometi e fica com tuas terras, que eu não as quero em troca. O que vou fazer com essas terras? Não servem para nada. Não valem dinheiro algum. Só me serviriam se eu tivesse a intenção de engarrafar o ar puro de Campos do Jordão e começar a vender.

Os dois caíram na gargalhada.

O Reid passou na chácara do meu avô e apanhou os casais de gansos. Meu avô acabou deixando de ficar com as terras colocadas à sua disposição.

Por muitos e muitos anos, depois desse episódio, quando Campos do Jordão já começava a ficar famosa turisticamente e suas terras aceleradamente valorizadas, minhas tias e tios ficavam se remoendo de raiva do meu avô e diziam: “Se nosso pai tivesse aceitado aquelas terras em troca dos malditos gansos, hoje poderíamos auferir uma boa fortuna com a venda delas”.

Esta história vale para demonstrar que, se nem tudo o que reluz é ouro, muita coisa que hoje não vale nada e não tem qualquer valor monetário, amanhã poderá valer uma fortuna capaz de mudar a vida de muitas pessoas.

Nunca desvalorize aquilo que lhe é dado graciosamente e de bom grado. Aceite sem qualquer soberba…

Campos do Jordão, 15/09/2006.

Essa é outras crônicas estão disponíveis no site www.CamposdoJordaoCultura.com.br.

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COMMENTS

  • Muito boa a história amigo Edmundo Rocha….
    Ainda está em tempo de vc aproveitar a ideia do seu avô e montar um sistema de engarrafar o nosso ar tão puro e vender aos visitantes como souvenir…
    Um grande abraço!

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