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Mantiqueira, “Onde nascem as águas”, em Tupi  

A prática do Canionismo no Brasil é recente e há ainda muito a ser explorado.

 Por: Luciano Corrêa
Altus Turismo Ecológico

 

    Somente na Serra da Mantiqueira encontram-se muitos canions nunca antes percorridos.

    O conhecimento e a vivência da Equipe Altus na topografia desta serra, nos levava a acreditar que haveriam muitos canions ocultos na região. Um levantamento através de mapas confirmou o que já imaginávamos. São vários rios e córregos que literalmente despencam em abismos com mais de 1.000 metros de desnível em apenas 2,5 ou 3 Km de distância até ganhar mais volume quando alcança os fundos de vale.

    Descem em meio a “paredes” íngremes forradas pela vegetação da Mata Atlântica, paredes estas que formam um obstáculo quase intransponível, isso quer dizer, não há vias de escape (vias ou trilhas para sair do canion numa situação de emergência). Uma vez dentro do canion a única saída é chegar no vale. Neste ambiente úmido, frio, com temperatura média anual da água em trono de 11ºC, a expedição deve prever todo tipo de contratempo.

    No caso de dúvida quanto ao tempo gasto para completar a incursão, faz parte da logística prever a necessidade de levantar acampamento às margens do canion. Pode ser em barracas quando for possível, em redes ou até mesmo bivaque, sempre numa distância segura contra eventuais chuvas que podem aumentar consideravelmente o nível do rio, que pode tragar tudo em seu caminho.

    Localizada na Mantiqueira paulista, fazendo divisa com Minas Gerais, a cidade de São Bento do Sapucaí já conhecida dos pilotos de vôo livre e escaladores há muito tempo, devido a uma das mais impressionante formação rochosa do Estado, o conjunto Pedra do Baú.

    O altiplano do Paiol Grande, onde se localiza a Pedra do Baú, nos revelou sua vocação para o Canionismo através do Córrego do Paiol Grande. Iniciamos a expedição pela propriedade do Sr. Mário Toldi, mais especificamente pela Cachoeira do Toldi, onde o rio desliza sem agressividade por um reflorestamento de Pinus Eliot e de maneira surpreendente e abrupta despenca numa queda de 70 metros dos quais 50 são verticais. Esta primeira cachoeira já vem sendo usada para pratica do cachoeirismo (rappel em cachoeira ou cascading), mas daí em diante o canion nunca havia sido percorrido.

    Do alto da cachoeira pudemos avistar um animal morto, que estava sobre uma laje de pedra, como se tivesse sido colocado num altar de sacrifício. Devaneios a parte, pudemos constatar aquilo que já nos havia chamado atenção: qualquer descuido lá em cima na laje de rocha por onda a água corre através do reflorestamento, pode resultar numa queda vertiginosa como a que provavelmente aconteceu com aquela ovelha que se encontrava em estado avançado de decomposição. Iniciamos a conquista levando, além do usual, luvas de borracha e mascaras cirúrgicas. Depois do primeiro rappel afastamos o animal e nos certificarmos de que estava num lugar onde a água não a arrastasse rio abaixo, e continuamos nossa jornada.

    O próximo obstáculo era uma rampa larga com alguns blocos de pedra formando dois sumidouros pequenos (são buracos, pequenos ou não, na rocha ou embaixo de blocos onde o esportista pode ser tragado fazendo um efeito rolha), que não ofereciam muito perigo com o atual volume d’agua. Este local foi transposto escorregando por um rappel de 50 metros. Em seguida fizemos uma desescalada e mais um “infeliz rappel” de 15 metros, pois saindo deste descobrimos mais duas ovelhas mortas também em estado avançado de decomposição, e pior que a anterior, seus pedaços estavam presos a troncos dentro d’agua. Imediatamente pensei nas pessoas que banham-se todo final de semana na Cachoeira dos Amores, 6 Km abaixo, já no Vale do Paiol. Depois de um procedimento ainda mais difícil que com a ovelha anterior, prosseguimos rio abaixo.

    A partir deste ponto com o estômago embrulhado ninguém queria entrar na água, e por isso fizemos um pequeno desvio de 40 metros por trilha até a próxima cachoeira, que foi vencida num rappel de 25 metros fora d’agua (e bom lembrar que neste esporte não existe a obrigatoriedade de fazer qualquer rappel dentro d’agua, uma vez que deve se usar o bom senso quanto ao volume do rio a ser enfrentado, para que não  fique preso em baixo d’agua ou seja arremessado contra as rochas por exemplo).

    Daí em diante encontramos vários tipos de obstáculos que dão mais sabor ao canion, caos, escuros, pequenos tobogãs, desescalada, saltos por sobre fendas... Logo abaixo o Córrego do Paiol Grande recebe um afluente a direita e ganhando mais volume despenca numa cachoeira toda positiva feita uma escada de gigante talhada em pedra, e com uma vista belíssima do vale do Paiol. A esta altura havíamos descido 200 metros verticais e percorrido a distância de 600 metros de longitude, resultando numa gradiente de 3:1. Por haver aqui uma via de escape para a estrada, ficou definida que esta seria a primeira sessão do canion, que batizamos de Toldi.

    Iniciamos a segunda sessão no topo da cachoeira Escada de Gigante, desescalando os “degraus” enquanto foi possível faze-lo pela rocha seca. Depois testamos a única arvore para ancoragem de um rappel de 40 metros com parada nos pequenos degraus, onde pode-se deitar atrás da queda d’agua, parecendo estar com minha prancha no tubo de uma onda sem fim.

    Terminada esta brincadeira partimos para outras. Foram mais 1:40h de escorregadores (alguns inesperados, quando você vê... já era), um pouquinho de flooting e muita desescalada, até sairmos dentro do primeiro sítio onde começam as propriedades, o rio fica mais plano e acaba nossa aventura.

A Altus Turismo Ecológico faz saídas para pratica de esportes de aventura e ecoturismo em Campos do Jordão, Web Site: www.altus.tur.br Fone: 263 4122