Há setenta anos, mais precisamente no ano de 1955, em Taperoá, o advogado, professor, romancista, poeta, dramaturgo e gestor cultural paraibano Ariano Suassuna concluía a obra popular que o tornaria referência cultural brasileira.
Baseado nos folhetos de cordel “O Cavalo que Defecava Dinheiro” e “O Testamento do Cachorro”, ambos de autoria de seu conterrâneo Leandro Gomes de Barros, Ariano concluía a peça teatral “O Auto da Compadecida”- que, levada à tela do cinema por Guel Arraes em 2000, transformou o grande sucesso dos palcos num fenômeno nacional de bilheteria do cinema brasileiro.
A internet fez de Ariano, falecido em 2014, um fenômeno da brasilidade. Suas “aulas-espetáculo” ainda hoje provocam gargalhadas gerais pelo seu humor ferino e suas reflexões acerca dos problemas da cultura brasileira geram reflexão por parte daqueles que se interessam pelo tema. Apoiador de primeira hora do golpe militar de 1964, de cujo Conselho Nacional de Cultura tomou parte, muito cedo reviu sua posição diante das atrocidades cometidas pelos golpistas e mudou de lado, sendo inclusive, segundo conta em uma de suas incontáveis entrevistas, detido em uma ocasião para “prestar esclarecimentos” em razão de uma crítica ao governo dos Estados Unidos presente na peça “O Santo e a Porca”, de 1957.
Monarquista, uma de suas maiores contribuições foi a criação do Movimento Armorial na Universidade de Pernambuco – onde lecionou História da Cultura Brasileira, Estética do Teatro e Literatura -, que propunha a fundamentação teórica clássica na construção da arte popular brasileira. Escreveu também outro grande sucesso: o romance “A Pedra do Reino”, transformado em minissérie estrelada por Irhandir Santos, um dos grandes atores brasileiros da atualidade, no papel principal.
O texto do septagenário “Auto da Compadecida”, tendo como base o ritmo e a cadência dos versos que caracterizam a literatura de cordel, aliada à verve humorística poética desse tipo de modalidade, sempre arrebatou plateias de todo o Brasil, ganhando muitos prêmios em festivais de teatro amador ao longo de décadas.
Em Campos do Jordão, a obra de Suassuna também serviu de inspiração para um grupo de jovens atores que, no dia 21 de agosto de 1965, levou ao palco do então denominado “Colégio Estadual” a “versão jordanense” da Compadecida. Contracenando, Maynard Goes, Celso Marcondes Ferreira e Carmem Astolfi, entre outros, encarnavam os personagens João Grilo, Chicó, coronel Antonio Moraes, o padeiro, a esposa do padeiro, o padre e o bispo – além, claro, do personagem de Nossa Senhora Aparecida.
Não sabemos como foi a apresentação em Campos do Jordão – que, neste ano, completa 60 anos. Não sabemos se o público foi composto por muitas ou por poucas pessoas, como foi construído o cenário, qual foi a recepção da peça etc. O que a História jordanense nos conta é que aquele espetáculo fez parte de um período de grande atividade teatral local, sempre marcada por momentos de grande movimentação seguidos de certa letargia – que nos leva a acreditar que, provavelmente, nunca tenha havido uma ação cênica constante da arte de representar em nossa Cidade, e sim momentos em que o “fazer teatro” surgiu como expressão artística de relevância, enquanto, em outros momentos, ela desaparecia.
Entre os anos de 1950 e 1960, o Grupo de Teatro Amadores, composto por João de Sá, Zezinho Cintra, Armênio Soares Pereira e Ruth Sarmento, além dos já citados Carmen, Maynard e Celso, organizavam ensaios e apresentações, algumas inclusive de caráter beneficente, em prol da Casa da Sagrada Família ou do Natal das Crianças Pobres do Lions Clube, segundo os registros de “A Cidade de Campos do Jordão”, de Joaquim Corrêa Cintra.
Décadas depois, com o Expressão em cena, iniciativa da Companhia Expressão em Movimento, e mais recentemente, com o núcleo de Teatro da Fundação Lia Maria Aguiar, a arte milenar da encenação de espetáculos cênicos passou a se fazer presente no alto da Montanha Magnífica de maneira mais consistente, por meio de oficinas de formação, cursos e espetáculos.
O ano de 2025 marca os 70 anos da concepção do “Auto da Compadecida”, marco da dramaturgia brasileira. Marca também um dos momentos históricos do teatro jordanense, quando há sessenta anos um grupo de artistas amadores – que no futuro inscreveriam seus nomes na vida social, cultural e política da urbe -se reuniu e, com coragem e amor à arte, ocupou um dos poucos palcos locais disponíveis para levar ao povo jordanense o que melhor havia, naquele momento, na arte brasileira de representar.
A Cultura, como sempre, faz a diferença.
E continua fazendo História.

Benilson Toniolo, professor, escritor e historiador, foi Secretário Municipal de Valorização da Cultura de Campos do Jordão (2013-2024) e atua como consultor do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em doze municípios brasileiros. Membro de diversas Academias de Letras e outras entidades culturais, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.


