Pode até parecer ironia, se considerarmos o número de conflitos armados atualmente em curso no mundo, mas o fato é que, neste mês de setembro, celebramos – ainda que de maneira, até certo ponto, um tanto envergonhada – os 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial.
Como aprendemos, ou devíamos ter aprendido, dois fatos históricos marcaram esse acontecimento: a rendição alemã, em abril de 1945, e a do Japão, em setembro.
A mais dramática foi a segunda: a devastação das cidades de Hiroshima e Nagasaki, causadas pelas bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos, e que causaram a morte de quase 250 mil pessoas – a grande maioria, civis. Até hoje, aliás, existe somente uma nação sobre a face da Terra que, em tempos de guerra, lançou bombas atômicas sobre pessoas inocentes: justamente os Estados Unidos, sob o pretexto de “acelerar” a rendição nipônica e evitar uma nova incursão terrestre, dispendiosa e demorada.
O que pouca gente sabe é da participação de Campos do Jordão na Segunda Guerra. É aquele negócio: muita gente se deixa levar pela ideia de que a cidade é “um pedacinho da Suíça” e acaba se esquecendo do fato de que – sim, senhores! – Campos do Jordão também é Brasil, com todos as maravilhas e problemas que constituem este nosso país. Sinto informar, mas em alguns casos é preciso: jordanense não é cidadão europeu, seja qual for seu saldo no banco, o modelo do seu carro, o tamanho da sua casa ou o nome fantasia que dá ao seu estabelecimento comercial. Jordanense é brasileiro.
E foi como cidade brasileira que Campos do Jordão enviou, para lutar pela Força Expedicionária nacional, três de seus melhores soldados: Antonio Bento de Abreu, José Garcia de Melo (o Zé Jiló) e Vicente da Silva.
O jovem Bento é um verdadeiro herói de guerra: faleceu em combate, em Montese, região da Emilia Romagna, Itália, no dia 13 de abril de 1945. O comunicado à família foi assinado pelo general Mascarenhas de Moraes em carta datada de 10 de maio daquele ano e dirigida a Domingos Bento de Abreu, pai de Antonio, morador da Água Santa. O militar foi homenageado pela municipalidade, que deu seu nome a uma das principais ruas da Vila Ferraz – bem ali atrás da quadra de esportes.
Já José Garcia de Melo, o “Zé Jiló”, desembarcou no porto de Nápoles em outubro de 1944 e participou das tomadas de Monte Castelo e Castelnuovo, antes de voltar ao Brasil em outubro do ano seguinte. Com fama de briguento, acabou empregado no posto policial da cidade e se envolveu em muitas confusões – algumas de extrema gravidade, como as que acabaram nas mortes do motorista profissional Sebastião da Silva e do cabo do destacamento policial, Abílio Alves Bicudo, em 1955. Zé Jiló virou nome de rua, no Recanto Dubieux, cinco anos após seu falecimento, em 1981.
Quanto ao terceiro expedicionário, Vicente da Silva, pouco se sabe. A única referência está presente no livro “História de Campos do Jordão”, de Pedro Paulo Filho, que informa ter sido ele recebido pelo então prefeito Lourival Francisco dos Santos durante cerimônia festiva em Vila Abernéssia, em agosto de 1945. Foi a última vez que Vicente foi visto em terras jordanenses.
Em 1990, o então prefeito Fausi Paulo inaugurou, na Praça da Bandeira, o Monumento ao Expedicionário, de autoria do escultor português Carlos Barreto. Composto por três elementos em ferro armado, representando, cada peça, um expedicionário, a escultura ainda se encontra em seu lugar de origem – ainda que desprovida da placa de cobre que trazia as informações sobre sua confecção e importância histórica.
Existe ainda uma quarta figura que deve ser destacada, e trata-se da figura de uma mulher: a enfermeira paulista Bertha Moraes Nérici, que ocupou a patente de Segundo Enfermeiro da FEB e serviu em uma das unidades do 5º Agrupamento do Exército dos Estados Unidos sediado em Nápoles. Ao final da Guerra, Bertha fixou residência em Campos do Jordão na companhia do esposo, o professor Imideo Giuseppe Nerici, membro titular da Academia Paulista de Educação e fundador do Centro de Estudos Sociais e Pedagógicos do CEENE. O casal viveu por cerca de 10 anos na cidade, onde ela se submeteu a diversos tratamentos médicos para a cura de doenças do pulmão que afetavam sua saúde.
Um fato, porém, chama a atenção em sua valorosa biografia. Depois de muitas dificuldades para conseguir importar, da Suíça, um importante medicamento que tinha sido descoberto para combate às doenças pulmonares e que se revelaria fundamental para a cura definitiva da doença da esposa, o professor Imideo descobriu que ela não tinha tomado o remédio: Bertha havia dado a preciosa caixa de comprimidos a uma outra paciente que, segundo ela, “estava precisando mais”.
Três homens e uma mulher registrados em nossa História, com participação efetiva na Segunda Guerra Mundial.
Para muitos, fazem parte do contingente de anônimos que, de uma maneira ou de outra, tomaram parte dos campos de batalha do conflito que marca, tragicamente, a trajetória do Homem sobre a Terra.
Para nós, jordanenes, a lembrança e a reverência a quem viu e viveu, de perto, e anonimamente, um aspecto da Humanidade de que a maioria só ouviu falar.
Quem souber onde é que afinal foi parar a plaquinha original do Monumento ao Expedicionário instalado na Praça da Bandeira, avise. Seria ótimo tê-la de volta ao seu local de origem – por justiça e honra dos militares jordanenses que defenderam o Brasil no mais sangrento e letal conflito armado já registrado na História da Humanidade.

Benilson Toniolo, professor, escritor e historiador, foi Secretário Municipal de Valorização da Cultura de Campos do Jordão (2013-2024) e atua como consultor do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em doze municípios brasileiros. Membro de diversas Academias de Letras e outras entidades culturais, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.


