9 de Julho: feriado relembra revolução que mobilizou Campos do Jordão

Nesta quarta-feira (9), o Estado de São Paulo celebra o feriado da Revolução Constitucionalista de 1932. Mais do que uma data cívica, o episódio mobilizou profundamente Campos do Jordão, que à época era um pequeno município de clima serrano e ar puro, mas acabou se tornando uma frente estratégica no conflito contra o governo provisório de Getúlio Vargas.

Segundo o livro História de Campos do Jordão do historiador Pedro Paulo Filho, a cidade passou a viver em clima de guerra. Por estar próxima à divisa com Minas Gerais, tornou-se uma espécie de zona militarizada, com soldados patrulhando trilhas da serra, abertura de trincheiras em bairros como o Campista, Alto da Boa Vista e Água Santa, e clima constante de tensão entre os moradores. Algumas dessas trincheiras ainda podem ser vistas até hoje.

A Estrada de Ferro Campos do Jordão teve papel central: era o único meio de transporte ligando a cidade ao Vale do Paraíba. Com receio de uma invasão mineira, moradores e autoridades temiam a necessidade de evacuação. Apesar das limitações da linha férrea, a EFCJ prestou relevantes serviços — transportando soldados, munições e até famílias inteiras que buscavam refúgio em outras cidades.

Quadro Fazenda da Guarda de Camargo Freire - Campos do Jordão
Quadro Fazenda da Guarda de Camargo Freire, local serviu de base para militares durante revolução de 1932

Outro ponto estratégico foi a Fazenda da Guarda, na zona rural da cidade, usada como acampamento militar e ponto de observação. De lá, partiam patrulhas que vigiavam as fronteiras com Minas Gerais, já que havia a expectativa de uma possível invasão por aquele trecho da serra. Além disso, a fazenda servia como elo de abastecimento entre os campos da Mantiqueira e a área urbana.

Entre os personagens envolvidos, destaca-se o engenheiro Francisco Machado de Campos, nomeado delegado técnico da cidade com honras de major. Coube a ele organizar a infraestrutura local: comunicação, logística e defesa. A população, por sua vez, era constantemente envolvida em episódios curiosos, como o caso dos moradores orientados a fingir estarem doentes, tossindo alto e gemendo, para afugentar soldados que pretendiam requisitar alimentos de suas casas.

Também houve episódios dramáticos, como o incêndio da residência do jornalista Paulo Bittencourt, no bairro Homem Morto. Proprietário do jornal Correio da Manhã, Bittencourt teve sua casa queimada por soldados constitucionalistas, como retaliação às críticas feitas ao movimento.

Outro destaque foram os estudantes voluntários que vieram combater em Campos. Jovens da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e da Politécnica formaram o Batalhão Piratininga, que enfrentou o rigoroso frio jordanense acampados sob os pinheiros da serra.

Apesar de todo esse esforço e mobilização, a Revolução de 1932 terminou sem alcançar seu objetivo imediato — uma nova constituição —, que só seria promulgada dois anos depois. Mesmo assim, o episódio entrou para a história de São Paulo e de Campos do Jordão como símbolo de coragem, organização civil e amor pela democracia.

Curiosidades que marcaram o conflito na cidade:

  • O “Batalhão de Campos do Jordão” foi criado com moradores da cidade, sob o comando do 2º Tenente Mário Pereira.
  • Moradores fingiam estar doentes para evitar que soldados invadissem suas casas em busca de mantimentos.
  • Um soldado da Cavalaria foi arrastado por um cavalo nos descampados da Mantiqueira e ficou inutilizado para o serviço ativo — relato que ilustra os perigos enfrentados na geografia acidentada da serra.

Neste feriado, ao subir a serra ou caminhar pelos bairros citados no livro, vale lembrar que por ali passaram soldados, trincheiras, estratégias e histórias que ligam Campos do Jordão a um dos momentos mais emblemáticos da história paulista.

 

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