O encanto resiste ao tempo? Sobre a beleza perdida nas paisagens conhecidas.

Depois de alguns meses morando em Campos do Jordão, recebemos a visita de um casal de amigos muito queridos, Fernanda e Paulo, que vieram matar a saudade e conhecer a cidade. Ao se encantarem com as belezas tão únicas daqui, fizeram uma pergunta muito interessante: “vocês já se acostumaram que aqui é tão lindo? Depois de meses vivendo aqui, vendo isso todo dia, vocês ainda têm essa sensação de encantamento ou a beleza já virou ‘normal’?”.

Adoramos a pergunta porque ela sinaliza algo extremamente importante no nosso modo de lidar com o mundo: ela questiona nossa capacidade de sustentar um olhar poético sobre as coisas com constância, evitando banalizar o que é especial ou normalizar coisas de grande valor, como se elas pudessem deixar de ser tão interessantes quanto mais olhamos para elas.

Pense na força que isso tem quando se trata dos nossos relacionamentos. Quando nos apaixonamos, vivemos o encanto da primeira vez de tudo. Ao longo do tempo, como isso é preservado? Conseguimos manter esse olhar de encanto para a mesma pessoa anos a fio? Tantas relações naufragam quando o momento da novidade passa, quando surge a ideia de que “eu já conheço, já sei como é”, quando parece não haver mais nada a se descobrir sobre o outro, quando a repetição da rotina se instala e desafeta o olhar. O outro virou uma paisagem conhecida.

O que mudou? O outro ou o nosso olhar?

E quando nosso trabalho, um dia entusiasmante, se torna um fardo? E quando o cuidado com a casa e com os filhos já não nos permite viver momentos de prazer e satisfação com esse cotidiano? E quando um hobby vira tarefa?

O que acontece com nossa capacidade de sustentar o encanto pelas coisas?

Um dia, não havia energia elétrica. No outro, já se podia chegar em casa, apertar um botão e pronto: havia luz. Quem viveu essa transição pôde se encantar. Hoje, consideramos isso normal. Antigamente precisávamos esperar a chegada de uma carta por meses, ou torcíamos para a pessoa estar em casa para atender um telefonema. Hoje, nos irritamos quando alguém aparece online e não responde instantaneamente às nossas mensagens. Já foi preciso esperar dias para revelar negativos em uma loja e termos em nossas mãos as fotografias que agora se multiplicam sem a menor dificuldade. As tecnologias são um bom exemplo de como vamos nos acostumando e considerando ordinárias coisas que já foram até revolucionárias.

No campo dos negócios, isso está incorporado ao desenvolvimento dos produtos: o que é diferencial hoje será o básico amanhã. A ideia de progresso se baseia na contínua produção de novidade, pegando carona nessa nossa tendência de “enjoar” daquilo que já temos, já conhecemos, já alcançamos.

Parece que a familiaridade é inimiga do fascínio.

Será que as coisas especiais estão sempre com os dias contados?

O que torna algo “especial” é o seu contraste com o que consideramos normal. Porém, se normalizamos o especial ao longo do tempo, esse contraste desaparece. Perdemos de vista a beleza que continua ali e que apenas se tornou invisível diante do nosso olhar, que se voltou para outras coisas, nessa busca incessante por novidades. É como se, para serem especiais, as coisas precisassem ser novas sempre.

Além disso, a visibilidade do especial pode diminuir quando nos deparamos com seus defeitos, dificuldades ou limitações. Por exemplo, a pessoa apaixonante tem algumas manias irritantes. O filho tão desejado dá um trabalho danado. A cidade em que vivemos, com sua natureza e arquitetura exuberantes, é cheia de buracos e tem uma saúde pública precária. Aquela reunião familiar de domingo deixa uma pilha de louças pra lavar. O trabalho dos sonhos também cansa. Coisas especiais também podem ser desafiadoras, mas nem por isso deixam de ser especiais.

O encanto não reside nas coisas, mas no nosso olhar.

A repetição, o hábito e o tédio ofuscam o valor das coisas. Se ficarmos atentos a essa nossa tendência, podemos então lembrar de ver o costumeiro sob uma outra perspectiva. Quem sabe descobrir um detalhe inédito naquilo que pensávamos já conhecer por completo. Talvez recuperar um olhar mais sensível para o mundo seja um exercício fundamental para reaprendermos a contemplar e nos satisfazer com o que temos. O “novo” que tanto buscamos, pode estar em nossa capacidade de reavivar a beleza no cotidiano.

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” – José Saramago

 

Nos vemos aos sábados, quinzenalmente, aqui no Guiacampos.com.

 

Erika Faria ([email protected]) e
Cezar Perini ([email protected])
são psicólogos e psicanalistas,
moradores de Campos do Jordão.

 

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