Floresta de Retratos

Se, no momento em que apertei o obturador da minha câmera, eu, ao invés de enxergar a pose recém-encenada por um dos meu retratados, pensasse no meu momento e na minha paixão pelos retratos, eu certamente lembraria que sem querer estava imitando o fotógrafo fictício criado por Luis Fernando Verissimo no texto para o meu livro Luz Invisível. Estava claro para mim agora: o fotógrafo daquele conto era eu.

Começava assim: “Ideia para uma história. Aparece um homem numa cidade oferecendo-se para fotografar as pessoas. Diz que não cobra nada por isso. Fotografa-as na rua e no seu estúdio. Faz retratos individuais, casais, famílias, grupos… Todos aceitam o seu convite para posar.

Já que é de graça! E o homem fotografa todo mundo. Homens, mulheres, velhos, crianças.

Passa o tempo todo nas ruas da cidade fotografando. Ou dando o seu cartão e dizendo: “Aparece no meu estúdio, vamos fazer um belo retrato”. Em pouco tempo, fotografa toda a população do lugar. Ninguém paga nada para ser fotografado. Quando as pessoas perguntam ao homem por que ele as está fotografando, ouvem uma resposta evasiva. Ou resposta nenhuma. E um dia o homem desaparece, tão misteriosamente quanto tinha aparecido. Descobrem que seu estúdio foi abandonado, que ele levou suas câmeras e luzes e não disse a ninguém para onde ia. Todos estranham. E alguém diz:

Vocês se deram conta? O quê? – Nunca se viu nenhuma fotografia…

Qual era a explicação? Surgem várias teorias. E então surge a teoria mais estranha, e por isso mesmo a que tem mais aceitação.

O homem era um enviado de outro mundo, de outra dimensão. Seu trabalho era coletar gente, ou imagens de gente, e transmiti-las para o seu planeta, onde haveria uma crise de imagens, ou de gente. Suas câmeras não eram câmeras, eram transmissores intergalácticos. Naquele exato momento toda a população da cidade estava povoando outra cidade, em outro universo, em outra dimensão. Era isso. O homem fornecia populações inteiras para cidades despovoadas por algum cataclismo. Ou apenas imagens para um mundo só de imagens. Pensando bem, não seria uma teoria tão descabida assim. Porque o que um fotógrafo faz é transmitir imagens deste mundo para outro. Um outro mundo banal, não muito diferente deste, se o fotógrafo for medíocre, mas um mundo só dele, numa galáxia particular com seu próprio clima e seu próprio universo de referências, se for um Scavone.”

Neste ponto da história devo dizer aos meus retratados deste projeto que não tenho a mínima intenção de desaparecer destas montanhas. Pelo contrário, vim para cá para também um dia virar uma árvore. O que percebi mesmo é que, olhando em volta, vi gente e árvores. As pessoas eu as trouxe para o estúdio, claro, mas as árvores, elas me levaram para as florestas da serra da Mantiqueira. No estúdio fui exposto à aura dessas pessoas, para espanto da minha labradora, a Laika, que acompanhava os retratos bem de perto, talvez com medo de que eu também desaparecesse no final como no conto. Acho que foi ela que primeiro percebeu o fenômeno da aura ou luz invisível dos fotografados; dizem que os cães ouvem e enxergam coisas que nós humanos não alcançamos. Pois a cachorra, de costas para os modelos, olhava na minha direção e da minha câmera e, através das portas envidraçados do estúdio que enquadrava a vista das montanhas, parecia ter descoberto alguma coisa que intrigava seu instinto canino. Algo acontecia: acho que eram as árvores lá longe, acenando para nós pedindo para serem também fotografadas.

Por aqui criei raízes e me perdi em bosques. Por aqui cochilei na grama sonhando imagens esboçadas por nuvens. Tinha ficado fácil, faltava celebrar o que já estava por aqui há milhões de anos: os troncos e as folhas, as raízes e as flores, a mata e água.

Meu agradecimento para esta cidade vai na forma destes retratos de pessoas e de árvores na tentativa de enxergar um outro ser, uma terceira entidade da qual não sabemos o nome, apenas sabemos da sua existência raramente revelada nas madrugadas frias destas montanhas através dos latidos e uivos distantes da queles que nunca dormem.

Campos do Jordão, outono de 2024.

 


Marcio Scavone, fotógrafo que se dedica a
expor as raízes da fotografia em seus trabalhos.

 

 

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