E aquela conversa difícil que você vive adiando?

—“Precisamos conversar…” Seja dizendo ou ouvindo essa frase, se ela te causa calafrios, você não está só. Para quem a escuta, parece uma convocação quase solene capaz de ativar um imediato estado de alerta. Para quem fala, parece um salto no precipício. O que será que torna essas palavras tão inquietantes?

Talvez elas anunciem algo que, se não fosse muito impactante, não precisaria de tanto preparo para ser dito.

Terminar um relacionamento, pedir um aumento para o chefe, dizer que se sentiu machucado por alguma coisa que outra pessoa fez, revelar um segredo que não se pode esconder mais, anunciar uma decisão que frustrará alguém, pedir ajuda quando não se dá mais conta de alguma dificuldade, assumir um grande erro… Todo mundo viveu ou conhece alguém que já passou por algumas dessas situações.

O que todas elas têm em comum é que inevitavelmente trazem consequências — ainda que não saibamos quais. Isso inibe tanto quem fala quanto quem escuta, criando um obstáculo para o tratamento de assuntos espinhosos.

Por que evitamos conversas difíceis?

Achamos que falar sobre o que é complexo criará conflitos, e associamos conflitos com rupturas e rompimentos. Queremos que as situações se resolvam sem a nossa participação, pois participar envolve se expor, se envolver e assumir uma posição diante do problema. Tememos a reação das pessoas ou o prejuízo à imagem que construímos perante elas. Falar sobre o que é delicado nos deixa vulneráveis: o que o outro pode fazer com isso?

A conversa que adiamos carrega uma verdade. Essa verdade não é algo aleatório ou sem sentido. Não se trata de ofender alguém gratuitamente, demandar algo por capricho ou simplesmente despejar nossas frustrações esperando que o outro as tolere. Nossas verdades são difíceis de reconhecer e expressar porque, lá no fundo, sabemos que, ao revelá-las, algo na ordem estabelecida das coisas será mexido, alterado e, em alguns casos, descontinuado.

Por isso mesmo, nossa tendência é evitar interações angustiantes, adiando-as indefinidamente e usando as mais variadas defesas contra o enfrentamento de temas delicados e suas consequências.

Preferimos o conhecido, ainda que disfuncional

Tendemos a afastar tudo que é desagradável da nossa vida mental. Não gostamos de pensar ou sentir coisas que nos tirem o equilíbrio interno. Mesmo sabendo que não está tudo bem, fazemos um esforço imenso para nos convencermos de que está. Assim, encarar os diálogos difíceis significa bancar trazer à tona algo que, por defesa mais ou menos consciente, mantemos reprimido.

Vamos inventando desculpas para nós mesmos para não fazermos qualquer movimento. Dizemos, por exemplo, que “falar não vai resolver”, dando logo de cara um xeque-mate na única ferramenta eficiente que temos ao nosso alcance: o diálogo. Além disso, atrelamos o ato de conversar à necessidade de resolver, como se a conversa só tivesse valor se trouxesse soluções.

Podemos também adotar uma posição passiva, esperando que fatores externos mudem nossa realidade. São as “soluções mágicas”, resquícios do nosso jeito infantil de acreditar que as coisas podem aparecer e desaparecer pela força do pensamento.

Outra prática comum é negarmos a gravidade da situação — o famoso “passar pano”. Fingimos que aquilo não é tão importante, menosprezando a relevância daquela questão em nossas vidas, tudo para não ter que encarar um momento decisivo.

Frequentemente, driblamos possíveis confrontos abordando o assunto parcialmente, selecionando ou editando o que dizemos. Assim, deixamos de lado a verdade que importa para nos proteger do impacto emocional de enfrentar o problema a fundo.

É bom lembrar que, muitas vezes, ainda não encontramos as palavras certas para expressar o que sentimos ou não temos um discurso bem estruturado sobre o que queremos falar. Essa falta de clareza interna dificulta a abordagem das questões.

O silêncio parece proteger, mas na verdade dificulta a possibilidade de transformações. No fim, nossas defesas acabam gerando efeitos mais nocivos do que tratar das verdades doloridas.

Não saímos ilesos quando nos acovardamos.

Não é notável a força que fazemos para manter tudo como está, mesmo quando nos sentimos desconfortáveis? Os efeitos de tanta evitação são inúmeros. Culpa, vergonha, autopunição, irritabilidade, apatia, comportamentos compensatórios, desmotivação… São verdadeiros “tiros no pé” emocionais.

O sentimento de culpa é um bom exemplo disso. Podemos nos sentir mal por abordar o assunto e talvez causar fissuras na relação com o outro, claro. Mas também podemos nos culpar por não abordar o assunto, recuando repetidamente frente a algo importante. De um jeito ou de outro, nosso julgamento interno não nos dá paz. O mais comum é preferir o silêncio e suportar, calados, uma punição interna, achando que a culpa por expor o que pensamos seria ainda maior e mais dolorosa. Das duas culpas, escolhemos a que parece “menor”. Mas isso tem um preço, e não escapamos de pagá-lo. Nesse caso, o do isolamento emocional de quem escolhe carregar o peso sozinho.

Para piorar um pouco as coisas, aquilo que reprimimos pode escapar por entre nossas defesas e aparecer de formas “tortas”, saindo acidentalmente como lapsos, atos falhos ou outras formas indiretas de expressão. Sabe aquela história de “esquecer” a janela do WhatsApp aberta e alguém ver uma conversa comprometedora? Ou aquele hábito de ficar incomodado e, em vez de resolver a questão, dar “cutucadas” na pessoa por motivos banais? Muitas vezes, essa aparição “acidental” pode produzir efeitos piores do que um diálogo desafiador, mas bem organizado.

Rupturas ou pontes? Um destino em aberto.

Somos testados a abrir mão do controle dos efeitos das nossas falas, já que não temos como saber como o outro as receberá. Talvez, nem mesmo conversando, consigamos acessar por completo o que as pessoas pensam e sentem.

Arriscar-se em conversas difíceis é, antes de tudo, um ato de aceitação dessa condição humana de nunca ter o controle sobre o outro, seus desejos, demandas e condições. Aceitar que estamos em constante negociação em nossas relações, e que isso é mandatório na vida social, pode ajudar a nos libertarmos desse medo de encarar as verdades nos vínculos.

Sim, um tema delicado pode criar um território de tensão. Mas, por mais árduo que isso seja, atravessar as emoções que nos prendem e permitir que nossa verdade seja expressa pode modificar nossa relação com o outro e com a gente mesmo. E isso não depende do desfecho dessas conversas, mas do ato em si: um ato que dá ao outro a oportunidade de decidir o que fazer com isso que apresentamos. Um ato de coragem que transforma o precipício em uma tentativa de construir pontes.

“Em última instância, o combustível de todo companheirismo, seja num casamento ou numa amizade, é a conversa”. — Oscar Wilde

 

Erika Faria ([email protected]) e
Cezar Perini ([email protected])
são psicólogos e psicanalistas,
moradores de Campos do Jordão.

 

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