10 de janeiro: Abernéssia FC completa 85 anos de glórias e de lutas

Quem vem de vila Jaguaribe pela “avenida de baixo”, atual avenida Frei Orestes, sentido Abernéssia, passando ali logo depois da histórica Fonte da Amizade, bem ao lado do nosso inesquecível “Choquinho”, pouco antes do Escritório Jordanense de Contabilidade, de Ricardo Malaquias, e da Arca de Noé, de Adriana Harger, repara, à sua direita, em uma área descampada, sem edificação, bem ao lado do rio. Ali, entre o rio e a calçada, o gramado limpo e aparado da área sem cercas ou muros proporciona ao passante uma certa impressão de asseio.

Quem está há mais tempo na cidade já sabe que lugar é esse; quem chegou há pouco, terá dificuldade em localizar. Isto posto, explico: aquela área abrigou, durante muitos anos, a sede social do inesquecível Abernéssia Futebol Clube, grande esquadrão do futebol de várzea jordanense desde sua fundação, em 10 de janeiro de 1940.

Durante décadas, naquele lugar, para além das disputas do futebol, jordanenses e visitantes se esbaldaram, cantaram, dançaram e se emocionaram participando de inesquecíveis bailes, festas de todo tipo, jantares, shows, comemorações diversas, desfiles, reuniões e uma infinidade de outras atividades socioculturais que marcaram época em nossa cidade.

Lá se vão, portanto, 85 anos da mais pura História de uma das mais tradicionais agremiações esportivas de Campos do Jordão ao longo do tempo.

Segundo Pedro Paulo Filho (História de Campos do Jordão, p. 474-478), a atividade futebolística organizada no alto da serra começou com o Sport Club de Campos do Jordão, que em janeiro de 1925 já disputava amistosos contra equipes de outras cidades (como o Acadêmica, de Pindamonhangaba) no campo localizado nas imediações da atual rua Maurilio Comoglio.

Em 1939, a prefeitura iniciou a construção de um novo campo – onde hoje se encontra o Estádio Benedito Vaz Dias, também conhecido como “campo do Abernéssia”, que seria reinaugurado em 1962 com a participação da seleção brasileira de futebol, que fez em Campos do Jordão uma de suas etapas de preparação para a Copa do Mundo do Chile, onde se sagraria bicampeã mundial.
A prática do ludopédio crescia a olhos vistos. Com a fundação do Campos do Jordão FC (antigo Capivari F.C.) em 1929 e da Associação Atlética Jaguaribe dois anos depois, coube aos esportistas de Abernéssia a iniciativa de fundar também a sua agremiação: nascia, então, o Abernéssia FC, tendo o azul e o branco como cores oficiais e com a devida autorização da prefeitura para fazer uso do campo recentemente construído.

Aos poucos, o campeonato municipal foi se fortalecendo e novas equipes foram surgindo. Além do Jaguaribe, do Campos do Jordão e do próprio Abernéssia, equipes como Grande Hotel, Vale Encantado, Abissínia, Palmeiras, Guarda, entre outros, protagonizavam a principal distração semanal dos amantes do esporte. O jornal A Cidade cobria as rodadas a cada domingo e publicava os resultados, a classificação, escalações, os artilheiros, os principais destaques individuais, os golaços e os “frangos”, público, renda…

À beira do gramado, antes e depois dos grandes jogos, os principais assuntos da cidade eram discutidos e decididos – inclusive a vida política, assunto que causava, e ainda causa, grande interesse por parte dos jordanenses.

Voltando ao Abernéssia, personagens históricos como Altino Franco, o já citado Benedito Vaz Dias, Benedito Alves de Brito, Octavio Bittencourt, Felicio Raimundo Netto, Waldemar Ferreira da Rocha (pai do historiador e escritor Edmundo Rocha), Altino Arantes, Augusto Barsalini, Pedro Rodrigues (o “zelador da bola”) e Benedito Brito (o “zelador do campo”), entre outros, foram os responsáveis pela condução da assembleia que criou o clube, cujos estatutos foram aprovados no dia 23 de fevereiro, pouco mais de um mês após sua fundação.

A partir da década de 1950, a sede mudou-se definitivamente para o lugar que destacamos no começo deste texto – sede esta que não pode resistir ao sexto incêndio sofrido por motivos até hoje desconhecidos, e que colocou fim ao que ainda restava da sede principal do glorioso esquadrão alvi-azul abernessiano, detentor de tantos títulos esportivos em seus quase oitenta anos de história.
As chamas e as labaredas, entretanto, não colocaram fim ao Abernéssia FC, que, mesmo sem sede, continua vivo no coração de seus torcedores, esperançosos de ver novamente, um dia, seu time do coração adentrar o gramado do “seu” estádio para mais uma partida do grande jogo da História.

Nesse dia, todos os grandes craques do passado, que desfilaram seu talento e sua garra pelos campos jordanenses e de outras cidades defendendo as cores abernessianas se unirão, comovidos, aos torcedores de hoje, na doce lembrança do que se foi e na expectativa de que, uma vez que ainda vive, o Abernéssia FC volte a ter seu nome gritado nas arquibancadas dos campos de várzea da Montanha Magnífica.

Vida longa, portanto, ao imortal do alto da serra.
Parabéns, Abernéssia Futebol Clube!

 

Benilson Toniolo
foi Secretário Municipal de Cultura
de Campos do Jordão é escritor premiado
e membro de diversas academias de letras.

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