Você já se pegou interpretando uma ação de outra pessoa como ataque, provocação ou tentativa de levar vantagem sobre você, e depois viu que não era nada disso?
É uma típica experiência de desconfiança, em que aquilo que vem do outro aciona um alarme interno e é percebido como uma ameaça para a gente lidar.
Poderíamos chamar esse mecanismo de “presunção de má-fé”, ou seja, partir do princípio de que aquilo que o outro está fazendo, dizendo ou querendo tem, no fundo, alguma intenção de ganho para si ou de prejuízo para nós. Assim, deduzimos que não dá para confiar em tal atitude e nos colocamos numa postura defensiva.
Quer ver alguns exemplos?
No trânsito, alguém te dá uma fechada ou entra sem dar seta. Instantaneamente vem o pensamento “esse cara fez isso de propósito! Que folgado!”. Algo feito por um absoluto anônimo, que não faz ideia de quem você seja, torna-se praticamente um ataque pessoal. No restaurante, o garçom demora a atender sua mesa. “Ele está enrolando, atendendo os outros primeiro!”.
Se essas situações te parecem impessoais demais, vamos a outras. Você entra no quarto e encontra uma toalha molhada em cima da cama. “Ele/ela fez isso só pra me irritar!” ou “ele/ela não está nem aí para o que eu peço, já falei mil vezes!”. Ou então: a mensagem que você enviou não é respondida no tempo que você espera. “Ela está me ignorando, me dando gelo!”. O colega de trabalho não te ajudou: “ele não vai com a minha cara, tem alguma coisa contra mim”.
O que significa (des)confiar?
A capacidade de confiar é fruto de uma construção complexa, que combina múltiplos fatores. Não se trata simplesmente de saber ou não confiar, como se fosse uma habilidade que se tem ou não se tem.
“O exercício da confiança poderia ser descrito como a capacidade de transitar pela incerteza.”
A questão é que, para isso, dependemos de toda uma estrutura (individual e coletiva) que nos dê a segurança de que confiar é, sim, um salto de fé, mas um salto onde as incertezas não representam perigos ou prejuízos irreparáveis. Infelizmente, nem sempre as coisas funcionam assim.
É aí que a desconfiança entra, cumprindo uma função psicológica importante: é um mecanismo de defesa contra aquilo que nos traria algum tipo de prejuízo. Pode ser para nos defendermos de uma possível frustração em algo importante, ou uma resposta por estarmos “calejados” de tanto sermos enganados ou maltratados. Pode ser por medo em uma situação em que nos sentimos vulneráveis por alguma razão. Desconfiar, teoricamente, seria uma forma de a gente se proteger por uma razão justa.
Porém, o que o cotidiano revela em uma infinidade de conflitos é que, muitas vezes (talvez na maioria delas), a gente faz uso dessa defesa sem a menor necessidade. E, quando essa defesa se torna um problema em vez de uma solução, nos metemos em ansiedades e conflitos que impactam nossa vida e nossas relações interpessoais.
Lembrando dos nossos exemplos anteriores: e se o motorista que te fechou estivesse somente distraído, com pressa por algum motivo importante ou, simplesmente, é uma pessoa ansiosa ao volante? E se o garçom estivesse muito sobrecarregado para dar conta de tantas mesas? E se a pessoa que demorou a responder estivesse só ocupada ou deixado o celular no silencioso? E se a toalha molhada na cama fosse só uma falta de atenção ou um hábito antigo, difícil de mudar, mas sem intenção alguma de te atingir? E se o colega de trabalho está com problemas em casa ou desmotivado por outras razões?
Se partíssemos da presunção de inocência do outro, e não da má-fé, faríamos essas perguntas diante de tais situações. Mas, muitas vezes, somos apressadamente atravessados pela ideia de maldade implícita na atitude do outro, e saímos fazendo julgamentos precipitados e equivocados.
A cultura da desconfiança no Brasil
Há dois aspectos da cultura brasileira que merecem uma atenção especial quando pensamos no comportamento desconfiado de muita gente.
Somos conhecidos como o “país do jeitinho”, uma nomeação que surgiu quase como uma homenagem à resiliência do brasileiro em sua longa história de colonização, escravidão e burocracia estatal. É um termo que remonta à cultura da improvisação, das maneiras informais de resolvermos problemas diante das ineficiências ou normas rígidas que nos cercam. “Dar um jeito” virou sinônimo de esperteza, com essa ambivalência natural: é algo bom e ruim ao mesmo tempo. Bom pela solução criativa e flexível, ruim pelo caráter de quebra das regras, desvio das normas, desorganização, falta de compromisso com questões coletivas etc. Acaba sendo um termo que maquia o peso de coisas sérias, como a corrupção por exemplo.
Além disso, criamos também um nome para aqueles comportamentos egoístas, oportunistas e desleais das pessoas: a Lei de Gerson, ou a ideia de que gostamos de “levar vantagem em tudo”. Essa expressão aprofunda o caráter antiético das manobras para driblar o sistema, destacando que isso não é feito só por necessidade, mas também por conveniência e esperteza. Se o “jeitinho” normaliza a flexibilização das normas sociais como algo aceitável, a ideia de se levar vantagem em tudo potencializa a ocorrência de trapaças, atitudes egoístas, desleais, atos covardes etc.
Desse modo, a cultura da crença generalizada de que o brasileiro “é” assim incentiva a desconfiança e impulsiona um certo ceticismo nas relações interpessoais, como se o outro só pensasse em si mesmo e pudéssemos ser passados para trás a qualquer momento.
Não é à toa que, hoje em dia, confiar na honestidade e boa fé das pessoas virou sinônimo de “ser trouxa”. Presumir a boa intenção do outro passou a ser visto como uma espécie de ingenuidade.
Será que o brasileiro “é” assim ou fomos levados a acreditar que esse é o único jeito de sobreviver?
Invertendo a lógica: a presunção de inocência como ferramenta de bem-estar
Enquanto não escaparmos dessa lógica de que o outro quer nosso mal e insistirmos em ficar atentos o tempo todo para nos defendermos das supostas más intenções do outro, preservaremos esse péssimo hábito de desconfiança crônica espalhado em tantas camadas da nossa vida: pessoal, familiar, social, profissional, cultural.
Será que não é possível adotar uma postura madura de confiança, sem nos sentirmos “trouxas”? Será que não é possível inverter a premissa de que o outro está “de sacanagem” para uma ideia de que “está tudo bem até que algo se apresente me mostrando o contrário”?
Podemos nos questionar: “e se não for pessoal? E se houver outro motivo pra isso?”. Talvez se cultivarmos um olhar mais curioso e menos acusador sobre o comportamento alheio, poderemos mergulhar nas reais motivações do outro ao fazer o que faz, e não naquilo que imaginamos ser suas motivações.
Também é importante lembrar que, ao sofrermos uma decepção por termos confiado em alguém, é natural começarmos a questionar o próprio ato de confiar. “Que tolo eu fui! Tá vendo? É nisso que dá confiar nas pessoas.” No entanto, o problema não está na confiança que depositamos no outro, mas no mau uso que ele pode fazer dela. E isso diz mais sobre o outro do que sobre nós. Nossa capacidade de confiar não precisa depender daquilo que o outro faz com isso.

Erika Faria ([email protected]) e
Cezar Perini ([email protected])
são psicólogos e psicanalistas,
moradores de Campos do Jordão.


