Quem caminha por Campos do Jordão, vindo da vila histórica de Jaguaribe, no sentido do centro turístico de Capivari, habitualmente, ali na altura da praça João de Sá, antigo Largo do Tirol, onde está instalada a atual sede da Secretaria Municipal de Turismo, acaba, com alguma frequência, por acessar uma via paralela à principal: a rua que fica atrás da praça.
Foto: Acervo Edmundo Ferreira da Rocha – camposdojordaocultura.com.br
A partir dali, alguns metros adiante, a paisagem se transforma: começando pelo pioneiro hotel Chateau, tem início um desfile de pousadas e hotéis de luxo – alguns tradicionais, outros mais recentes -, restaurantes, lojas e galerias que oferecem, aos cinco sentidos de quem passa, um pouco do famoso glamour de Campos do Jordão. É a rua que serve como uma das principais portas de entrada para a vila turística e seus encantos: rua Macedo Soares. Quem?
José Carlos de Macedo Soares é um dos nomes mais significativos da primeira metade do século passado. Nascido em São Paulo, foi jurista, historiador, escritor, professor, industrial, diplomata e político. Esteve presente nos principais fatos da vida brasileira no período, desde a Semana de Arte Moderna de 1922, quando integrou o comitê organizador, até a adesão ao getulismo depois do golpe de 1930, exercendo os cargos de ministro da Justiça, de Negócios Interiores e Relações Exteriores – este, por duas vezes- e interventor no Estado de São Paulo entre os anos de 1945 e 1947 – o último dos interventores nomeados por Getúlio e Dutra. Foi o primeiro presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, cargo que exerceu por dezesseis anos.
Na Cultura, sua contribuição também é enorme: além da presença já citada como membro da Semana de 22, foi presidente da Academia Brasileira de Letras e membro da Academia Paulista.
Como Ministro da Justiça de Getúlio, em 1937, promulgou o que ficou conhecido como “as macedadas”: após apenas quatro dias no cargo, determinou a soltura imediata dos presos políticos acusados de participar da denominada Intentona Comunista de 1935, um movimento que tinha por objetivo a deposição do presidente Getúlio Vargas. Macedo determinou a soltura imediata dos presos sem acusação formal, sem direito a defesa e sem processo de acusação – entre eles, o escritor alagoano Graciliano Ramos, que transcreveu os dias passados na prisão em um diário que, tempos depois, seria publicado como as “Memórias do Cárcere”. Macedo Soares ainda revogou o Estado de Guerra impetrado por Getúlio durante o levante vermelho, devolvendo o país à normalidade institucional, jurídica e política. Desnecessário dizer o que as “macedadas” representaram para o governo, principalmente entre as forças militares e integralistas, o que gerou grandes dores de cabeça para o homem que deu nome à hoje festiva via pública jordanense.
No livro “História de Campos do Jordão”, Pedro Paulo Filho, o historiador maior da estância, não economiza em elogios: refere-se a Macedo Soares, simplesmente, como “o Magnânimo” (página 283). Tem razão o nosso Pedrinho: a ligação de Macedo com Campos do Jordão é realmente notável.
Frequentador da cidade desde a década de 1920, até sua morte, em 1968, o embaixador deixou uma folha de serviços incomparável na cidade durante o duro Ciclo da Tuberculose (ou da Cura, como preferem os eufemistas). Doou terrenos para a construção de sanatórios e centros de recuperação de doentes, custeou a presença de sacerdotes da Igreja Católica (alguns atingidos pelo bacilo de Koch e com a saúde bastante fragilizada), contribuiu com a construção das três igrejas pioneiras – São Benedito, Santa Teresinha e da Saúde -, viabilizou a implantação da agência dos correios, indicando Simão Cirineu Saraiva para ocupar o cargo principal da nova edificação, agiu politicamente junto ao govenador Armando de Salles Oliveira para rasgar os caminhos que permitiram a criação da rodovia SP-50 e foi decisivo para a indicação dos médicos-prefeitos durante o período da Prefeitura Sanitária de Campos do Jordão. Naquele tempo, nenhuma providência se tomava nesta cidade sem que, antes, fosse ouvida a opinião e a “autorização” do famoso e influente embaixador Macedo Soares, qualquer que fosse a natureza do assunto.
Macedo Soares foi, definitivamente, um homem que viveu e contribuiu de forma decisiva para o desenvolvimento de Campos do Jordão no período mais difícil de sua História – aquele em que os jordanenses, quando saíam da cidade, eram obrigados a omitir sua origem para não ter que suportar o preconceito declarado daqueles que associavam a cidade à doença, à morte, ao luto. À época, como registra nossa historiografia, ser jordanense era sinônimo de tuberculose.
Pedrinho estava certo em não economizar nos elogios: muito do progresso da Montanha Magnífica ao longo de sua História se deve à dedicação do influente embaixador – que teve, dizem, até um bairro cujo nome foi dado em sua homenagem.
E é nesta rua que vou caminhando, neste início de noite de sexta-feira de outono jordanense, quando me dirijo para um dos cafés convidativos e prazerosos de Vila Capivari, bem defronte ao shopping onde, segundo consta, estava localizada antigamente a casa da família Macedo Soares – José Carlos e sua esposa, Mathilde Melchert.
Ali, bem à frente, o lugar onde vivia a família Monteiro Lobato, o escritor, a esposa e os quatro filhos. Hoje, no lugar da casa que foi demolida, existe uma loja de móveis.
E é por esta Campos do Jordão que vou caminhando, tentando identificar, aqui e ali, lugares, memórias, edificações e monumentos de um tempo em que a principal atividade da cidade era receber e lutar pela vida daqueles que, vindos de todos os cantos do Brasil, sofriam a dor da doença e o desengano dos “sem cura” – e que encontravam, em Macedo Soares, um homem singularíssimo que olhava por eles, trabalhava para aliviar-lhes o sofrimento e que sabia fazer, da atividade política, um importante instrumento em prol dos necessitados de saúde e de esperança.
Da próxima vez que for a Capivari, caminhe lentamente pela rua do embaixador. E, ainda sem pressa, tome um café para brindar àquele que dá nome a uma das mais bonitas vias públicas da nossa cidade – e que tanto trabalhou para fazer dela o que o onipresente Pedrinho chamou de “Altar da Solidariedade Humana”.

Benilson Toniolo
foi Secretário Municipal de Cultura
de Campos do Jordão é escritor premiado
e membro de diversas academias de letras


