O recente episódio no Palazzo Maffei, em Verona, onde visitantes danificaram uma delicada obra de arte ao tentar fazer uma foto “de impacto”, expõe uma realidade cada vez mais comum — e triste — em destinos turísticos ao redor do mundo. Campos do Jordão não escapa disso.
Por aqui, não é raro ver pessoas mais interessadas em registrar o momento perfeito do que em vivê-lo de fato. Quantas vezes a vista de tirar o fôlego do Pico do Itapeva ou o charme da Vila Capivari são apenas cenários para cliques apressados, ignorando a brisa, os sons da natureza ou a delicadeza de um detalhe arquitetônico?
Nos restaurantes, iguarias muitas vezes esfriam enquanto o ângulo ideal da selfie é buscado. Em igrejas e praças floridas, os olhos passam direto, vidrados na tela do celular. O momento se torna secundário. O que importa é o post.
O que dizer então daqueles que, em busca da “selfie perfeita”, chegam a colocar a própria vida em risco? Em Campos do Jordão, era comum – quando o bondinho funcionava – ver turistas se posicionando nos trilhos, mesmo com o veículo se aproximando, apenas para garantir uma imagem que chame atenção nas redes sociais. O clique que deveria registrar uma lembrança torna-se, ali, uma imprudência que pode custar caro. Não é exagero: o desejo de ser visto tem superado, muitas vezes, o instinto de preservação — e o bom senso.
É claro que registrar é importante. A fotografia eterniza memórias. Mas ela jamais deveria substituir a vivência. Em Verona, o resultado foi a destruição de uma obra de arte. Em Campos, o dano é mais sutil, mas talvez mais profundo: a perda da experiência plena.
A arte — seja ela uma peça com cristais Swarovski ou uma paisagem da Serra da Mantiqueira — pede presença. Atenção. Respeito. Porque viver o momento é, também, uma forma de preservá-lo.
Ricardo M. S. Gonçalves
Fundador do Guiacampos.com e um dos
apaixonados por Campos do Jordão


