Campos do Jordão, paraíso brasileiro de museus. | Por: Benilson Toniolo

O IBRAM, órgão do governo federal responsável pela gestão e centralização de informações acerca dos museus brasileiros, informou que, de acordo com levantamento concluído recentemente, um em cada dez museus existentes no país, entre públicos e privados, encontra-se fechado, a maioria por problemas financeiros.

Não é pouca coisa: das 4.010 edificações cadastradas no órgão, 385 estão fechadas, o que representa quase 10% do total. O motivo principal, em quase todos os casos, está relacionado à falta de recursos para manutenção. Museus não são diferentes de casas: ocorrem mofos, infiltrações, vazamentos, necessidade de pintura, reformas grandes e pequenas, adequações, obras de acessibilidade, modernização, manutenções preventivas e corretivas. Se não há dinheiro, todas essas providências vão sendo postergadas e, em pouco tempo, o patrimônio se deteriora. Uma casa, portanto. 

A maioria dessas instituições fechadas, 167, está subordinada à administração pública: pertencem ao Estado – prefeituras, governos estaduais e/ou federal. As demais, 112, estão vinculadas à iniciativa privada:  empresas, associações, fundações e entidades religiosas. A forma de gestão, na verdade, pouco importa: o que cabe ressaltar aqui é a grave situação de grande parte do acervo museológico nacional, que se constitui em um elemento fundamental para a preservação da Cultura e da Memória do país. Museus são partes indissociáveis da identidade viva de um povo, e o fato de estarem fechados por falta de recursos financeiros, como disse, é grave. Muito grave. 

Boa ocasião, entretanto, para pensarmos na situação dos museus e centros de memória de Campos do Jordão. Aqui, ao contrário do que se verifica em escala nacional, é possível dizer que existe uma espécie de “paraíso dos museus”. Afinal, que outra cidade com pouco mais de 50 mil habitantes pode contar com a quantidade e diversidade instaladas nestes altos da Mantiqueira paulista?

Atualmente, Museu Casa da Xilogravura, Palácio Boa Vista, Museu Felícia Leirner, CARDE, Museu da Lã, Centro de Memória Ferroviária e a exposição permanente de fotos antigas de Edmundo Ferreira da Rocha na Casa de Cultura formam um verdadeiro roteiro museológico destinado não só aos visitantes, mas sobretudo à sociedade jordanense interessada no conhecimento, preservação e valorização da Cultura local. 

Há ainda os casos que, ao longo da História, surgiram e desapareceram depois de pouco tempo de funcionamento: Pinacoteca Camargo Freire, Museu da Imagem e do Som e Museu da Tuberculose desapareceram com a mesma velocidade com que surgiram – curiosamente, as três nasceram de “momentos iluminados” de gestores públicos municipais e foram vitimadas por circunstâncias políticas e inexistência de planejamentos a longo prazo – sem falar, claro, pela falta de investimentos por parte da gestão municipal.

Criar e manter um museu é tarefa das mais hercúleas – que o diga o professor Antonio Fernando Costella, do Museu Casa da Xilogravura, que recentemente recebeu um pesado golpe ao ver revogado de forma arbitrária e unilateral, pela Universidade de São Paulo, o ato de doação celebrado há cerca de vinte anos, que contou, inicialmente, com a aprovação da entidade. 

A julgar pela postura da principal universidade pública estatal paulista com relação ao museu jordanense – que goza de reconhecimento internacional e abriga milhares de obras de artistas do mundo inteiro –, talvez não seja difícil entender a razão pela qual a maioria dos museus fechados no país, 76, esteja no Estado de São Paulo. Na sequência, Minas Gerais, com 52, Rio Grande do Sul, com 36, e Rio de Janeiro, com 32, mostram que nem sempre o fato de uma unidade da federação ser considerada “rica” é sinônimo de valorização da Cultura e de investimentos adequados na preservação da memória coletiva como formas de desenvolvimento humano.

Voltando a Campos do Jordão: a cidade parece finalmente ter entendido que investir em Cultura é a maneira mais segura de investir na construção de uma sociedade mais justa, participativa e solidária – e que eventos, por mais fantásticos que sejam, passam como o vento. O que fica é a identidade cultural de um povo – que tem, nos museus, o seu depositário mais fiel de símbolos e significados.

E por que não pensar que alguns dos nossos tradicionais estabelecimentos hoteleiros, como Toriba, Grande Hotel, Savoy, Vila Inglesa, Leão da Montanha, entre outros, não possam também criar centros de memória do turismo e da gastronomia locais, com a exposição permanente de fotografias, cardápios, cartazes e materiais publicitários, por exemplo, ressaltando sua importância histórica, criando novos atrativos para os visitantes e ressignificando sua trajetória?   

Longa vida aos museus de Campos do Jordão, dignos representantes da nossa fantástica caminhada sobre a face da Terra, e que tornam esta cidade uma referência em preservação, capacidade técnica e salvaguarda do gênio humano – e, sobretudo, brasileiro. 

Fonte: https://www.otempo.com.br/entretenimento/2025/6/4/quase-10-dos-museus-no-brasil-estao-fechados-e-maioria-e-do-poder-publico

 

Benilson Toniolo, professor, escritor e historiador, foi Secretário Municipal de Valorização da Cultura de Campos do Jordão (2013-2024) e atua como consultor do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em doze municípios brasileiros. Membro de diversas Academias de Letras e outras entidades culturais, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.

 

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