Pequena crônica de Corpus Christi | Por: Benilson Toniolo

Quarta-feira, véspera do feriado de Corpus Christi na cidade mais alta do Brasil, entre duas e três da tarde. Um céu azulzíssimo, um sol generoso, o verde dos pinheiros e o rosa opulento das cerejeiras de inverno recebendo o ventinho gelado que sopra das matas tornam a quieta rua da Vila Cristina, bem perto do portal de entrada, um paraíso em meio ao caos de barulho e trânsito que vai tomar conta – na verdade, já está tomando – dos bairros turísticos nas próximas horas. Todo ano é assim, todo ano é do mesmo jeito, e em linhas gerais é bom que assim seja – pelo menos para a maioria das pessoas que aqui reside.

O silêncio da pequena alameda, finalmente asfaltada depois de décadas de poeira e lama, só é quebrado pelos latidos dos cachorros da vizinhança, um galo habituado a fazer-se ouvir nas horas mais improváveis do dia, gaviões em busca de comida pelos matos e alguns socós que perambulam em volta dos alagadiços; de resto, reina a mudez que ainda resiste em determinados lugares da urbe jordanense. 

Em meio à paisagem colorida e bucólica, um carro faz a curva lá no início da rua, vindo da direção da rodovia. Um carro grande, luxuoso, prateado, de vidros escurecidos, não perguntem a marca – pouco ou nada sei de nomes dos automóveis, sobretudo os mais novos lançamentos da indústria automobilística nacional. Problema, talvez, de quem nunca teve carro em casa quando menino, e só foi botar a mão na direção de um valente fusca 1979 aos trinta anos de idade. 

O carro, grande e de luxo, como já disse, para na rua deserta, a poucos metros do portão de nossa casa, e dele sai o motorista, pela porta que lhe corresponde. Não há mais ninguém dentro do veículo. O homem para, contempla o entorno, encosta na parte traseira do automóvel, retira o aparelho celular de um dos bolsos da frente da calça e passa algum tempo olhando para a tela, dedo em riste voltado para o telefone, pronto a ser utilizado, caso o cérebro assim determine. 

Passados alguns momentos, ele volta a guardar o aparelho no bolso, abre o porta-malas e dele retira um objeto insólito, a julgar pela paisagem em que a história se passa: uma cadeira de praia, que monta com a rapidez de quem está habituado à operação e deposita rente ao meio-fio, onde se senta, novamente com o celular em punho.

O homem começa a falar no telefone. Com uma mulher, a julgar pelo que se depreende da conversa. Diz que já tomou sua decisão. Que jamais imaginou que aquilo pudesse acontecer um dia, logo com ela, logo com ele, logo com eles. Que naquele momento se encontrava em um lugar muito distante dela, e que era um lugar muito bonito, que ela precisava conhecer, e que o silêncio inundava tudo em volta. Disse o homem que havia pinheiros como eles tinham visto no Paraná quando se conheceram naquele congresso, só que muitos pinheiros, e todos muito próximos, parece que se a gente estender a mão para a frente e para os lados é possível tocar em um deles, vários deles, e que havia também algumas árvores de folhas cor-de-rosa que se misturavam aos pinheiros e que era tudo tão bonito, tudo tão calmo, e ele havia parado para contar isso para ela. Disse o homem sentado na cadeira de praia também que havia um cheiro leve que parecia de madeira queimada que o fazia lembrar do fogão a lenha de sua avó quando era menino, e que era incrível haver um lugar como este, tão perto de tudo e ao mesmo tempo tão distante, que era como se ele tivesse entrado em um mundo fora do tempo, e que aquilo tudo que estava experimentando havia contribuído para que ele, finalmente, tomasse a decisão que teria que tomar. Que ela tinha razão, Campos do Jordão é mesmo um sonho, e não demoraria muito para que eles estivessem livres para, finalmente, viver o sonho deles dentro desse outro sonho. Mais coisas disse o homem, posto que de palavras vazias e de algaravias também se constrói a paixão. 

Até que parou de falar. E ouviu, longamente, o que sua interlocutora dizia. Desencostou as costas da cadeira e apoiou o braço sobre o joelho esquerdo, mesmo lado da mão que segurava o aparelho e do ouvido que o escutava. Ainda tentou argumentar enquanto ela falava, mas não conseguiu articular frase alguma. No máximo, um balbucio. Esfregou os olhos com a mão direita, subiu até o alto da cabeça, cujos cabelos pretos coçou com certa impaciência. Segurou o queixo e continuou ouvindo por mais algum tempo. Até que voltou a falar, mas em um tom tão baixo que só pode ser ouvido por quem estava do outro lado da linha. 

O homem desligou a ligação com o dedo indicador pressionando a parte baixa da tela do telefone. Caminhou um pouco, o que provocou alguns latidos nas casas vizinhas. Colocou as mãos no bolso, estreitou os braços junto ao corpo e sentiu frio. Voltou calmamente ao lugar onde estivera antes, guardou a cadeira de praia no porta-malas e voltou a se encostar na lataria do carro. Em seguida suspirou – que fundo! -, pegou novamente o celular e apontou a câmera em direção às araucárias e às cerejeiras que serviam de moldura praa a cena. 

Depois acessou o dispositivo de mensagens, apertou o ícone de comunicação de voz e falou: “acabei de chegar. Já soube o que houve. Estou voltando. Não, eu como alguma coisa na estrada. Diga a ela que vai ficar tudo bem. Vamos precisar de dinheiro”.

Assim como chegou à linda e silenciosa ruazinha, o homem partiu. Estava perto da rodovia e pegar o caminho de volta seria tão fácil quanto havia sido chegar. E tenho a impressão de que, enquanto abria a porta do grande e luxuoso carro, ele usou o antebraço para limpar alguma coisa perto dos olhos. Não deu para ver, ele estava de costas. 

A tarde avançava linda e quieta na Vila Cristina. Lá embaixo, depois da Vila Albertina, a cidade começava a fervilhar com as cores e os sons de mais uma temporada de inverno. 

E a vida seguiu, acompanhada de todos os vícios e virtudes que caracterizam a nossa condição. 

 

Benilson Toniolo, professor, escritor e historiador, foi Secretário Municipal de Valorização da Cultura de Campos do Jordão (2013-2024) e atua como consultor do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em doze municípios brasileiros. Membro de diversas Academias de Letras e outras entidades culturais, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.

 

 

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