A quinquagésima-quinta edição do tradicionalíssimo Festival Internacional de Inverno Luís Arrobas Martins de Campos do Jordão, que começa neste sábado, 5 de julho, já se reveste de excepcionalidade antes mesmo de serem executados os seus primeiros acordes.
Não, não se trata de nenhuma nova e badalada atração internacional, como sempre aconteceu na programação artística. O que torna o festival deste ano tão especial para nós, jordanenses, é que depois de muito tempo um grupo de músicos locais volta a fazer parte da programação oficial deste que é considerado o “maior festival de música erudita da América Latina”.
Vale lembrar que não é a primeira vez que isso acontece. Nas edições de 2013 (no Espaço Cultural dr Alem) e 2015 (concerto de encerramento no Auditório Claudio Santoro), a cidade foi representada pela extinta Orquestra Filarmônica Jovem de Campos do Jordão, também conhecida como Campos Filarmônica, criada e conduzida com brilhantismo pela maestrina jordanense Renata Cristina Ortiz de Villate, que com garra e determinação incomuns manteve, durante algum tempo – infelizmente muito breve diante da magnitude e da importância do projeto – um grupo de excelentes músicos locais reunidos em torno de uma ideia (e de um sonho): que a cidade-sede do histórico festival tivesse o direito de participar da programação não apenas como “convidado dentro de sua própria casa”, mas como protagonista. Em duas oportunidades, ela conseguiu. Eles conseguiram, e entraram para a História da cidade e do próprio festival.
Depois de exatamente uma década, os jordanenses voltam a experimentar a incrível sensação de ver seus artistas ocupando legitimamente um espaço que é seu, por direito e por competência. No próximo dia 10 de julho, o Espaço Cultural Dr Alem, que depois de seis anos volta a servir como uma das sedes, recebe o espetáculo “Coro Jovem Canta Tom Jobim”, uma homenagem justa e merecida ao músico e compositor carioca que é considerado um dos maiores de todos os tempos e que dá nome, com toda justiça, a uma das principais escolas de música do Estado de São Paulo.
O espetáculo, gratuito, “nasceu com o objetivo de preservar e propagar o repertório brasileiro de Bossa Nova entre a nova geração de adolescentes que, infelizmente, não conhece, em sua maioria, a obra do genial maestro brasileiro”, sentencia uma das criadoras do projeto, a musicista, professora e regente Débora Cristina Fernandes – a “Débora da SEA”, como muitos a conhecemos.
A conquista do jovem grupo jordanense também revela o papel fundamental das entidades do terceiro setor para o desenvolvimento social, educacional, cultural e artístico de jovens talentos que buscam não apenas obter formação musical, mas também conquistar oportunidades de aprendizado, crescimento intelectual, estético e de cidadania. Nesse sentido, é digno de registro o incansável trabalho realizado pela Amecampos, por meio do seu presidente, empresário Aref Farkouh e da gestora Silvia Barreto.
Colocar a cidade de Campos do Jordão dentro da programação do Festival de Inverno de Campos do Jordão é um desafio que atravessa gerações. Não é de hoje que se fala da necessidade de que a cidade seja mais do que simplesmente a sede do evento, mas que, por seus próprios méritos, dele também faça parte com o mesmo destaque e reconhecimento dos outros artistas e grupos que fazem dele a potência cultural, artística e econômica que é hoje. O festival não é somente “mais um evento”: é “o” grande evento do nosso calendário anual, criado em 1970 para estimular a indústria local do turismo e que, graças a um trabalho de cinco décadas, não só atingiu o seu objetivo como foi – e continua sendo – fundamental para elevar a cidade ao posto de principal destino de turismo de inverno do Brasil por meio da Cultura.
Em cinquenta e cinco anos, é apenas a terceira vez que os jordanenses sobem ao palco do Festival de Inverno com um grupo musical constituído e nascido no alto da serra, entre os pinhões e à sombra das araucárias. Ainda é pouco, muito pouco – mas o suficiente para encher a todos nós de um grande orgulho e de uma grande esperança de que, daqui para frente, com a continuação de trabalhos como os da Amecampos e também da Fundação Lia Maria Aguiar, nossos aplausos aos artistas do festival ecoarão mais fortes sempre que, entre eles, estiver perfilado um cidadão jordanense.
A cultura brasileira agradece – e nós, com as palmas das mãos vermelhas de tanto aplaudir, mais ainda.

Benilson Toniolo, professor, escritor e historiador, foi Secretário Municipal de Valorização da Cultura de Campos do Jordão (2013-2024) e atua como consultor do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em doze municípios brasileiros. Membro de diversas Academias de Letras e outras entidades culturais, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.


