Imaginem uma partida de futebol nos dias de hoje tendo, de um lado, uma equipe formada por atletas apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro e, do outro, de simpatizantes do atual presidente Lula. Um jogo amistoso, claro, mas com direito a uniforme, comissão técnica, trio de arbitragem, torcida e tudo o mais. Inimaginável, não? Pois é.
A mim, mais do que estranhamento, me causa certo temor de que algo muito sério e desagradável vai acontecer a qualquer momento nesta partida utópica e impensável. “É a polarização”, dirão alguns. “Ninguém respeita mais ninguém”, lamentarão outros. E seguimos, entre o absurdo da intolerância e o espanto do desrespeito.
Pois foi exatamente isso que aconteceu em Campos do Jordão há mais de noventa anos, mais precisamente no dia 14 de outubro de 1934, quando, em Vila Capivari, se reuniram as equipes do Partido Comunista Futebol Clube e do Esporte Clube Perrepista para um jogo amistoso.
A cidade acabara de conquistar a tão sonhada autonomia administrativa e a política já começava a se constituir em um dos temas prediletos dos cidadãos jordanenses. O ano de 34 trazia ainda os ecos da Revolução Constitucionalista de 32, que teve em Campos do Jordão uma das suas principais trincheiras, e Luís Carlos Prestes já planejava suas andanças pelo território nacional, que tanta dor de cabeça deram aos governistas.
O presidente Getúlio Vargas acenava com a prometida nova Constituição Federal durante aquilo que convencionou-se chamar de “Governo Provisório” que ia desaguar na ditadura do Estado Novo, enquanto o médico e prefeito municipal Antonio Gavião Gonzaga conduzia a cidade em pleno período da expansão dos sanatórios que recebiam tuberculosos de todo o Brasil.
Mas voltemos ao nosso match dominical de Vila Capivari, parodiando o saudoso Fiori Gigliotti. Pelos direitistas do PRP, partido criado pelos oligarcas paulistas do café apoiadores da política ‘café-com-leite’, entraram em campo, pela ordem de posição: Caio Jardim, Robert John Reid, Rogério Feliciano Godoy, Edgard e Altino Franco; Eduardo Moreira da Cruz, Francisco Clementino de Oliveira e André Kok; Francisco de Moura Coutinho Filho, Paulo Dubieux e Lucínio Castilho.
Pelos comunistas, Heitor Sanchez, Antonio Gavião Gonzaga (o próprio prefeito!), Aristides Souza Mello, Belizário Pereira e Simão Cirineu Saraiva; José Leôncio, André Kotchecoff e Oliveira Santos; José Thomas, Norberto e João Cardoso.
Naquele dia, pessoas de posicionamentos ideológicos opostos se reuniram para combinar uma partida de futebol e mostrar que, ao contrário do que muitos pensam hoje em dia, é possível respeitar a opinião alheia sem ter pensamentos homicidas. E até confraternizar com eles!
Segundo Pedro Paulo Filho em “História de Campos do Jordão” (pág. 476), “os cartazes de publicidade anunciavam entrada grátis aos portadores de título de eleitor”. Houve público, portanto.
Quanto acabou o jogo? Quem ganhou de quem? Quem foram os artilheiros da tarde? Pouco importa.
O mais importante nesse acontecimento de cunho político-esportivo foi a lição de civilidade e tolerância que nossos antepassados deixaram para a posteridade.
E que, hoje em dia, ainda temos dificuldade em praticar.

Benilson Toniolo, professor, escritor e historiador, foi Secretário Municipal de Valorização da Cultura de Campos do Jordão (2013-2024) e atua como consultor do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em doze municípios brasileiros. Membro de diversas Academias de Letras e outras entidades culturais, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.


