Campos do Jordão sempre foi marcada pelas construções em pedra. De muros simples de propriedades a casas inteiras erguidas com esse material, a pedra é parte da identidade visual e cultural da cidade. Não é apenas um detalhe arquitetônico: é um traço de pertencimento, que liga o homem à montanha.
Entre esses elementos, destacam-se os muros de contenção da Estrada de Ferro Campos do Jordão (EFCJ). Construídos para garantir estabilidade ao terreno e segurança à ferrovia centenária, eles são muito mais do que estruturas técnicas. São peças históricas, erguidas há décadas, que sustentam e embelezam um patrimônio da cidade.
Nos últimos dias, porém, um desses muros de pedra — justamente no trecho que serve de contenção para a linha férrea — começou a ser derrubado. A justificativa pode ser obra, adequação ou modernização, mas o resultado visível é o mesmo: a perda de um elemento autêntico da nossa paisagem.

Talvez seja falta de orientação, talvez seja desconhecimento. Mas pode ser também preguiça. Preguiça de pensar, preguiça de fazer, e, do nosso lado, preguiça de nos posicionar. Preguiça até de manifestar a, quiçá, existente, indignação. E assim, quando se percebe, já é tarde demais: um pedaço da cultura de um povo já foi mutilado, pouco a pouco, em nome de soluções que ignoram a importância da preservação.
O que se assiste não é só a queda de pedras, mas uma verdadeira mutilação cultural. Cada bloco retirado representa o apagamento de uma técnica artesanal, de uma memória coletiva e de um estilo que dá identidade a Campos do Jordão. A cidade que se orgulha de sua arquitetura e da sua ferrovia histórica não pode fechar os olhos para o desmonte de partes essenciais desse conjunto.

Estamos em um momento em que se fala em revitalização da ferrovia, em concessão e em investimentos milionários. Pois bem: revitalizar não é apagar. Preservar significa restaurar, respeitar, valorizar. Substituir muros de pedra por estruturas sem alma é rasgar páginas da nossa história.

Se queremos que Campos do Jordão continue sendo referência de patrimônio, turismo e cultura, precisamos começar pelo básico: cuidar daquilo que já temos. Derrubar esses muros é ferir a essência de uma cidade que nasceu e cresceu entre a serra, as pedras e a ferrovia.

Autoridades, por favor, vamos prestar mais atenção na cidade e preservar o que de fato é nosso?

Ricardo M. S. Gonçalves
Fundador do Guiacampos.com e um dos
apaixonados por Campos do Jordão


