Que a literatura jordanense passa por um momento especial, marcada por grande e relevante produção, não é novidade para ninguém.
A impressão que temos é que nunca se escreveu tanto na cidade, e sobre a cidade, como nos últimos anos.
Excetuando-se aí o episódio das anedóticas “cartilhas simplórias” (como assim referiu-se o autor da ideia) que o pessoal da prefeitura andou distribuindo nas escolas municipais e que o Ministério Público, de maneira muito coerente, mandou recolher, a verdade é que tem muita gente boa – gente boa! – estudando, pesquisando e contando histórias sobre Campos do Jordão. E isso é ótimo.
Nas próximas semanas, os leitores terão acesso a duas novas obras que contribuirão ainda mais para o enriquecimento desse acervo literário e histórico.
Refiro-me às obras de Vicente Pereira de Souza, nosso estimado “Pelé”, e de Helena Therezinha Moysés, nossa querida professora Helena.
Ambos dedicaram a maior parte de sua vida ao trabalho no alto da serra: Vicente na Minalba, onde começou como auxiliar de serviços gerais e foi galgando cargos importantes até assumir um importante papel de direção, e professora Helena no magistério – enérgica, disciplinadora, possuidora de grande conhecimento humano e pedagógico e, sem exagero, responsável direta pela formação inicial de centenas – ou seriam milhares? – de pequenos jordanenses.
Particularmente, tive o privilégio de contribuir com a elaboração das duas obras – tanto na revisão quanto na apresentação, graças ao gentil convite de ambos os autores.
“Nascentes da Mantiqueira”, de Vicente, é um livro simples, escrito por um homem simples oriundo do povo trabalhador da montanha, e que serve de alerta a todos aqueles que se ocupam – e se preocupam – com a continuidade da vida no planeta, seriamente ameaçada pela ganância, pelo desperdício e pelas injustiças sociais que, até hoje, vitimam grande parte da população.
Publicado pela editora Campos do Jordão, utilizando belíssimas imagens de autoria de José Claudio Guimarães e usando um estilo de escrita objetivo e claro, que não deixa inclusive de reconhecer e exaltar as maravilhas da Montanha Magnífica, sua narrativa denuncia o descaso e o mau uso da água por grande parte da sociedade moderna, que comprometem diretamente a continuidade da vida no planeta como, até hoje, a conhecemos.
O autor não é propriamente um literato. É mais do que isso: é um homem que usa o que aprendeu durante a vida para alertar aos seus semelhantes que, a continuar como estamos, o planeta está com os dias contados. E, desta forma, do alto da sabedoria adquirida ao longo de tantos anos de trabalho e estudos, cumpre seu papel como homem e como cidadão.
Helena Therezinha, por sua vez, apresenta uma joia em forma de poesia. “Rimação Caipira”, seu terceiro livro, traz o ineditismo de uma obra toda escrita com base no legítimo jeito de falar do jordanense: caipirado, mineiro-paulista, caboclo, tropeiro, deslumbrado e agradecido pelas grandes e pequenas belezas que a vida lhe oferece a cada dia.
Do fundo de suas memórias, preservadas e múltiplas, ela pega o leitor pela mão e, como quem oferece um café quentinho na caneca de casa e uma broa de milho (ou um pedaço de bolo de fubá) no meio de uma tarde qualquer, nos conta de como era bonita e acolhedora esta nossa Campos do Jodão de antigamente.
Conta causos, vai desfiando histórias, fala das inesquecíveis fogueiras de São João de sua infância e juventude, da vó Candinha, do vô João, dos manos, das estradas mineiras palmilhadas tantas vezes a pé e que desembocam neste alto de serra que ela e tantos outros conheceram, cuja cultura resiste e pretende permanecer.
São poemas simples, escritos como falam os nossos caipiras, figuras que ultimamente são tão difíceis de se encontrar pelas movimentadas e barulhentas ruas da cidade.
Vicente e Helena são assim: gente simples, pacata, que apenas quer contar suas histórias e partilhar suas visões de mundo e da vida, e que escolheram contar escrevendo livros. São seu legado, sua memória, sua mensagem, parte importante de sua contribuição como cidadãos que sempre foram.
Vale também citar os que se envolveram nessas obras e atuaram de forma decisiva para que viessem a público: o já citado José Cláudio Guimarães, que cuidou com muito apuro e competência do livro do Vicente, e a Adriana Harger, presidente da Academia de Letras de Campos do Jordão (cargo temporário) e sobrinha da Helena (cargo vitalício, para sorte das duas), que abraça todas as causas literárias que lhe chegam às mãos e que trabalhou muito para que o livro ficasse pronto.
Fiquem atentos, portanto.
Tem coisa muita boa chegando para fazer morada na estante de livros das famílias jordanenses. Reserve um espaço generoso, ensolarado e bonito em sua casa para receber tanta coisa boa.
E, se faltar espaço na estante ou no móvel da sala, encosta um pouco para lá o celular e o carregador para dar lugar ao que, no final das contas, também realmente importa: as memórias das pessoas.
Que também são as nossas.

Benilson Toniolo, professor, escritor e historiador, foi Secretário Municipal de Valorização da Cultura de Campos do Jordão (2013-2024) e atua como consultor do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em doze municípios brasileiros. Membro de diversas Academias de Letras e outras entidades culturais, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.


