Nem todo marco histórico nasce grandioso. Alguns surgem de gestos simples, quase discretos, mas carregados de intenção. É assim com a Fonte da Amizade, em Vila Abernéssia, um ponto que atravessou décadas acompanhando a vida cotidiana de Campos do Jordão.
No livro História de Campos do Jordão, a Fonte da Amizade aparece de forma objetiva: inaugurada em 26 de abril de 1961, como iniciativa da Casa da Amizade, ligada ao Rotary Clube de Campos do Jordão, durante a gestão de Sebastião Gomes Leitão. Um gesto comunitário típico de um período em que a cidade se construía muito pela ação direta da sociedade civil.
Durante muitos anos, a fonte manteve um diálogo claro com outro elemento histórico logo à sua frente: o antigo muro de pedras da Estrada de Ferro Campos do Jordão. E esse diálogo não era apenas visual. A técnica construtiva era a mesma. Tanto o muro quanto a fonte foram executados com pedras naturais, encaixadas de forma artesanal, sem padronização industrial — um método característico daquele período histórico da cidade.
Não se tratava de coincidência estética. Eram obras do mesmo tempo, feitas com a mesma lógica construtiva, refletindo uma época em que a pedra local era matéria-prima, solução técnica e linguagem urbana. Fonte e muro pertenciam à mesma narrativa histórica, à mesma forma de ocupar e organizar o espaço público.
O muro não resistiu. Foi demolido. E com ele se perdeu não apenas um elemento físico, mas também uma técnica construtiva, um modo de fazer cidade que dificilmente será reproduzido com a mesma autenticidade. Onde havia pedra, hoje há vazio. Um silêncio urbano que lembra como decisões equivocadas podem romper continuidades históricas.
A Fonte da Amizade permanece. Ainda está ali, feita da mesma pedra, do mesmo tempo, do mesmo saber construtivo. Justamente por isso, o alerta se impõe. O muro também esteve ali por décadas — até o dia em que deixou de estar.
Que a Fonte da Amizade não tenha o mesmo destino. Que seja preservada não apenas como monumento, mas como testemunho material de um período da cidade, de uma técnica construtiva e de uma relação mais cuidadosa com o espaço urbano.
Preservar Campos do Jordão não é apenas manter grandes edifícios ou cartões-postais consagrados. É respeitar esses elementos aparentemente simples que, pedra sobre pedra, sustentam a identidade e a memória coletiva da cidade. Incluindo também os marcos do trevo da Vila Santa Cruz por exemplo.
Ricardo M. S. Gonçalves
Fundador do Guiacampos.com e um dos
apaixonados por Campos do Jordão


