A maioria das pessoas, disse Mário da Silva Brito, ouve mas não escuta e o apóstolo Marcos nos Evangelhos proclamou: “quem tem ouvidos para ouvir, ouça”. Vamos contar um episódio jordanense que retrata bem a problemática. Ocorreu num grande supermercado, de renome nacional, em Campos do Jordão. A senhora foi ao supermercado fazer algumas compras. Escolheu uma coisa ali, outra acolá e se dirigiu ao caixa. A moço passou as mercadorias no sistema e disse que o total das compras importava 30 reais. A compradora jordanense entregou-lhe uma nota de 50 reais, recebeu o troco e saiu do supermercado dirigindo-se ao estacionamento onde estava o seu carro. No interior do veículo foi conferir o troco e verificou que o funcionário do caixa devolveu-lhe 30 reais, quando deveria devolver-lhe 20 reais. De maneira pouco comum no Brasil, a senhora jordanense decidiu retornar ao supermercado, pois houve erro no troco, recebera 10 reais a mais do que deveria receber. Aproximou-se bem pertinho do funcionário do caixa que lhe atendera, mas, como ela atendia um casal, disse alto para compradora: “A senhora espere um pouco que estou atendendo um casal”.
Já desocupado, o caixa perguntou à compradora jordanense o que ela queria. Ela exibiu a nota fiscal e disse: “Houve um erro no troco”. O caixa do supermercado respondeu: “Como erro no troco? A senhora não conferiu aqui?” A compradora respondeu: “Não, fui conferir no estacionamento e verifiquei o erro.” O caixa ficou irritado e mandou chamar o gerente, dizendo-lhe que a compradora reclamava de que houvera um erro no troco. O gerente perguntou à compradora: “A senhora não conferiu o troco aqui no caixa?” Ao que ela respondeu: “Não senhor, fui conferir no estacionamento”. O gerente, muito irritado, em tom mais elevado que o normal, disse à compradora jordanense: “A senhora não tem razão. O troco tem que ser conferido no caixa, rigorosamente no caixa, e não no estacionamento. Conferir o troco no estacionamento não tem nenhum valor para nós!” Aí quem ficou com irritação foi a compradora jordanense que escandindo as palavras, disse: “Vim aqui porque a caixa me deu 10 reais a mais e queria devolver a importância, mas, como o senhor está dizendo que não tem nenhum valor para o supermercado conferir o troco no estacionamento , vou ficar com os 10 reais que iria devolver! Passe bem!” A caixa e o gerente ficaram com cara de bunda. Custava ouvir a reclamação da compradora?
Deus nos deu dois ouvidos e uma boca, para significar que devemos ouvir mais do que falar.

Pedro Paulo Filho (1937–2014) foi um advogado, escritor, historiador, mais conhecido por seu trabalho sobre a história de Campos do Jordão, onde residiu a maior parte de sua vida. Ele também teve uma participação ativa na vida pública e em diversas organizações comunitárias da cidade. (Saiba mais)
Nota do Editor
Os textos da série “Crônicas de Pedro Paulo Filho” retratam épocas passadas e expressam a visão pessoal do autor sobre a vida e a cidade de Campos do Jordão. Os fatos, costumes e personagens mencionados podem não corresponder à realidade atual, uma vez que foram escritos entre as décadas de 1960 e 2014.


