Flora Caiuby: A mulher que fez história no Tênis Clube. Por: Benilson Toniolo

Imagem: criada por IA sobre foto original enviada por Edmundo Ferreira da Rocha.
Imagem: criada por IA sobre foto original enviada por Edmundo Ferreira da Rocha.

“O homem é definido como um ser humano e a mulher como fêmea – quando ela se comporta como um ser humano, ela é acusada de imitar um homem”. Simone de Beauvoir

Dizem os que viram: a eleição para presidente do Tênis Clube de Campos do Jordão naquele finalzinho de 1953 estava acirrada. Por motivos políticos, pouca gente estava disposta a votar no único sócio que apresentara sua candidatura – e além dele, ninguém mais se dispunha a concorrer. A liderança da entidade articulava, articulava, e nada de aparecer um candidato de consenso.

Naquela época, Campos do Jordão já era um município conhecido nacionalmente não somente por suas qualidades terapêuticas no combate à tuberculose, mas também pelo rico potencial turístico. Com o fim da prefeitura sanitária em 1946 e os avanços da medicina, diminuía consideravelmente a quantidade de doentes que procurava a “Suíça Brasileira” para se tratar. Por outro lado, aumentava o número de visitantes que vinham à cidade para descansar em férias cada vez mais agitadas e prolongadas. A cidade se transformava.

A municipalidade tentava “virar a página” e fomentava atrações turísticas que chamassem a atenção do seu público-alvo – a aristocracia paulistana. Tendo como garoto-propaganda o próprio governador Adhemar de Barros, criava eventos que pudessem aumentar ainda mais a sua fama e ajudassem na transição do Ciclo da Cura para o do Turismo. Nesse contexto, por exemplo, fora criada a Festa da Maçã, no mesmo ano de 1953. 

O Tênis queria eleger para sua presidência um nome de consenso, que não representasse oposição ao então prefeito Paulo Cury e, por conseguinte, não fugisse ao alinhamento com o governo do Estado. Durante uma reunião liderada pelo então presidente Jathil Nunes Pereira, alguém sugeriu o nome de uma mulher: a associada Flora Soares Caiuby, ativa frequentadora do clube, do qual era vizinha, e sobre cujo nome jamais se poderia levantar qualquer tipo de objeção.  

Indicação aceita, a eleição transcorreu, segundo contam os que a presenciaram, em um clima tenso, e terminou com a vitória de Flora, que exerceu seu mandato até dezembro de 1959, quando o transmitiu ao sucessor, Viriato Klabunde Dubieux.

Há muito pouco sobre a biografia de Flora. Quase nada, aliás. Os relatos a seu respeito foram transmitidos por aqueles que a conheceram, como Luiz Pereira Moysés, quando ainda estava entre nós, e os amigos Armênio Soares Pereira e Edmundo Ferreira da Rocha – ambos incontestáveis figuras públicas que carregam a própria História de Campos do Jordão em suas identidades.

A História oficial de Campos do Jordão é bastante econômica com relação ao papel da mulher. Com algumas exceções (em especial os representantes da colônia japonesa), a literatura destaca geralmente os homens, brancos e preferencialmente de ascendência europeia, que figuram com destaque nas narrativas e no protagonismo das ações e fatos históricos que marcam essa trajetória.

Todo 8 de março escrevo e digo a mesma coisa: é preciso ressignificar, valorizar e valorar o papel da mulher na História de nossa cidade. É muito pouco qualificá-la apenas como “a mulher do prefeito”, “a esposa do empresário”, “a funcionária do escritório”, “a professora da escolinha”, quando sabemos que grandes personagens como Frei Orestes e Monsenhor José Vita, por exemplo, tiveram ao seu lado mulheres igualmente extraordinárias que dedicaram grande parte da vida à recuperação da saúde dos tuberculosos, à alfabetização e formação acadêmica de crianças e jovens e a manter de pé instituições que são verdadeiras colunas de sustentação para a Campos do Jordão que hoje conhecemos.

Fundado em 1933, o Tênis Clube de Campos do Jordão consolidou-se ao longo das décadas como um dos mais importantes espaços de convivência social da cidade. Entre bailes, encontros culturais, atividades esportivas e momentos marcantes da vida jordanense, a instituição construiu uma trajetória profundamente ligada à história de Campos do Jordão. Trabalhei lá por quatro anos e meio, entre 1999 e 2003, e tive a oportunidade de conhecer de perto a importância dessa entidade para a vida da cidade.

A eleição de Flora Caiuby há mais de 70 anos para assumir a presidência do clube — até hoje a única mulher a ocupar o cargo desde a fundação da entidade, quase centenária – representa um marco simbólico que merece ser lembrado e analisado, pois ocorreu em um momento de grande importância histórica, não só para a entidade que contava, à época, com vinte anos de fundação, mas também para a própria cidade, mergulhada em um momento de grande transformação social, cultural, política e econômica. 

O episódio nos oferece um gesto de pioneirismo no cerne de uma tradição marcada pela direção masculina. Sua eleição mostrou que o espaço da liderança também podia ser ocupado por mulheres, antecipando debates que hoje se tornaram centrais na sociedade, como a ampliação da participação feminina em posições de decisão.

Mais do que administrar um clube, Flora Caiuby escreveu seu nome na memória social jordanense. Seu protagonismo abriu um precedente que permanece como referência histórica, lembrando que a transformação das estruturas sociais muitas vezes começa com gestos marcantes, ainda que discretos ou circunstanciais.

Para as mulheres de Campos do Jordão, especialmente para as novas gerações, essa memória ganha um significado inspirador. Ela demonstra que a presença feminina nos espaços de liderança não é apenas desejável, mas historicamente possível — e que cada conquista, mesmo quando parece isolada, contribui para inaugurar e ampliar caminhos e perspectivas.

Pena que se saiba tão pouco a respeito da biografia dessa mulher que aceitou enfrentar um grande desafio e inscrever com destaque seu nome na historiografia de nossa cidade.

Recordar a vitória de Flora Caiuby é também celebrar uma pioneira. Sua passagem pela presidência do Tênis Clube permanece como um capítulo singular de nossa História, e como um exemplo de que o protagonismo feminino pode surgir nos lugares mais tradicionais.

De preferência, em todos os lugares.

 

Benilson Toniolo, professor, escritor, historiador e gestor público, atua como consultor da AME Cultura (Agência Mineira de Entretenimento) em projetos do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em diversos municípios brasileiros. Membro de várias Academias de Letras e outras entidades, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.

 

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