O jogo de botão. Por: Benilson Toniolo

Pequenos e corriqueiros acidentes domésticos acontecem, principalmente quando as crianças começam a desafiar certas leis, desde as mais conhecidas, como a do que pode e não pode e, acreditem, até mesmo a da gravidade. Logo eles, que até ontem eram bebês inofensivos e hoje sabem ler, escrever e conhecem a fundo o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Por “pequenos acidentes” entenda-se, por exemplo, o caçula que acha que é o Batman e, na hora da cambalhota em cima da cama dos pais, enfia o tornozelo na quina do criado-mudo e quase quebra o pé. Ou o do meio, que aprendeu com o amigo da escola que, se chupar uma lâmpada, ganha superpoderes e fica parecido com o Tocha-Humana (e o pior é que quase dá certo, para desespero dos pais e da avó).

Mas nada se compara à noite chuvosa de segunda-feira em que João, o pai, foi ensinar o filho de seis anos a jogar futebol de botão.

***
– Francamente, João. Nunca esperei isso de você.

– Mas o que foi que eu fiz, meu bem?

– O que você fez? Já esqueceu, é? Já esqueceu como o pobrezinho chorava? Foi dormir soluçando, o pobrezinho, de tanto que chorava. Precisava fazer aquilo? Francamente!

– Mas foi só um jogo, meu bem. Eu estava lá lendo jornal, ele perguntou se eu sabia jogar botão, eu disse que sim e que era muito bom jogador quando era menino, ele duvidou…

– Mas precisava ganhar dele?

– Mas é um jogo, meu bem. Em jogo a gente ganha ou a gente perde. E não tem empate em jogo do botão.

– Você não é capaz de imaginar o trauma que uma coisa dessas pode gerar no futuro, na cabeça do menino?

– Que trauma, me diz? Que trauma? Foi seis a quatro, não foi seis a um nem seis a zero. Sei lá, comecei a jogar e me empolguei, foi isso. Me empolguei. De repente, lembrei da Seleção de 82 e abri os dois pontas, foi isso. Foi um impulso.

– Que Copa de 82, João! Você jogou com a Holanda, foi ele quem jogou com o Brasil. Ele me disse! Olha aí, o exemplo que você dá pro nosso filho. Capaz até de o sentimento de nacionalismo dele ficar prejudicado, depois disso. Olha lá, escutou? Ainda está soluçando.

– Então foi 74. Ou 78.

– O quê, João?

– A Copa. Se foi Holanda, foi a de 74 ou 78. Neeskens. Krol, Rensenbrink, Kep, os irmãos Van der Kerkhof – e claro, o maior de todos: Cruyff. O que jogava, o Cruyff…

Os velhos álbuns de figurinhas. Ele não esquecia.

Nem a esposa.

– Eu mereço, João. Pensar em Copa numa situação destas.

– Ele precisa aprender, meu bem. Uma derrota numa partida de futebol de botão aos sete anos não traumatiza ninguém.

– Seis anos, João. O menino só tem seis anos. Ele ainda vai fazer sete daqui a duas semanas.

– Tá bom, tá bom, seis. Uma derrota numa partida de botão aos seis anos de idade, ainda mais para o próprio pai, não significa nada. Ele precisa aprender a dureza da vida, ora bolas. E quando for final de Campeonato Brasileiro, valendo taça, e o time dele perder com um gol aos quarenta e oito do segundo tempo, num impedimento que o juiz não dá, ele vai fazer o quê? Ou coisa pior, como foi na final de 95? Poxa…

– Não estou falando disso, João, e sim do trauma. Do choro, entendeu? Do choro. E provocado pelo próprio pai! Presta atenção, João! E a responsabilidade?

– Tá. Tudo bem. Vou lá falar com ele.

– Agora não, que ele já deve estar dormindo. Fala amanhã.

***

Na hora de dormir, a mulher virou de lado e nem o costumeiro beijinho de boa-noite lhe deu, quem dirá o resto. Sem sono, ele ainda tentou repassar mentalmente a agenda de trabalho do dia seguinte, mas não tinha jeito.

João só pensava nelas: as belas camisas laranja flutuando sobre o campo. E no seu quarto gol naquela noite, quando segurou firme na batedeira e meteu no canto, rente à trave, no meio de dois zagueiros. Ali, ele teve que cerrar o punho e gritar. Não tem como não comemorar um gol daqueles, a bolinha entrando ao lado da trave e encaixando direitinho na redinha de plástico, como se fosse uma rede de verdade. Que gol, meu Deus, que gol…

E seu coração pulava e seu olhar brilhava na vaga escuridão do quarto, naquela noite iluminada pelo brilho inesquecível da infância revisitada.

No quarto ao lado, o menino dormia.

Nota do Autor: esta crônica foi escrita há mais de vinte anos. Foi publicada em “Casos ao Acaso”, meu primeiro livro de contos e crônicas – antes, portanto, do advento das redes sociais e num tempo em que os pais ainda conseguiam brincar com os filhos pequenos, sentados distraidamente no chão da sala.

Benilson Toniolo, professor, escritor, historiador e gestor público, atua como consultor da AME Cultura (Agência Mineira de Entretenimento) em projetos do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em diversos municípios brasileiros. Membro de várias Academias de Letras e outras entidades, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.

 

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