Campos do Jordão, domingo, abril. – Por: Benilson Toniolo

Manhã de domingo.

Saímos, Simone e eu, do culto da Igreja Metodista e, já no carro, ela faz o convite: “vamos pegar pinhão?”. Com mais de trinta anos de casados, certos convites são irrecusáveis. Este, por exemplo.
Ela completa: “ouvi dizer que ali na rua da biblioteca está cheio”. Rumamos para a Altino Arantes, alto da Vila Suíça, e estaciono o carro sob uma árvore, bem na frente da antiga Funcamp. Não sei mais o qual é o novo nome daquela escola tão importante, que já foi Sojel, Tancredo… Nenhuma denominação, entretanto, tira dela o nome com que é conhecida pela cidade toda: Funcamp.

Não havia pinhões naquela rua. Só casca. Alguém já tinha passado por ali antes de nós. Os que ainda restavam, encostadinhos no meio-fio, eram miudinhos, pequeninos. Pinhão de cidade é assim mesmo. Propus: “vamos procurar na Vila Natal?”. Vamos.

Ainda dei uma espichada de olho para a fachada da biblioteca municipal, que aparentemente ficou linda depois da reforma. Por dentro deve estar ainda mais bonita. Reparo: tiraram as placas históricas, de tombamento patrimonial, de aniversário, das reformas anteriores, da visita de Jorge Amado e Zélia Gattai, ocorrida há mais de cinquenta anos e que ficavam na parede externa, ao lado da porta de entrada… devem estar do lado de dentro do prédio, penso. Outra coisa: os prédios públicos de Campos do Jordão não têm mais a cor vermelha, que é uma das cores da nossa bandeira e do nosso brasão. Nem mesmo os frisos. Por que será? Vai saber, esse pessoal é esquisito. Deve ser medo do comunismo.

Rumamos para nosso novo destino sob um céu azulzíssimo, “sem nem uma nuvenzinha”. Abrimos os vidros do carro para deixar entrar o ventinho gelado da montanha. No Jaguaribe, demos toda aquela volta a que a eterna obra da famosa rotatória agora nos obriga, viramos na parada Grande Hotel (vazia de bondes), entramos na rua do Grupo Escolar Domingos Jaguaribe, pegamos a rua da Casa da Xilogravura, olhando atentamente para tentar ver se a Leda e o Costella estavam por ali – não estavam -, entramos à direita depois da igreja de Nossa Senhora da Saúde e subimos, no sentido do antigo hotel Orotour.

Logo depois do Café Terraço, a caminho do belíssimo Piccolo Borgo Antico, dos amigos Vittorio e Maria Gallinari, encontramos: em uma rua de terra, um enorme pinheiro-fêmea, belo, digno, exuberante, alto e vistoso como um amor recém-nascido. Encostamos o carro na beiradinha da rua, pegamos a sacolinha de pano que Simone trouxera de casa e nos fartamos. Pinhões enormes, carnudos, graúdos, alguns ainda com restinhos da pinha que os gestara.

Lembrei-me do sábio conselho de Edmundo Rocha: “quando for buscar pinhão no mato, toma cuidado com as urutus”. Alerto Simone: “passa o pé por perto para afastar as lagartas, as aranhas, as formigonas, as cobras…”. Afinal, estamos em ambiente alheio. Os invasores, aqui, somos nós.

Temos que ter respeito aos verdadeiros donos da casa.

Lembro-me de Soledade, a personagem do meu romance “Barra-dos-Meninos”, picada mortalmente por uma serpente enquanto pendurava roupas no varal. Toc, toc, toc.

Perto de nós, um bem-te-vi reclama com um piado longo. Um outro, um pouco mais distante, responde. Sabiás, saíras, sanhaços e tirivas se revezam no céu que, daqui de onde estamos, parece cada vez mais próximo.

Não se ouve o barulho de carros, de motos, de música alta nem de gente falando. É só o barulho imperceptível do tempo, o ruído do mato, a algaravia alegre dos pássaros, a generosidade da natureza, a majestade das araucárias.

Igualmente em silêncio, terminamos nossa tarefa. Sacolinha cheia, é hora de voltar para casa e preparar o almoço da família. Ao caminharmos de volta recebemos, agradecidos, um ventinho gelado no rosto.

Os meninos já acordaram, as respectivas namoradas chegarão daqui a pouco, a rede já está devidamente instalada no quintal e os livros que estamos lendo esperam na mesa da sala o momento em que serão abertos por seus leitores.

O dia passa entre conversas, música, filmes na tevê no meio da tarde e o cheiro do pinhão no fogo, que vai ocupando todos os espaços. Da panela de pressão, sobe o aroma ocre, forte, de madeira e mato, que toma todos os cômodos da nossa pequena casa na Vila Cristina.

Quem passa pela sala faz um carinho de leve na cabeça de Rosinha, a gatinha já anciã que nos acompanha há pelo menos dezesseis anos. Ela ronrona, espreguiça-se e volta a dormir.

No fim da tarde, o friozinho de abril já se anuncia. Hora de fechar as janelas. O domingo está acabando e, nas nossas cabeças, a segunda-feira se anuncia – sem traumas, sem medos, sem neuras. Um grande sentimento de calma e gratidão se apossa da casa.

No comecinho da noite sentamos no chão da sala, cada um com seu pratinho para depositar as cascas dos pinhões cozidos.

Lá fora, também a cidade se prepara para mais um início de semana.

O outono se aproximou lindamente, afastando o temor das chuvas torrenciais e insistentes do verão e trazendo a certeza de que, a cada ano, a cidade se renova em beleza e poesia.

Dez horas. Desliga-se a televisão. Aciona-se o sistema de alarme (é preciso, é preciso). O frio lá fora faz-se mais presente e vamos todos cuidar de atualizar a agenda de trabalho da semana que começa.

Na cozinha, sobre o fogão, também os pinhões descansam.

Benilson Toniolo, professor, escritor, historiador e gestor público, atua como consultor da AME Cultura (Agência Mineira de Entretenimento) em projetos do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em diversos municípios brasileiros. Membro de várias Academias de Letras e outras entidades, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.

 

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