Junho, o mês da grande cultura popular brasileira. Por: Benilson Toniolo

É de autoria do poeta pernambucano Geraldo Valença um poema que muita gente canta diariamente em todo o país, principalmente depois que Alceu, o sobrinho do poeta, aprumou os versos em melodia violada e incluiu em “7 Desejos”, seu antológico disco de 1992.

“Eu sei que é junho, o barro dessas horas / O berro desses céus, ai, de anti-auroras /  E essas cisternas, sombra, cinza, sul / E esses aquários fundos, cristalinos…”

Se o Brasil fosse um mês, seria junho. 

Junho traz em si uma brasilidade única, principalmente quando aterrissa de seu voo a bordo de longas fieiras de bandeirinhas coloridas de São João. E quando chega, traz em si uma infinidade de cores, de danças, folguedos e sabores que fazem dele o mais brasileiro dos meses do ano.

Junho é um mês sorridente, moreno e garboso, de roupas coloridas, que dança entre as fogueiras, veste a fantasia de padre, pinta o rosto para representar vários papeis no grande teatro da cultura do nosso país – e que é assim mesmo: gazeteira, brincalhona, faceira, misturada e absolutamente senhora de sua beleza e de todas as suas múltiplas faces. 

Junho é português, junho é africano, junho é caboclo, junho é quilombola, é sertanejo e é da serra, é dos matos, do mar e da beira do rio.

Junho é uma sequência de festas, é um encontro com aquilo que nos forma enquanto povo brasileiro. É o momento em que tradições vindas de diferentes regiões se encontram: a fé dos santos populares, os costumes das comunidades rurais, a criatividade das cozinheiras e cozinheiros, a música dos sanfoneiros, os versos dos repentistas, as quadrilhas, os causos e as brincadeiras que resistem ao tempo.

É mês de tempo mais ameno, de noites mais estreladas, de amores nascidos e cantados, de versos simples e confessados; dias límpidos, noites estreladas, cheiro de madeira e sertão molhado.

Junho pulsa, rodopia, pede um trago, arrisca um passo e deixa de si um gosto inusitado de saudade antecipada. Junho sorri como uma saia rodada.

É sanfona, é triângulo, é baião, é zabumba, é a risada gaiteira das moças, o olhar espichado dos moços, os doces coloridos sobre a grande mesa, democrática e acessível.

É Santo Antonio, São Pedro, São João e São Luiz Gonzaga do Exu.

É um mês em que o Brasil é mais Brasil.

É quando a cultura deixa os livros e os palanques e ocupa as praças, as escolas, os bairros e as casas. 

Junho se alimenta de cultura: uma cultura viva, feita por gente que reside nos anonimatos das vilas e transmitida pelo gesto simples de ensinar uma receita, cantar uma música, contar uma história ou convidar alguém para dançar.

Junho é uma canção de Luiz Vieira, um texto de Câmara Cascudo, um poema de Manuel Bandeira, um causo de Boldrin, uma viola dedilhada por Almir Sater, uma receita de Cora Coralina.

Em junho cabe um país inteiro, com sua gente que festeja seus sotaques e suas modas, que se reconhece como povo e que celebra sua essência.

“Eu sei que é junho, o barro dessas horas…” 

 

Benilson Toniolo, professor, escritor, historiador e gestor público, atua como consultor da AME Cultura (Agência Mineira de Entretenimento) em projetos do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em diversos municípios brasileiros. Membro de várias Academias de Letras e outras entidades, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.

 

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