Afetos, cidades e cafés. Por: Benilson Toniolo

Tem gente que tem dívida com parentes, com bancos, com a padaria, com o agiota (Deus me livre!). Eu tenho dívida de café com os amigos. 

E são vários, os meus credores: José Cláudio, Edmundo, Carlos Alberto, Adriana, Nelson, Nuno, Isabela, Nathalia, Ricardo, Neuza, Armando, Américo, Renato, Paulo, Rosana, Willian, Juraci, Marcelo, Costella… É tanta gente a quem devo um café e uma prosa que vou precisar, talvez, providenciar uma espécie de “escala de cafés”.

Isso porque a gente gosta de conversa e gosta de café. E olha que bacana: todas essas pessoas com quem pretendo pagar minha dívida de café nas próximas semanas têm em comum o amor pela poesia.  

Funciona assim: ao invés de a gente dizer para o amigo, “quero (ou preciso) falar com você”, a gente lança a pergunta que, no fundo, é um convite: “vamos tomar um café?”.

Em Montevidéu, uma das cidades do meu coração, o famoso café Brasilero, de 1877, notabilizado pela presença quase diária de Eduardo Galeano, ganhou fama pelos admiradores do célebre escritor uruguaio e seus textos políticos. Diariamente, os atendentes respondem à mesma pergunta: “onde fica a mesa em que ele se sentava?”, e apontam uma na parte da frente, com vista para a rua. Ali os visitantes se acomodam, distribuem livros ou jornais sobre a mesa e posam para a fotografia que vai ganhar ares de posteridade. A mesa de Galeano, na Ciudad Vieja, que aliás se parece muito com o centro antigo de Santos e com Havana. 

Conheci o Bar Brasile, na Piazza Navona, cuja fachada biancoverdi é fotografada diariamente pelos brasileiros em viagem. Alguns entram e se sentam. Em geral, pedem algo para beber mesmo de pé, encostados ao balcão para economizar o dinheiro da taxa de serviço que é cobrada quando sentam às mesas. 

Em Santos, não há como ir ao centro e passar indiferente pelo tradicional Café Carioca, na praça Mauá, que serve pasteis de queijo e camarão de se comer de joelhos, bem ao lado da prefeitura, do lado oposto à Bolsa de Café da XV de Novembro.

Na Confitería Torrese, Santiago, se você tiver tempo e paciência para vencer a fila de turistas na entrada, é possível visualizar a vitrine e seus doces atraentes. Para um café rápido no meio da tarde, os locais preferem as mesinhas mais altas, localizadas no pátio externo, já na calçada. Uma xícara pequena, uma olhada rápida no jornal e segue o dia, concorrido e corrido. 

Em Firenze e em outras cidades italianas, há o famoso hábito do “Café Sospeso”, em que o cliente paga o café que consumiu e mais um, para o próximo que vier, que por sua vez também vai deixar um pago para o próximo – e assim por diante. 

Não sou da época dos famosos Bar Elite nem do Três Irmãos. Muito menos da Cremerie. Quando cheguei a Campos do Jordão, os mais conhecidos eram o Café Beirute, em Jaguaribe, e o Spaghetti Maggiore, em Vila Capivari. Excelentes, ambos. 

Abernéssia, hoje em dia, tem inúmeros cafés excelentes. Dá para escolher, dependendo da localização e das facilidades de estacionamento. Jaguaribe tem uma diversidade um pouco menor, e Capivari mantém a tradição dos lugares acolhedores, charmosos e sofisticados. 

Temos bons cafés na Vila Ferraz, no Fracalanza, na Vila Paulista, no Portal, Recanto Feliz, em Descansópolis. Cada um com seu estilo, seus atrativos, seus temperos, sua marca, seu toque diferente de atender e receber. Cada porta aberta é um convite.

Café para uma conversa séria. Café para contar piadas. Para rever um amor ausente. Para um namorico. Um olhar despretensioso. Café para uma confidência. Café para trocar livros, mostrar um poema recém escrito, comentar sobre um filme, uma série, uma fofoca. Para falar de política, da viagem que foi feita e da que ainda será. Café para chorar junto, para um abraço apertado, para falar de uma dor ou de uma alegria inesperada. Café para consolar, café para dar risada, café para ficar em silêncio, café para olhar a rua. Café demorado, café rapidinho, café para marcar um café. Café para brindar a vida, para refletir sobre a morte, para falar de fé e de esperança (ou da falta dela). Café para reconciliar, para acertar as contas, para juntar os cacos. Café para passar a limpo, para começar um projeto, para mudar a trajetória, para mudar a rotina. Para comer uma comidinha nova, para experimentar um doce, para esclarecer uma dúvida, para pedir um emprego. Para pedir dinheiro. Para pedir em namoro. Para dizer que está difícil, não sei, e se a gente desse um tempo? Café para dizer do filho que está por vir, do milagre de se estar vivo, daquele gol de três dedos, do passe de calcanhar, da tabela do campeonato, de como os olhos delas são lindos quando ela olha para a lua. Para falar da geada, do clima, da temporada, de uma ideia. Um café, apenas. 

Lá fora os carros passam, as motos barulham, as bicicletas deslizam e as pessoas caminham, cada uma de um jeito. Mas em todas – vá lá, em quase todas – há sempre o desejo de poder parar um pouco, nem que seja um tantinho só, para rever um amigo e, simplesmente, sentar para compartilhar um café.

E a gente se dar conta de que bom, mas bom mesmo, é simplesmente viver. 

E poder escolher um lugar com a nossa cara para poder exercer a magia de se estar vivo. 

De preferência, no coração da cidade mais alta do Brasil.

 

Benilson Toniolo, professor, escritor, historiador e gestor público, atua como consultor da AME Cultura (Agência Mineira de Entretenimento) em projetos do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em diversos municípios brasileiros. Membro de várias Academias de Letras e outras entidades, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.

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