A arte de catar pinhão

Numa manhã de um domingo magistral de outono, sem sequer uma nuvenzinha no céu azulzíssimo, um esplendor que só o céu de Campos do Jordão é capaz de proporcionar, saímos, Simone e eu, a catar pinhão.

Paramos nas ruazinhas pouco movimentadas de Capivari, sacola na mão, a buscar os mais graúdos. Já foi mais fácil catar pinhão nesta Cidade. Hoje em dia, a concorrência dos que catam a semente para vender na avenida (aliás, como aumentou o número de vendedores de pinhão!) faz com que a gente tenha que contar ainda com um bocado de sorte para pegar uns poucos graúdos. Quer dizer, antigamente a gente concorria com os serelepes. Hoje, tem também os inúmeros vendedores. Mas, vá lá, tem pinhão pra todo mundo.

Enquanto exercitava aquele abaixa e levanta característico da operação, fiquei pensando e concluí que poucas manifestações sejam talvez mais jordanenses do que sair pra catar pinhão.

Você já parou pra pensar em quantas gerações de famílias alimentaram – e se alimentam, e se alimentarão – o hábito de sair de casa para, simplesmente, juntar as sementes que as imponentes araucárias despejam solenemente sobre o doce solo desta Cidade? Trata-se quase de uma celebração, um momento de reencontro com a terra, um ato de humildade em que reconhecemos a superioridade da natureza a nos dar prazer e nos saciar a fome e o desejo pelo alimento.

O jordanense ama a sua terra e tudo o que dela provém. Felizes os que reconhecem a generosidade do Criador em dotar Campos do Jordão de tudo o que há de mais belo e harmonioso. Campos do Jordão é um eterno hino de amor, e o simples ato de sair para catar pinhão pode ser considerado um gesto de respeito e gratidão por tudo de bom que nela existe.

Não há como não se emocionar com o contato que temos com a terra, a proximidade do mato, da grama, da árvore, o cheiro verde e fresco que nos atinge em cheio no peito, na boca, nos olhos, no nariz, a felicidade de vislumbrar alguns metros adiante um pinhão enorme, graúdo, apetitoso, que se oferece ao toque de nossos dedos como a mãe que oferece, do próprio corpo, o alimento aos seus filhos queridos.

Ainda mais em tempos como o que vivemos, quando a pressa, a pressão por resultados, o trabalho insano, as contas a pagar, as desavenças familiares e profissionais, as falsas amizades, a calúnia, a difamação, a má-fé, o desamor e o desrespeito parecem prevalecer entre as pessoas e querer destruir a cada dia nossos valores. Num mundo como o que vivemos hoje, um simples ato de aproximação com a natureza pode ter o condão de renovar nossas forças para a dureza do cotidiano.

Portanto, aí vai uma dica. Aproveite o outono para aprender a amar – ou amar de novo – Campos do Jordão. Se já a ama, ame mais ainda. Preste atenção na sua natureza, nos seus contornos, nas suas cores e formas. Deixe de olhar para baixo, e olha para cima. E, sobretudo, saia para catar pinhão numa manhã qualquer, ao lado da pessoa amada, e deixe que a generosidade das coisas simples e desburocratizadas tome lugar em seu coração jordanense.

Depois de tudo isso, você pode voltar a sorrir.

Benilson Toniolo
foi Secretário Municipal de Cultura
de  Campos do Jordão é escritor premiado
e membro de diversas academias de letras

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