Uma coluna quinzenal sobre saúde mental e bem-estar poderia facilmente reduzir-se a uma oferta periódica de respostas, pílulas do saber, falas de quem “entende do assunto”, de representantes da ciência e, portanto, da verdade. No nosso caso, uma psicóloga e um psicólogo falando daquilo que aprendem na teoria e vivenciam na clínica, ocupando um lugar professoral sobre diversos temas. Mas, se assim o fizéssemos, seríamos só mais duas vozes ecoando as mesmas coisas que já circulam exaustivamente por aí.
É que a gente percebe que o mundo em que vivemos está cada vez mais voraz por respostas e garantias de certezas. Gurus, mestres, cientistas, “influencers”, pessoas que alcançam algum prestígio econômico ou social etc. prescrevem cotidianamente respostas, receitas e atalhos prometendo um rápido e indolor acesso a uma felicidade plena e a uma vida sem limitações e dificuldades. Dúvidas existenciais são superficializadas e convertidas em roteiros de como viver: eles ensinam como ser mãe, pai, profissional de destaque, financeiramente independente. Como vencer qualquer conflito, aposentar-se jovem, usar todo o potencial do seu cérebro, ter um corpo ideal. Frequentemente, esses “segredos” são parcialmente ofertados e, para ter acesso ao conteúdo completo e imperdível, você tem que clicar em algum lugar para saber mais e pagar pelo acesso premium.
Na contramão desse modelo, entendemos que aquilo que realmente faz diferença na vida de uma pessoa se dá por meio de boas perguntas, e não de respostas prontas e genéricas. Boas perguntas têm a ver com parar para pensar melhor sobre isto que te empurra a querer as tais respostas.
Por exemplo: se toda vez que me olho no espelho me acho feia, e a minha busca é por respostas sobre como ficar mais bonita, deixo de me perguntar por que me olho tanto no espelho, por que avalio tanto a minha imagem. Não são os procedimentos estéticos que podem produzir uma transformação no meu sofrimento com isso, mas, sim, boas perguntas sobre o sentido desse tema para mim.
Me perguntar sobre o que há por trás da minha insatisfação amplia o meu olhar e me liberta de ter que aderir às respostas prontas disponíveis por aí, que nem sempre fazem sentido para mim. Cada pessoa é extremamente única e a singularidade sempre importa.
Mas por que essas respostas prontas são tão irresistíveis?
O não-saber incomoda. Vivemos na era das respostas porque a dúvida angustia. Não toleramos mais a angústia porque o imediatismo e a pressa dos dias de hoje produzem uma sensação de que não há tempo a perder (os áudios em 2x do WhatsApp que o digam), como se pudéssemos ser donos do tempo. Além disso, os “bem-sucedidos”, as figuras de autoridade, o outro que “deu certo” alimentam essa ideia de que toda falta pode ser preenchida, toda dúvida pode ser respondida e que todo “fracasso” é incompetência sua, todinha sua.
Isso alimenta essa sede por respostas e esvazia o longo, profundo e muitas vezes doloroso processo de formulação de boas perguntas, fazendo-nos esquecer do valor das incertezas e dos pontos de interrogação com os quais nos deparamos na vida. Quanto mais aderidos ficamos a essas respostas prontas, mais perdemos a capacidade de olhar para o mundo de um modo complexo, menos binário, menos dividido entre bom e mau, certo e errado, sucesso e fracasso. Acabamos caindo na sedução de discursos que nos afastam da nossa humanidade: falha, incerta, capenga, desamparada, vulnerável, muitas vezes nada instagramável.
E, sem as perguntas, para onde vai o sabor da nossa curiosidade com a vida?
Aqui, neste espaço, queremos compartilhar com vocês, leitora e leitor, ideias, percepções e inquietações oriundas do nosso lugar de gente, mais do que do lugar de psicanalistas. E fazemos isso como um convite para produzirmos juntos boas perguntas sobre nós mesmos e sobre o mundo.
Nos vemos aos sábados, quinzenalmente, aqui no Guiacampos.com.

Erika Faria ([email protected]) e
Cezar Perini ([email protected])
são psicólogos e psicanalistas,
moradores de Campos do Jordão.


