A máscara de Carnaval esconde ou revela?

“Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.” – do conto Restos de Carnaval, de Clarice Lispector

O Carnaval é, há milênios, sinônimo de um breve período de libertação de repressões e autorização coletiva para excessos. Bem, não tão breve assim: hoje, no Brasil, o Carnaval começa semanas antes e termina semanas depois dos 4 dias oficiais. Tem o pré, o esquenta, o Carnaval, o after, o pós-after… Enfim, o povo brasileiro estica a festa tanto quanto possível. Já não é um feriado, é um período.

Esse prolongamento da festa no calendário anual talvez diga muito sobre o papel que ela desempenha na vida psíquica de muita gente. Não apenas pela época em que acontece e sua utilidade como resistência ao funcionamento normal das coisas — o conhecido costume de dizer que “o ano só começa depois do Carnaval” — mas também pelo lugar que ela oferece à aparição de condutas e traços de identidade que, teoricamente, não existiriam no restante do ano. 

O nome “Carnaval” tem origem no latim carnis levare, que significa literalmente “retirar a carne”. Simbolicamente, remete ao ato de controlar os prazeres mundanos, uma prática comum na Quaresma, período de jejum que antecede a Páscoa. Ou seja, na tradição cristã, a origem da palavra representa exatamente o oposto do que entendemos hoje: “Carnaval” faz referência à abstinência, à privação, e não à esbórnia — aqueles dias em que todo mundo “mete o louco”. Diante da imposição do jejum — retirar a carne —, o povo passou a querer aproveitar tudo antes desse recesso. E assim deu no que deu: o Carnaval tornou-se sinônimo de exagero na alimentação, na bebedeira, no sexo, no comportamento desinibido e na suspensão temporária das regras.

Mas é importante destacar que, muito antes da apropriação católica de mitologias e tradições pagãs, a principal característica do Carnaval sempre foi a inversão de papéis: a fantasia e a possibilidade de se tornar outro personagem social. Na Mesopotâmia, cinco mil anos antes de Cristo, já existiam celebrações em que prisioneiros assumiam o papel de rei — vestindo suas roupas, comendo sua comida e dormindo com suas mulheres. Em Roma, máscaras e vestimentas permitiam que ricos e pobres, mulheres e homens, senhores e escravos interagissem livremente sob seus disfarces, suspendendo temporariamente as rígidas hierarquias sociais. O mesmo ocorria nas Dionisíacas gregas, no carnaval mexicano com os Huehues, no Holi indiano, no Beltane celta e em diversas outras festas centenárias ou milenares, todas marcadas pela troca de papéis e pelo excesso como caminho para um êxtase coletivo. 

É curioso, então, perceber como, desde sua origem, o Carnaval propõe brincar com algo que, no cotidiano, tomamos como fixo e estabelecido: nossa identidade e nossa personalidade. E aqui estamos nós, hoje, tantos anos depois, diante dessa mesma oportunidade socialmente pactuada de sermos outra coisa que não nós mesmos. 

Essa ideia de “ser outro” desloca os comportamentos mais liberais e intensos para uma outra identidade, uma espécie de personagem que só existe nesse momento específico. Como se essa pessoa que se solta, bebe, beija, transa, dança, exagera e se esbalda fosse o “eu do Carnaval”, mas não um “eu de verdade”.  

Isso nos leva a perguntar: se o meu “eu de verdade” é aquilo que vivo somente nos outros 361 dias, então quem é esse que aparece no Carnaval? Quem disse que isso aí não sou eu? O que me faz achar que um deles é o mais “verdadeiro”? 

“Estou saindo com uma pessoa mas não quero assumir o relacionamento antes do Carnaval, quero estar livre”. “Vou aproveitar esses dias pra desestressar, encher a cara, esquecer os problemas, enfiar o pé na jaca mesmo”. “Eu sou hetero, mas no Carnaval eu pego todo mundo por farra”. “Odeio muvuca, no Carnaval eu sumo, me isolo até acabar”. Note como todas essas falas, embora tratem o feriado como um momento de exceção,  apontam para questões maiores que existem na vida das pessoas todos os dias e com as quais elas têm que lidar o ano todo. Se prestarmos atenção, são questionamentos importantes sobre desejos, frustrações, identidade, dificuldades… Falas que sugerem que somos uma unidade coerente e estável ao longo do tempo, que vive essas coisas como exceções, quando, na realidade, talvez sejamos atravessados por diferentes versões de nós mesmos o tempo todo, e, nesses momentos de vazão, encontremos um lugar de manifestação disso sem tanta censura ou conflito.

Se essa versão de mim só aparece no Carnaval, será que ela realmente desaparece depois da folia, ou apenas se cala? A mesma pessoa que pula Carnaval no sábado é a que vai trabalhar na quinta. A versão festeira, extrovertida e erotizada vivida em um dia não é menos verdadeira do que a versão “bem comportada” e organizada do cotidiano. Parece difícil conceber que os opostos e as contradições coexistem dentro de nós.

O desejo de experimentar, realizar fantasias, ser outro, sentir-se livre, ir além dos limites… Nada disso está recortado da nossa identidade ou excluído do restante do tempo. O uso que fazemos do Carnaval, como lugar de suspensão das repressões e vazão de desejos, diz muito sobre o que fica (fica?) suspenso o resto do ano.

Que tal aproveitarmos o feriado para lançar um olhar curioso sobre nossas necessidades e desejos mais profundos, fazendo deste um momento de reconhecer e aceitar essas questões como cotidianamente nossas? Talvez, assim, em vez de isolarmos nosso “eu carnavalesco” limitando sua existência a uns dias, a gente dê lugar a coisas que nos importam muito de um modo mais autêntico e livre.

Erika Faria ([email protected]) e
Cezar Perini ([email protected])
são psicólogos e psicanalistas,
moradores de  Campos do Jordão.

 

Baile de Carnaval - Abernéssia Futebol Clube - Década de 1950 - Na foto a Familia Cintra - Aristides e Rosa, José e Norma, Joaquim e Noêmia, Pedro e Ada, o amigo José Bernardino e outros familiares

O carnaval no alto da serra

Danguá também é pizzaria!