Resenha Literária: A História sem fim – Michael Ende

Por Sabrina Lira

Quem nunca desejou entrar no livro que adora ler? É o que acontece com Bastian Baltasar Bux, um garotinho baixo e gordo que é excluído na escola e se sente ignorado pelo pai viúvo.

Sua vida, no entanto, é transformada assim que encontra o fantástico livro de capa de seda cor-de-cobre intitulado: “A história sem fim”.

Assim como o personagem, o leitor também é envolvido no Realismo Mágico, embarcando na história apresentada em letras nas cores vermelho e verde, a primeira para ilustrar o mundo real enquanto que a segunda descreve as aventuras descritas no Reino de Fantasia, habitado pelas mais diversas criaturas mágicas e ameaçado pelo risco de desaparecer, por falta de imaginação e crença por parte das pessoas.

Depois de acompanhar a jornada do herói Atreiú, sofrer com seu sofrimento, vibrar com sua alegria, a cada passo torcendo para que a sua grande missão fosse cumprida, Bastian é tragado para dentro do livro em suas mãos e então uma nova história é narrada.

A partir de então, Bastian, tido como o salvador de Fantasia, como presente de gratidão recebe da imperatriz Criança o medalhão AURIN, cujo nome evita-se pronunciar. O medalhão que consiste em duas serpentes, uma clara e uma escura, a morder a cauda uma da outra formando uma figura oval traz em seu reverso a inscrição: “Faça o que quiser”.

Vale destacar algumas referências, a serpente a devorar a própria cauda, o Ouroboros, um conceito que remete a eternidade, é um símbolo da alquimia e o ovo está relacionado com a criação, além disso, geralmente este símbolo está acompanhado com a expressão “hen to pan”, o que quer dizer o um, o todo, e vem a corroborar com a ideia de ciclo apresentada no decorrer do livro sobre a recorrente sentença “mas essa é uma outra história…”

Outro ponto a se atentar é a própria inscrição do amuleto, atribuída ao famoso mago Aleister Crowley e ensinada como filosofia em sua ordem ocultista. Fora, há vários outros elementos que agrupam uma vasta gama de ideias e simbolismos.

Em posse de AURIN, Bastian não vê limites para a realização de todos os seus desejos, a começar pela própria aparência, transformada à semelhança de um filho de rei, que seduz a si mesmo, esbelto e de uma beleza extraordinária. Daí por diante, tudo o que ele deseja é concretizado, no entanto, há um preço a se pagar: a cada desejo atendido, algo é esquecido.

Bastian ganha tudo, é belo, é forte, é o imperador do reino que ajudou a recriar do nada, contudo após uma árdua derrota, quando se encontra sozinho, finalmente dá-se por conta de que havia se tornado outra pessoa, a ponto de esquecer o seu próprio nome.

Aqui começa uma encantadora trajetória rumo às descobertas dos verdadeiros desejos intrínsecos e necessários a todo ser humano, como o desejo de viver em comunidade, o desejo de ser aceito e reconhecido tal como é, o desejo de ser amado, o desejo de vivenciar em essência e completude a própria história.

Bastian vence seus desafios, retorna para o seu mundo, aceita-se como é, e nem de longe é mais aquele menino assustado e vitimizado do começo da aventura.

Devo admitir, que este é o meu livro favorito, pois é uma história que parece simples, contudo, é complexa e interessante, além do que possui uma carga psicológica bem trabalhada, sem contar que é muito bem escrito, valorizando temas como honra, coragem e amizade.

Por acaso (se é que há), encontrei o meu exemplar em condições curiosas, achando-o solitário num balcão na biblioteca para doação. Ele não tem capa de seda, mas a imagem símbolo de AURIN está ali. De imediato, lembrei-me do filme que inúmeras vezes assisti nos anos 90, aquele em que o dragão tem cara de cachorro, mesmo assim, a magia me incitou a apanhá-lo e acompanhar uma das histórias mais fascinantes que já li.

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Redação do portal Guiacampos.com - Campos do Jordão na Internet