“Caçadores” de aves em Campos do Jordão!

O dia ainda amanhece e eles já estão de pé. Após um café reforçado para enfrentar o frio, checam os equipamentos e partem para mais uma caçada. O destino: Horto Florestal de Campos do Jordão, que reúne a maior floresta de Araucárias do estado de São Paulo. A área é de preservação ambiental. Um santuário ecológico onde a flora e a fauna estão protegidas. O local ideal para nossos caçadores implacáveis avançarem com suas armas que não tiram vidas, mas fotografias.

Vestidos com roupas discretas, quase camufladas para não chamar a atenção, eles caminham lentamente pelas trilhas que cortam o Parque Estadual. Com olhos atentos, observam a paisagem ao redor e, ao mesmo tempo, aguçam os ouvidos para tentar identificar o som de suas presas. Os passos são leves, quase imperceptíveis, para evitar que os pássaros se assustem. O silêncio é estratégico nesta busca quase sempre demorada e que exige muita paciência também.

Assim é a rotina dos observadores de aves que frequentam Campos do Jordão. Além de principal destino de inverno do país, a estância também é referência na serra da Mantiqueira para essa atividade que está em plena expansão no Brasil. “O clima gelado e a altitude garantem as condições ideais para a presença de diversas espécies aqui”, explica Thiago Carneiro, guia ornitológico que há 14 anos conduz os turistas pela mata.

Espécies raras

Não é por acaso que cada vez mais pessoas sobem a serra interessadas neste novo tipo de turismo sustentável. 307 espécies já foram catalogadas em Campos do Jordão. Desse total, pelo menos 27 são exclusivas daqui. E algumas bem raras também.

A seguir alguns exemplos que selecionamos para você.

Saudade: pássaro de penas pretas, bico e ponta das asas amarelas que vive em montanhas acima de 1.700 m de altitude. Thiago conta que é uma ave fácil de ser identificada pelo seu assovio longo e melodioso. Difícil é dar de cara com ela, que raramente se deixa fotografar. “Dizem que ela recebeu este nome porque é comum deixar os observadores na saudade”, revela o especialista.

Saudade – Foto: Thiago Carneiro

Papagaio-de-peito-roxo: Ave ameaçada de extinção, muito cobiçada por contrabandistas de animais silvestres. O desmatamento também pode comprometer a existência dessa espécie que tem as matas de Araucárias como seu habitat. É um dos pássaros preferidos dos estrangeiros. Muitos viajam da Europa e Estados Unidos apenas para observá-los em Campos do Jordão. Turistas da China também perseguem o Papagaio-de-Peito-Roxo. Segundo Thiago, Os observadores de outros países trazem apenas binóculos. Entrar na floresta com máquinas fotográficas é hábito do brasileiro.

Papagaio do Peito Roxo – Foto: Thiago Carneiro

Tovaca-de-rabo-vermelho: É uma espécie considerada raríssima, muito difícil de ser observada. Trata-se de uma ave pequena e rasteira, parecida com uma codorna. A plumagem é um pouco ruiva com cauda avermelhada. Aranhas e insetos são seus principais alimentos. Em Campos do Jordão, ela vive no Pico do Imbiri, outro lugar excelente para observação de pássaros.

Tovaca de Rabo Vermelho – Foto Thiago Carneiro

Gavião-pega-macaco: É uma ave gigantesca. As asas atingem de uma ponta a outra cerca de 1m70 de envergadura. Sua altura pode chegar a quase 80 cm. A plumagem é preta no peito com dorso marrom escuro, e a ponta das asas tem penas brancas. É predador do macaco-prego, principalmente, e também de esquilos e galinhas. Em Campos do Jordão pode ser avistado no Vale Encantado, mais um endereço comum das passarinhadas, como são chamadas as excursões para observação de aves.

Gavião Paga Macaco – Foto: Thiago Carneiro

Lazer sustentável em Campos do Jordão

No Brasil existem cerca de 30 mil observadores de aves. A imensa maioria usa máquinas fotográficas durante as expedições. Como já foi dito neste texto, os estrangeiros preferem levar apenas binóculos. E é só isso que você precisa para se transformar em “caçador”. Um bom binóculo e uma máquina fotográfica profissional custam um pouco caro, mas a durabilidade compensa o investimento. E é preciso também uma lente teleobjetiva, que permite flagrar os pássaros à distância.

A observação de aves é um aprendizado. A cada passarinhada descobre-se um pouco mais sobre a nossa fauna. Quanto mais frequente, maior o conhecimento. Em estágios avançados, até pelo canto é possível reconhecer as espécies. E quando surgem aves ainda não conhecidas, poder identificá-las causa uma sensação indescritível. Vale reforçar aqui que essa possibilidade realmente existe!

Thiago Carneiro é guia ornitológico da região. Além de Campos do Jordão, ele leva observadores por toda a serra da Mantiqueira. Existem dois tipos de expedição: para observar as aves são pelo menos dois dias. Já para fotografar é preciso, no mínimo, quatro dias. E a atividade conquista cada vez mais adeptos. Por mês ele atende, em média, 16 pessoas que visitam a estância interessados apenas nos pássaros.

Thiago Carneiro – Foto: Leandro Bibiano

As passarinhadas começam às 06h30 e vão até 20h, dependendo das condições climáticas e, claro, da disposição dos observadores que precisam ser atentos, curiosos, silenciosos e principalmente tranquilos porque é comum passar o dia inteiro na mata e não conseguir avistar os pássaros. Por isso um dia nesta caçada pose ser insuficiente. Para mais informações o Thiago atende pelo fone: (12) 99773-2654

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A natureza sempre foi o principal atrativo de Campos do Jordão. A observação de aves ajuda a desbravar as mais belas paisagens da Mantiqueira de uma forma sustentável, conecta o corpo e a mente com o ecossistema da cidade sem exigir muito esforço físico. Desde crianças até idosos, todos podem praticar a atividade. E o melhor, nas quatro estações do ano!

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Jornalista. Um incansável contador de histórias!