Carnaval, cultura, turismo e economia criativa. Por Benilson Toniolo

Chega o Carnaval e muita gente ainda me pergunta por qual motivo – ou por quais motivos – Campos do Jordão não realiza mais os até então tradicionais desfiles de escolas de samba e blocos que aconteciam em Abernéssia, e reuniam milhares de pessoas na Januário Miraglia. Talvez este seja o melhor momento, e o espaço adequado, para dirimir essa dúvida.

O motivo principal que levou à suspensão dos desfiles de rua em nossa cidade foi somente um: o alto custo para a organização do evento, realizado em uma única noite.

O último desfile de escolas de samba e blocos carnavalescos deu-se no ano de 2015, em um período (mais um) de grandes dificuldades políticas e econômicas para o país, que acabou com a abertura e conclusão do processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff no ano seguinte.

Por conta da crise, os repasses de recursos aos municípios provenientes dos governos estadual e federal ficaram seriamente comprometidos, sendo grande parte represada e sofrendo relevantes atrasos em seu cronograma oficial, o que comprometeu o planejamento orçamentário dos municípios.

Naquele ano, as escolas de samba que desfilaram foram somente duas: Unidos da Vila Santo Antonio e Acadêmicos do Britador.

O custo para realização do evento, no entanto, era imenso: considerando contratação de som, iluminação, estrutura de gradis, locação de banheiros químicos, palanques, segurança, alimentação, decoração e ambientação, equipe de trabalho, emissão de documentos, premiação, contratação de membros da comissão julgadora, limpeza, transporte e apoio financeiro às escolas (que ameaçavam não desfilar se não recebessem ajuda de custo da prefeitura), o custo para realizar o evento era de aproximadamente setenta mil reais. Isto, apenas para uma única noite. Convenhamos: não há gestor público sério que corra o risco de comprometer as finanças municipais diante de um quadro como esse.

Havia uma outra questão, de ordem ética. Não era justo, do ponto de vista da administração pública, levando em conta os cinco critérios constitucionais (Legalidade, Impessoalidade, Moralidade, Publicidade e Eficiência, a conhecida sigla “LIMPE”, que é obrigação de todo gestor público seguir), que a prefeitura subsidiasse financeiramente as escolas de samba, enquanto grupos culturais locais de dança, artesanato, teatro e a própria orquestra filarmônica passassem o ano inteiro a ver navios.

O decreto municipal 7521/2016 resolveu o assunto: os custos para realização do desfile deveriam vir da iniciativa privada, com apoio da prefeitura. O tal apoio nunca veio, muito menos o recurso da iniciativa privada, o erário foi poupado de uma despesa que beirava a irresponsabilidade e a gestão optou por incrementar os eventos carnavalescos previstos no calendário oficial, como o Festival de Marchinhas (o delicioso e tradicionalíssimo Femucar) e as matinês do Centro de Convivência do Idoso e a das crianças, no Centro de Eventos.

Aqui, um parêntese: vivi uma situação curiosa no Carnaval daquele ano, enquanto secretário de Cultura: uma rádio me acusou de estar torcendo para a Unidos da Vila Santo Antonio, enquanto uma outra declarou que eu estava torcendo pelo Acadêmicos do Britador. As duas agremiações não gostaram nada disso. Nem eu, que sou mangueirense declarado no Rio, ainda que só assista pela televisão, e simpatizante da Mocidade Amazonense em Santos.

Carnaval é muito mais do que uma data no calendário anual e não pode, nem deve, resumir-se à realização de um desfile anual. Antes, é uma festa que ocupa um lugar singular na vida cultural brasileira e deve ser entendido como um fenômeno complexo, no qual tradição, criação artística, economia e identidade se entrelaçam e se complementam. Ao longo do tempo, o Carnaval consolidou-se como uma das expressões mais potentes da cultura nacional, exercendo papel central tanto na construção simbólica do país quanto na dinamização do Turismo e da Economia Criativa.

Suas origens são diversificadas e formam esse mosaico incrível das festas trazidas pelos povos ibéricos, dos rituais africanos trazidos pelos escravizados e de práticas populares locais, resultando em manifestações que variam conforme a região: escolas de samba, blocos de rua, maracatus, frevos, trios elétricos, bois-bumbás, caboclinhos, entre tantas outras.

Trata-se de uma cultura viva, dinâmica, que se constrói de modo colaborativo e comunitário, envolvendo artistas, artesãos, músicos, coreógrafos, costureiras, cenógrafos, compositores, intérpretes e milhares de participantes anônimos que fazem da festa um acontecimento coletivo. Não existe Carnaval solitário. Carnaval é festa popular, que movimenta a economia e reafirma nossa identidade cultural e nossa formação enquanto país.

Quando observado sob o prisma da atividade turística, o Carnaval assume dimensão estratégica. Todos os anos, milhões de visitantes — nacionais e estrangeiros — deslocam-se para cidades que se tornaram referências carnavalescas. Esse fluxo impacta diretamente setores como hospedagem, gastronomia, transporte, comércio e serviços, movimentando economias locais e regionais. Em muitos municípios, o Carnaval representa o principal evento do ano, capaz de redefinir a imagem da cidade, fortalecer sua marca cultural e ampliar sua visibilidade no cenário nacional e internacional.

Pensar a festa como Cultura, Turismo e Economia Criativa, no entanto, exige dos setores público e privado um planejamento cuidadoso e representa um desafio importante. O aspecto econômico, que é fundamental, não pode se sobrepor ao respeito às comunidades, à preservação da identidade e das tradições culturais e à inclusão de todas as pessoas, além de, no caso de Campos do Jordão, ser uma excelente oportunidade de promover a convivência e a integração entre jordanenses e visitantes.

Carnaval não é mero entretenimento ou apenas uma data no calendário, mas uma excelente oportunidade para se promover a Cultura em todas as suas linguagens. É investir em pessoas, em desenvolvimento socioeconômico, em preservação da memória, em criatividade e formação.
Tratado com planejamento e responsabilidade (inclusive econômica), é um evento a ser reconhecido e preservado – legítimo elemento de representação da brasilidade e do gênio criativo que caracteriza o nosso povo.

 

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Benilson Toniolo, professor, escritor, historiador e gestor público, atua como consultor da AME Cultura (Agência Mineira de Entretenimento) em projetos do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em diversos municípios brasileiros. Membro de várias Academias de Letras e outras entidades, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.

 

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