Falei aqui, na semana passada, da inação da juventude contemporânea diante do caos generalizado que se instalou sobre o mundo nos últimos meses. Convenhamos: não está fácil. Guerras, crise ambiental, êxodos forçados, bombardeios, violência generalizada… com perdão do vate Bandeira, não há Pasárgada que chegue.
No mesmo dia da publicação do artigo aqui no Guiacampos, os estudantes chilenos tomaram as ruas de Santiago para protestar contra o novo governo do presidente Kast, eleito recentemente. É curioso, o Chile. Vive protestando contra a ditadura de Pinochet e, de tempos em tempos, elege justamente um representante dessa mesma corrente autoritária que marcou com muito sangue e violência a história recente do país e remeteu ao desaparecimento milhares de opositores do regime. A maioria, jovens. Um bom tema para a elaboração de um estudo de caso. Afinal, o que pensam os chilenos?
Voltando ao tema da semana passada: teve gente que se incomodou. Falar de guerra justamente na semana que antecede a celebração da Páscoa? Interessante provocação. Vamos aprofundá-la.
O simbolismo presente na Páscoa é sempre um convite para a reflexão. Nos tempos atuais, sua importância é indispensável. Entender o significado da Páscoa como o renascimento depois da morte se relaciona diretamente com o mundo como hoje se apresenta – e do qual somos parte indissociável.
Em um tempo atravessado por guerras, pela devastação ambiental e por formas cada vez mais naturalizadas de violência, falar na Páscoa como símbolo de esperança pode soar, à primeira vista, até mesmo como demonstração de ingenuidade. O mundo parece estar marcado por um gigantesco cansaço — das pessoas, dos recursos naturais, das formas de relação entre as pessoas e as organizações, das próprias ideias de futuro.
Mais do que uma data no calendário religioso, a Páscoa carrega, em sua origem, o sentido de uma espécie de travessia. Lembrou da música do Milton, né? Pois é, não tem como não lembrar. A Páscoa bem pode ser isso mesmo: travessia — da morte para a vida, do que está morto para o que vive, do esgotamento à possibilidade de recomeço. Não se trata de negar a realidade dura que nos cerca, mas de encará-la por inteiro, sem permitir que ela seja somente a derradeira palavra, o ato derradeiro.
Importante não relacionar a esperança com a passividade. Pelo contrário: ela, a esperança, deve trazer desconforto, incômodo, insubmissão. De nada serve uma esperança inerte, que paralisa. Antes, ela deve nos provocar a sensação de que é necessário agir para mudar – e que, se tudo permanecer como está, estamos todos fadados ao desaparecimento: físico, moral e espiritual.
Na Paixão de Cristo, a dor não se esconde. Ao contrário: ela é exposta em sua forma mais violenta, mais crua, mais brutal. E é justamente por isso que a ideia de ressurreição ganha força — não como negação do sofrimento, posto que ele existe e cruelmente se apresenta, mas como afirmação de que, ainda que exista, não seja capaz de dar cabo do milagre da Vida.
Como diria o russo Soljenitsen, “a morte é um marco natural de nossa existência, mas de maneira nenhuma o último”.
Transpor essa mensagem para o presente é reconhecer que, mesmo diante de um cenário global marcado por conflitos, bombardeios, violência generalizada, desigualdades e colapsos ambientais, ainda há espaço para gestos de esperança que rompem a lógica da destruição.
Nesse contexto, celebrar a mensagem da Páscoa pode deixar de ser um ato meramente simbólico ou ritualístico para se tornar um gesto profundamente político — no melhor sentido da palavra.
Escolher a esperança, hoje, é um movimento de insubmissão. É afirmar que a vida — em suas múltiplas formas — ainda merece ser defendida. É reconhecer que, embora a humanidade seja capaz de destruição, também carrega em si a possibilidade do renascimento, da reconstrução.
Essa escolha, no entanto, não se sustenta apenas no plano das ideias. Ela exige ações de esperança: no cuidado com o outro, na responsabilidade com o meio ambiente, na construção de relações menos violentas e mais solidárias. Pequenos gestos, muitas vezes silenciosos, mas que, somados, desafiam a lógica dominante.
Talvez seja isso que torna a Páscoa tão atual. Ela nos remete à nossa capacidade de retorno à vida depois da dor, depois do luto, depois da morte. Ela não oferece respostas fáceis, nem soluções imediatas, mas nos remete à possibilidade. À esperança – e ao direito – de, como Cristo, renascer.
Em tempos como os nossos, celebrar a Páscoa pode ser, sim, um ato revolucionário. Não porque transforme o mundo de um dia para o outro, mas porque desloca o olhar, rompe com a inércia e reacende a possibilidade de futuro.
E, às vezes, tudo o que uma época precisa para começar a mudar é exatamente isso: pessoas que, apesar de tudo, ainda sejam capazes de acreditar — e agir — como se a vida pudesse florescer novamente.
Repito: apesar de tudo.
Boa Páscoa, com menos ovos gigantes – e mais Vida.

Benilson Toniolo, professor, escritor, historiador e gestor público, atua como consultor da AME Cultura (Agência Mineira de Entretenimento) em projetos do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em diversos municípios brasileiros. Membro de várias Academias de Letras e outras entidades, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.


