Entrevista: Benilson Toniolo: “A arte deve contribuir para uma sociedade mais humanizada”

No próximo sábado dia 30 de agosto, a partir das 15h, na Milili Café, o escritor Benilson Toniolo, colunista do Guiacampos.com, lança seu mais recente romance, “Depois do Último Dia” (ed. Litteralux, 135 p.).

Nesse bate-papo com o Guiacampos.com, ele fala sobre o livro, sobre o papel da literatura e a importância da contribuição da  Cultura para a formação de uma sociedade mais justa e “humanizada”.

O livro pode ser adquirido por meio do whatsapp; (12) 9 9171-3102.

Confira a entrevista:

G.: Qual o tema do livro?

BT: “Depois do Último Dia” é um romance que conta a história de Gessandro, porteiro de um edifício de luxo localizado em uma grande cidade do litoral de São Paulo e que se encontra hospitalizado para tratamento de uma infecção.

Enquanto se recupera, ou tenta se recuperar, ele passa o tempo observando o entorno, o ambiente hospitalar, os trabalhos da equipe, as falas dos médicos e enfermeiros, a sala, as paredes, os companheiros de quarto, pacientes como ele que dividem o espaço enquanto tentam ficar curados.

Entre uma medicação e outra, o personagem começa também a organizar sua memória, desde a infância na Paraíba, na companhia da família, pai, mãe e irmão, os acontecimentos que o obrigaram a deixar sua cidade natal com destino à região sudeste do Brasil, as dificuldades de adaptação na cidade nova, as diferenças de cultura e paisagem, as relações humanas.

G.: É uma história brasileira.

BT.: Sim, uma história brasileira, que busca trazer uma reflexão sobre esse movimento migratório de massa que foi a vinda dos nordestinos para o sul e sudeste. Veja, não se trata de um movimento, mas de vários movimentos que fazem parte do mesmo fenômeno. Desde o século 19, a História registra o deslocamento de massas de trabalhadores provenientes do Nordeste, não só para o centro-sul, como também para a região Norte.

É o caso do meu pai, por exemplo, que saiu do interior de Alagoas junto com a família para residir na cidade de Santos. Lá chegando, os homens todos, os filhos de dona Zefinha, minha avó, foram empregados na construção civil, nas obras dos prédios da orla da praia. Há quem diga, inclusive, que alguns prédios de Santos são tortos porque os “baianos” que os construíram viviam bêbados. Isso é de uma crueldade enorme.

Então o livro conta um pouco dessa história do meu pai, e de outros brasileiros nascidos no Nordeste em sua migração forçada para lugares que nem sempre os reconhecem como brasileiros que são.

G.: Em recente entrevista, você falou da questão do preconceito contra os nordestinos. O livro trata disso?

BT.: Trata, trata sim. Na entrevista a que você se refere, citei o exemplo das vezes em que testemunhei o preconceito que meu pai sofria por ser “de fora”, e a sua falta de reação, que à época, menino ainda, me incomodava. O pai não reagia quando era ofendido ou chamado de “baiano”, “cabeça chata”, “estrupício”, com todas as entonações que uma fala preconceituosa e ofensiva carrega.

O personagem do livro também não reage, porque reagir pode significar a perda de um pequeno privilégio. Se reagir, corre o risco de perder a integridade física, o amigo, a oportunidade e até o trabalho.

G.: O livro é dedicado a Luiz Pereira Moysés, Jesus Anacleto Rosa e Reynaldo Calles, três nomes importantes da cultura jordanense. Qual o motivo da referência a eles?

BT.: Foram amigos muito queridos, pessoas muito próximas com quem tive a oportunidade de conviver, aprender e compartilhar sonhos e visões de mundo. O Tubarão, por exemplo, que sempre lutou pelos direitos dos trabalhadores jordanenses, faleceu enquanto a Adriana Harger, sua filha e autora da apresentação da orelha do livro, concluía a revisão final. Reynaldo Calles era um inconformado com as injustiças contra os mais pobres, levava esse comportamento para suas obras e esculturas. E o Anacleto, mais do que amigo, foi irmão de fé, meu pastor, confidente e um intelectual de formação sólida, com um pensamento cristão muito direcionado para a questão social. Então, diante das perdas recentes dessas pessoas tão singulares acontecendo em tão pouco tempo, entendi que a história de Gessandro era também um pouco a história de vida dessas pessoas. Por isso o livro é dedicado a essas memórias – também como uma forma de homenageá-las, pela vida dedicada à Cultura e pela contribuição que deixaram. Principalmente o Tubarão.

G.: O jordanense é preconceituoso?

BT.: Algumas pessoas, em geral, são, jordanenses ou não. Toda generalização é péssima. Talvez o livro sirva também para dizer que, independentemente da origem e outras características, todas as pessoas devem ser respeitadas, em todas as condições em que isso seja possível.

Penso que talvez seja este também o papel da arte, o de contribuir para jogar luz em determinados assuntos que são importantes na construção de uma sociedade mais humanizada.

Não acredito na arte que não se engaja e não dá sua contribuição.

G.: Qual sua expectativa quanto à reação dos leitores?

BT.: Espero que eles leiam (risos).

 

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