Havia em Vila Capivari a Capela São Benedito, simples e graciosa, que fora construída em terreno doado pelo Embaixador José Carlos de Macedo Soares nas primeiras décadas do século XX.
Dadas as suas exíguas dimensões não podia abrigar os fiéis que a ela afluíam. Muitos devotos eram obrigados a permanecer fora da igreja no verão de sol forte e durante a época das chuvas.
Nos anos 40, assumira a Paróquia de Campos do Jordão o frei João Crisóstomo Arns, irmão do Cardeal Arns.
Era preciso construir outro edifício para uma igreja de maior porte e amplitude. Foi difícil convencer o Embaixador Macedo Soares da necessidade de sua demolição, sobretudo, dona Mathilde, sua esposa.
Convencido o casal, proprietário de terras e freqüentador assíduo da Estância, dona Mathilde Macedo Soares foi escolhida como Presidente de Honra da Comissão de Construção da nova igreja e dona Raquel Simonsen, esposa do empresário Roberto Simonsen, presidiu a comissão executiva.
O dr. Carlo Brunetti, responsável pela construção da Igreja de N. S. da Saúde, de Vila Jaguaribe, indicou o empreiteiro Pedro João Abitante para construi-la.
Foi uma luta incessante para a arrecadação de fundos. Frei Crisóstomo contou 700 doadores de todas as origens: Chichilo e Nicola Matarazzo, Condessas Mariangela e Bianca Matarazzo, Condessa Crespi, Paulo de Assumpção, Eduardo Levy, famílias sírio-libanesas da área mercantil de São Paulo e um sem número de doadores.
Enfim, a pedra fundamental da nova Igreja de São Benedito foi lançada em 20 de fevereiro de 1944 e sua primeira missa foi celebrada em 13 de maio de 1946, quando de sua inauguração, presentes o Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Carlus Carmelo de Vasconcelos Motta e o Interventor Federal em São Paulo, dr. José Carlos Macedo Soares.
O primeiro padre foi Francisco Passos, seguido pelo cônego Francisco de Assis Barros.
Como o terreno fora doado pelo Embaixador Macedo Soares, a comunidade negra de Vila Capivari solicitou ao Embaixador que o padroeiro da Capela então existente fosse São Benedito, santo negro e caridoso.
De estilo úmbrio e sóbrio, a Igreja de São Benedito incorporou-se à paisagem de Vila Capivari, impossível ver uma sem a outra.
Freqüentada pelos moradores de Vila Capivari e Vila Inglesa, sobretudo em época de temporada e longos feriados, a Igreja de São Benedito é procurada pela população flutuante de turistas e jordanenses de todos os bairros de Campos do Jordão.
Por ocasião da apresentação de cantos líricos e de orquestras, ela tem sido preferencialmente escolhida, não só pela sua localização, como também pela sua dimensão física e, por isso, ao longo dos Festivais Internacionais de Inverno, a Igreja de São Benedito tem sido palco de aplaudidas apresentações.
Trata-se próprio edificado, de valor religioso, histórico e turístico, que integra a Praça São Bendito, que possui tipicamente a alma do lugar.
Por isso não se pode imaginar nem a Praça e nem a Igreja, descaracterizadas de sua composição como um conjunto urbanístico, decorrendo daí o seu valor histórico, religioso e turístico, cuja preservação na sua destinação final deve constituir dever de todo cidadão e sobretudo do Poder Público.
A Igreja São Benedito, além do mais conta uma história de solidariedade humana e espiritual, tanto ao tempo em que Campos do Jordão foi Estação de Cura, como agora como Estância de Turismo.
A sua descaracterização seria o mesmo que permitir que a Praça São Benedito se transformasse em mercado livre de feira de quinquilharias, abarrotada de balcões irremovíveis.
Daí a necessidade da intervenção do Poder Público, no âmbito de sua competência legal.

Pedro Paulo Filho (1937–2014) foi um advogado, escritor, historiador, mais conhecido por seu trabalho sobre a história de Campos do Jordão, onde residiu a maior parte de sua vida. Ele também teve uma participação ativa na vida pública e em diversas organizações comunitárias da cidade. (Saiba mais)
Nota do Editor
Os textos da série “Crônicas de Pedro Paulo Filho” retratam épocas passadas e expressam a visão pessoal do autor sobre a vida e a cidade de Campos do Jordão. Os fatos, costumes e personagens mencionados podem não corresponder à realidade atual, uma vez que foram escritos entre as décadas de 1960 e 2014.


