Latino-Jordanenses. Por: Benilson Toniolo

Juan* é músico profissional, professor de violoncelo egresso do projeto “El Sistema – Fundación Musical Simón Bolívar de Venezuela”, onde aprendeu os primeiros acordes ainda menino e chegou à docência – sempre em Barquisimeto, sua cidade natal. Reside em Campos do Jordão há quase dois anos, desde que conheceu a cidade durante uma temporada de inverno e decidiu mudar-se para cá, trazendo uma mala pequena com algumas peças de roupas e uma outra um pouco maior, onde trouxe suas partituras, apostilas e materiais de estudo. No outro braço, o instrumento de trabalho. Reside no Floresta Negra e ganha a vida tocando em eventos. Conheci-o no ponto de ônibus na Vila Albertina, esperando o mesmo ônibus que eu, com destino a São Paulo, onde iria rever os amigos e “comer comida venezuelana”. Usava um boné “vino-tinto”, a cor da equipe nacional de beisebol de seu país. Em nossa conversa durante a viagem declarou não pretender sair tão cedo de Campos do Jordão: “aqui posso viver só de minha música; nem em meu país isto era possível”. Solteiro, sua única queixa é não poder apresentar um projeto musical para concorrer ao edital de Cultura da Política Nacional Aldir Blanc no município: “é preciso residir aqui por pelo menos dois anos, e eu estou há um ano e dez meses”.

Mario* é de Barranquilla. Conheci-o na estação rodoviária do Tietê, enquanto esperávamos o ônibus das cinco da tarde que nos traria de volta à Montanha Magnífica. Com a esposa e a filhinha pequena nos braços, ele ostentava orgulhosamente um boné com a bandeira da Colômbia e uma camisa do seu time de futebol do coração, o Junior, de cores azul e vermelha. Trabalha na cozinha de um restaurante em Capivari e aluga uma pequena casa na Vila Albertina. Puxei conversa e ele me contou um pouco de sua história. Morava em São Paulo, onde também trabalhava como auxiliar de cozinha. Sua filhinha, assim que nasceu, apresentou um quadro de faringite crônica e o pediatra recomendou que ele e a família procurassem uma cidade com ar mais puro, de preferência no interior. Lúcia*, sua esposa, descobriu na internet que o melhor clima para se criar uma criança estava localizado no alto da serra da Mantiqueira. Mario falou com um amigo venezuelano, que já estava em Campos do Jordão, e veio procurar emprego, que conseguiu em uma semana. Pouco depois de ter alugado o quarto,  a mulher veio com a filha e rapidamente encontrou trabalho – como camareira de uma pousada. Mudaram-se do quarto para uma casa pequena, nos fundos de um terreno onde existem outras duas habitações. Naquele domingo, dia de folga para ambos, decidiram passear em São Paulo e rever os amigos. Pergunto: “e a pequena Isabelita*, sarou da faringite?”. “Foi como um milagre”, diz ele. “Nunca mais teve nada desde que chegamos em Campos do Jordão”. Neste ano, assim que completar três aninhos, a pequena paulistana, filha de colombianos, será matriculada em uma das escolas da rede municipal. 

Josi* conversava em espanhol ao celular enquanto esperava para ser atendida no açougue do Piratininga. Boliviana, trabalhou durante um tempo em uma confecção no Brás, afastou-se do emprego em razão de um princípio de pneumonia e, quando voltou, foi demitida. Resolveu seguir o conselho de uma conhecida e, numa manhã de domingo, rumou para Campos do Jordão em busca de trabalho porque, segundo informou uma amiga conterrânea, aqui “não faltava serviço”. “E não falta mesmo”, diz ela, que arremata: “só estranho um pouco o frio, que se parece com algumas regiões montanhosas da Bolívia”. À medida em que nossa conversa se desenrola, ela me fala de seus passatempos preferidos: assistir filmes em língua espanhola, conversar com os amigos e familiares que ficaram na Bolívia e “ir no ‘risca-faca’”, que é como chamam o forró local. Como sente muita falta da mãe, que já está com uma idade avançada, Josi ainda não sabe se vai ficar morando muito tempo na cidade, apesar de já ter um paquerinha que conheceu no baile –  Francisco, um cearense que trabalha em uma construção e com quem sempre se encontra para dançar. “De sertanejo eu não gosto, quase não entendo as letras, e também não gosto do ritmo. Prefiro forró, que aprendi a dançar com Francisco”. Mora nos fundos de uma casa em vila Jaguaribe.

Carlos*, argentino, é motorista de aplicativo, mora em Taubaté mas sobe a serra todo final de semana para trabalhar em Campos do Jordão. “O que eu faturo aqui num final de semana, não ganho trabalhando a semana inteira em Taubaté”. Torcedor fanático do River Plate, sente-se incomodado com os jovens que caminham pela rua envergando a camisa do rival Boca Juniors:  hay bosteros por todo lado”.

Hugo* também é argentino, trabalha no bar de um hotel e recentemente descobriu que vai ser pai de um pequeno – ou pequena – jordanense. A namorada trabalha como auxiliar de cozinha no mesmo hotel. Passou uma temporada na Espanha, onde trabalhou como garçom e para onde pretende voltar assim que Campos do Jordão “não der mais”. Ainda não sabe se vai levar a namorada e o filho que vai nascer.

Ricardo*, venezuelano, também atua em hotel: na manutenção, e comemorou muito a invasão de Donald Trump ao seu país, em fevereiro.  

Outras duas venezuelanas, Raquel* e Pilar*, são camareiras e foram demitidas por discutirem na frente de outros funcionários por causa de uma “caixinha” deixada por um hóspede da pousada em que trabalhavam. A gerente ficou sabendo e não gostou. “Voltem para o seu país!”, ouviram da ex-chefe, que ficou muito irritada com a cena. “Vamos ficar aqui”, diz Raquel, “porque há muito trabalho, ao contrário de São Paulo”. Uma delas comenta: “discussões no trabalho são normais, não sei porque fomos demitidas”. A outra ri baixinho: “mas a chica ficou muy nerviosa”.

A História de Campos do Jordão é marcada por episódios de chegadas de grandes massas de trabalhadores. Portugueses e nordestinos na construção civil, paranaenses e gaúchos na administração e zeladoria de residências de alto padrão, sul-mineiros, italianos na produção de malhas e gastronomia, alemães, paulistanos, caiçaras, judeus, europeus do leste, japoneses no comércio e agricultura… independentemente da  origem, todos chegaram ao alto da serra em busca de melhores condições de vida. Nem todos encontraram o que buscavam, é verdade, mas grande parte deles fincou raízes, arregaçou as mangas e alcançou seus objetivos – se não todos, pelo menos boa parte deles. 

Campos do Jordão continua causando fascínio e alimentando a esperança de quem pretende – e necessita – começar vida nova. Seja por instabilidade econômica, política e social nos países de origem, seja por uma tragédia pessoal ou pelo simples desejo de isolamento e recomeço, a verdade é que a cidade sempre foi uma espécie de “sonho” para muitas pessoas.

No caso dos sul-americanos citados neste texto, quase todos carregam histórias marcadas pela incerteza e pela busca de um porto seguro. Hoje, os venezuelanos já representam a principal mão de obra estrangeira inserida formalmente no mercado brasileiro. Em muitos casos, chegam profissionais qualificados — professores, engenheiros, técnicos e graduados — que acabam encontrando no setor de serviços a primeira oportunidade de reconstrução da vida. 

Campos do Jordão, curiosamente, reencontra assim uma dimensão antiga de sua própria história. A cidade sempre foi feita de chegadas. Agora chegam novos sotaques, que podem ser ouvidos nas cozinhas dos restaurantes, nos balcões e corredores dos hotéis e pousadas, nas oficinas de manutenção, nas ruas, nos ônibus e no comércio local.

São trabalhadores que ajudam a manter viva uma engrenagem fundamental para a economia jordanense: a hospitalidade. É gente para quem o trabalho ainda significa dignidade, estabilidade e esperança.

Muitas pessoas talvez ainda não tenham se dado conta dessa transformação. Mas ela está acontecendo diante dos nossos olhos. Enquanto os turistas sobem a serra em busca do frio, do fondue e do imaginário europeu, uma outra América do Sul também sobe a montanha — silenciosa, trabalhadora, cheia de esperança e resiliência.

E talvez isso diga algo importante sobre Campos do Jordão: apesar das mudanças econômicas, dos altos custos e das dificuldades contemporâneas, a cidade ainda conserva aquilo que sempre sustentou os grandes lugares de acolhimento — a capacidade de oferecer futuro a quem precisa começar outra vez.

Depois dos portugueses da Estrada de Ferro, dos alemães do Windhuk, dos japoneses e italianos, chegou a vez dos latino-americanos darem sua contribuição para a consolidação desse grande mosaico que é a nossa identidade – múltipla, diversificada, abrangente, fascinante. 

 

*nomes fictícios.

 

Benilson Toniolo, professor, escritor, historiador e gestor público, atua como consultor da AME Cultura (Agência Mineira de Entretenimento) em projetos do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em diversos municípios brasileiros. Membro de várias Academias de Letras e outras entidades, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.

 

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