No dia 23 de junho de 1987, o grande maestro brasileiro Eleazar de Carvalho tomou uma decisão radical: rompeu relações com a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.
O anúncio pegou de surpresa toda a imprensa brasileira especializada, amantes de música erudita, críticos, profissionais e os incontáveis admiradores do maestro. Perguntado sobre o que motivara sua decisão, não titubeou em responder: a relação, que já vinha se desgastando ao longo do tempo, encontrou seu ponto culminante no que ele chamou de “excessiva popularização do Festival de Inverno de Campos do Jordão”.
Pelo menos desde 1967, quando foram realizados os primeiros concertos de inverno do Palácio Boa Vista (com a presença dos regentes Camargo Guarnieri e Souza Lima, com Magdalena Tagliaferro ao piano), a presença de Eleazar de Carvalho no alto da serra sempre foi marcante e decisiva. Mas ela começa um pouco antes.
No ano de 1953, quando o Palácio Boa Vista ainda nem havia sido inaugurado, o maestro recebeu uma carta remetida de Campos do Jordão, assinada por Jacques Perroy e Raul Pedroso de Moraes, sugerindo a ele que fosse criado no município um núcleo local da Juventude Musical Brasileira, fundada e dirigida por Eleazar.
O pedido deu certo: em outubro do mesmo ano, sob a presidência de Joaquim Corrêa Cintra e supervisão de Souza Lima, o núcleo estava criado e funcionando na sede da Diretoria Municipal de Turismo – DMTur -, localizado onde hoje funciona o Centro de Operações Integradas da Guarda Municipal, em Abernéssia.
Com a criação do Festival de Inverno em 1970, coube a ele uma iniciativa ousada: em 1973, nomeado seu diretor artístico e influenciado pelo modelo do Festival de Tanglewood, nos Estados Unidos, e sob impacto da experiência transformadora da Juventude Musical Brasileira, criou um núcleo pedagógico, destinado a receber bolsistas de todo o país e do exterior em experiências de aprendizado durante as temporadas de julho.

Em 1977, em visita ao acervo do Palácio Boa Vista, não economizou ao registrar suas impressões no tradicional livro de visitantes: “assemelha-se, em beleza e grandiosidade, à nona sinfonia de Beethoven”.
Eleazar nasceu em 1912, na cidade de Iguatu, no interior do Ceará, em uma região onde ninguém poderia imaginar que dali sairia um dos maiores nomes da música e da cultura brasileiras de todos os tempos.
Ainda jovem mudou-se para o Rio de Janeiro, integrou a Banda do Batalhão Naval e iniciou uma trajetória que o levaria aos principais centros musicais do mundo. Mais tarde, nos Estados Unidos, aperfeiçoou-se sob a orientação do lendário maestro Sergey Koussevitzky, em Tanglewood, tornando-se seu assistente ao lado de um jovem chamado Leonard Bernstein.
Não demorou para construir uma carreira internacional respeitada, dirigindo importantes orquestras norte-americanas e europeias e tornando-se um dos regentes de maior prestígio no século XX em todo o mundo, regendo as orquestras de Houston e Saint Louis, além da Orquestra Sinfônica Brasileira e a própria OSESP – Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.
O interesse de Eleazar pela música não se resumia à performance. Ciente da importância do estudo e da formação para as pessoas ocupou-se, sempre que possível, da criação de núcleos de iniciação e aperfeiçoamento musicais. Só o Festival de Campos do Jordão foi – e continua sendo – o grande responsável pela consolidação de incontáveis carreiras de profissionais da música erudita.
Sua imagem está definitivamente associada a Campos do Jordão não somente por sua fantástica contribuição ao Festival como também ao nosso próprio destino, uma vez que a cidade, na primeira metade dos anos 1970, buscava caminhos para se consolidar como o maior e mais destacado destino de turismo de inverno do Brasil – um dos maiores do mundo. Eleazar foi fundamental para essa transformação.
Em 1992, o Governo do Estado de São Paulo descerrou uma placa em homenagem aos seus 80 anos nascimento na entrada do Auditório Claudio Santoro.
Em 2005, por iniciativa da Academia de Letras local, foi descerrada uma placa em sua homenagem e também em homenagem aos “maestros pioneiros do Festival de Inverno”, Camargo Guarnieri e Souza Lima. Desconhece-se o paradeiro da placa, então instalada na praça que hoje recebe os artesãos jordanenses, na vila Santa Cruz. Sumiu a placa, mas a memória permanece.
Eleazar de Carvalho morreu há três décadas: em São Paulo, em 1996, aos 84 anos.

Todos os invernos, quando soam os primeiros acordes do Festival Internacional Luis Arrobas Martins, no Auditório Claudio Santoro, seu nome está presente, mesmo quando não é pronunciado.
Na porta de entrada da Sala São Paulo, é ele, em forma de estátua, de batuta em riste, quem recebe os visitantes com a gravidade de seu rosto detalhadamente esculpido e sua presença insofismável.
Enquanto o público assiste aos concertos, centenas de bolsistas estudam e praticam com grandes professores, ensaiam durante horas e convivem com músicos que admiravam apenas pelos discos, pelos concertos na internet ou pelos livros. Muitos dos principais instrumentistas e maestros brasileiros passaram por Campos do Jordão graças a esse modelo implantado pelo homem de baixa estatura, mas de envergadura cultural gigantesca.
Hoje, quando um jovem com seu instrumento desembarca defronte à antiga Estação da Luz e se dirige à Sala São Paulo para fazer parte do programa de Bolsistas do Festival de Inverno de Campos do Jordão, não é somente um indivíduo que se aproxima de seu lugar de aprendizado.
É a figura do próprio Eleazar de Carvalho que se apresenta, com passos firmes e certeiros, senhor do seu ofício e de sua importância para a gigantesca e incomparável cultura brasileira – pois toda vez que um jovem se assenta para sua primeira aula no programa pedagógico do Festival de Inverno, sua obra continua.

Benilson Toniolo, professor, escritor, historiador e gestor público, atua como consultor da AME Cultura (Agência Mineira de Entretenimento) em projetos do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em diversos municípios brasileiros. Membro de várias Academias de Letras e outras entidades, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.


