Maio amarelo: Quando o problema é a rua, não o volante | Por: Ricardo Gonçalves

Nem todo acidente é culpa do motorista! Todo mês de maio é a mesma coisa: surgem as campanhas do Maio Amarelo pedindo mais responsabilidade dos motoristas. E com razão. Não dá pra ignorar os absurdos que a gente vê nas ruas e estradas — gente correndo, mexendo no celular, dirigindo bêbada. Mas tem um lado dessa conversa que quase ninguém toca: os acidentes que acontecem mesmo quando o motorista faz tudo certo.

A verdade é que tem muita coisa que causa acidente e não tá nas mãos de quem dirige. Tá nas mãos do poder público. E aí a gente entra num terreno que pouca gente quer pisar: a má qualidade da infraestrutura viária e o descaso com o planejamento urbano.

Vamos começar pelas ruas e estradas. Tem lugar que parece cenário de guerra: buracos enormes, sinalização apagada, ausência de faixas, semáforos quebrados. Já vi cruzamento sem nenhuma placa de “pare” ou faixa de pedestre colocada no meio de uma curva — um convite ao atropelamento. E não é pontual, é crônico. São anos de abandono.

Tem também os casos absurdos que colocam em risco até quem dirige com toda atenção do mundo. Em Campos do Jordão, por exemplo, há cruzamentos por onde passa o bondinho turístico, mas a visibilidade é totalmente obstruída por construções ou até vegetação alta. O motorista só vê o trem quando ele já está em cima — e mesmo que ele pare, às vezes não tem espaço pra recuar. É um erro de projeto, de manutenção e de fiscalização.

E quem planeja isso tudo? Onde estão os engenheiros de tráfego, os técnicos das prefeituras e dos Detrans? Parece que muita coisa é feita no improviso, sem estudo, sem pensar na realidade de quem passa ali todos os dias. Ciclovia que termina no nada, retorno em lugar perigoso, lombada sem aviso. O motorista precisa adivinhar o que vem pela frente.

Outro ponto crítico é a fiscalização. Em algumas avenidas, há radar em cada esquina — e tudo bem, se a intenção for realmente prevenir. Mas nas áreas de maior risco, onde o traçado da via é perigoso ou onde há alta circulação de pedestres, muitas vezes não tem ninguém. Nem radar, nem agente. A presença do poder público é seletiva, e isso custa vidas.

É fácil responsabilizar o motorista. Dá pra fazer campanha bonitinha, spot de rádio, vídeo emocionante. Mas e o trabalho que dá menos visibilidade, como tapar buraco, revisar projeto viário, manter sinalização? Isso quase nunca vira prioridade. E aí, quando acontece um acidente, sobra pro condutor.

Sim, o motorista tem seu papel. Mas enquanto o poder público continuar ignorando sua parte, as campanhas vão seguir sendo só um gesto simbólico. E os acidentes que poderiam ser evitados, vão continuar acontecendo — porque não basta dirigir bem se o caminho é mal feito.

Esse mesmo fenômeno acontece também em outras áreas. Proponho uma atenção do leitor quanto a isso. O que perde atenção, quando “se joga luz” em somente uma parte da história? 

 

Ricardo M. S. Gonçalves
Fundador do  Guiacampos.com e um dos
apaixonados por Campos do Jordão

 

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