Para Maria Isabel Pereira. Bel.
Naquela tarde fria de 20 de maio de 2016, de ventos gelados soprando de todos os lados, eu e Bel Pereira nos posicionamos, inquietos e reticentes, defronte ao local onde a poeta descansava.
O dia havia nascido cinza em Campos do Jordão e assim permaneceu: frio, nublado, ameaçando uma improvável chuva de meio de outono, atravessado por aquele vento contínuo que parecia deslocar não apenas as nuvens, mas o próprio tempo.
Eu à frente da Secretaria Municipal de Cultura de Campos do Jordão; ela, assessora de imprensa da prefeitura, nascida em São João da Boa Vista, o mesmo berço da poeta que repousava bem ali, à nossa frente.
À volta, manejando as pás e as enxadas com grande habilidade, dois trabalhadores se preparavam para abrir a terra.
Ambos fingíamos naturalidade. Um ato meramente administrativo, queríamos ter pensado. E esperávamos, com as mãos geladas, o espírito perturbado e o coração aos pulos, a exumação dos restos mortais de Orides Fontela, falecida aos 58 anos, no dia 2 de novembro de 1998, em um quarto qualquer do Sanatório São Paulo – a apenas alguns quilômetros de onde estávamos.
Havia algo de profundamente “oridiano” naquela paisagem. Parecia que apenas ela, a poeta, estava à vontade, certa da relevância do seu papel e sua presença. A poeta que escreveu com a lâmina do essencial parecia reconhecer-se no cenário austero da montanha. Seus versos — sempre breves, sempre densos — ecoavam como uma respiração contida:
“Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.”
E não era suave aquele momento. O procedimento técnico, necessário, contrastava com a dimensão simbólica do gesto. Não se tratava apenas de abrir a terra, mas de tocar uma memória. Orides, que tantas vezes escreveu sobre a ossatura das coisas, sobre a matéria mínima e o silêncio, parecia ensinar que há instantes em que a realidade exige distanciamento. Contenção. E a reverência dos momentos que, sabemos, serão eternos.
Orides veio para Campos do Jordão, vinda de São Paulo, tratar da tuberculose. Vida sofrida, de salários insuficientes em empregos em que jamais se encontrou. Residiu em pensões, fundos de residências, quartos em que foi despejada por falta de pagamento. De família humilde, dedicou-se à poesia como destinação, refúgio e encontro.
Orides construiu uma obra singular na literatura brasileira. Em livros como Transposição, Helianto e Teia, sua escrita recusou ornamentos e abraçou o rigor. Filosófica sem perder a vibração sensível, sua poesia sempre buscou o cerne, a centelha, a faísca, o ponto exato onde linguagem, vida e pensamento se encontram.
No dia 24 de maio, em Jacareí, realizamos a entrega das cinzas às autoridades sanjoanenses presentes: o então prefeito Vanderlei Borges de Carvalho, o Reitor das Faculdades Associadas de Ensino, Francisco de Assis Carvalho Arten, e à presidente da Academia de Letras, Lucelena Maia. O ato, simples em sua forma, carregava uma densidade histórica e afetiva incontornável: devolver à cidade natal aquela que ajudara a inscrevê-la no mapa da poesia brasileira.
Era, de algum modo, um retorno ao princípio.
“É preciso o silêncio
para que a palavra exista.”
A poeta regressava em silêncio.
Hoje, quando a Festa Literária Internacional de Paraty anuncia a homenagem – justa, justa – a Orides e sua obra, me dou conta que o ciclo se cumpriu. Eu li os poemas. Eu vi o que há por dentro – o que foi natural, o que foi implantado. Vi a cor da terra e senti seu cheiro úmido e compacto. Vi o vestido breve, leve, azul claro (disseram que tinha sido roxo), que a cobriu. Eu senti o vento que fez com que o último vestido se movimentasse num frêmito – breve e gélida brisa que se assemelha à poesia quando nos assombra — uma poesia que enfrenta o vazio, a falta, a transcendência, a dor indizível.
Havia o vento. Ele atravessava as árvores como se buscasse, entre galhos, pedras e a terra que circunda os túmulos, a mesma síntese que Orides buscou na poesia. Talvez ela não quisesse que fosse um dia de sol.
Mais do que um ato administrativo, foi um rito de restituição. Devolver Orides à sua terra natal não foi apenas conduzir um resto de corpo reduzido à matéria, mas ajudar a trazer à luz uma obra que continua a arder na inteligência e na sensibilidade dos leitores.
Porque Orides permanece.
Permanece na palavra exata.
Permanece na recusa do desnecessário.
Permanece no desafio de dizer o indizível.
Permanece no vento que açoita e desarranja.
E talvez, tenhamos compreendido – eu, Bel, a poesia e a montanha — que certos retornos não encerram uma história. Permitem apenas novas leituras, novos encontros, novas permanências.
Novos ventos.


