Os gaúchos o fazem mateando, ou acompanhados de uma bergamota polpuda e generosa.
Os paranaenses, enquanto observam o entorno e a claridade do céu.
Nas cidades serranas e de montanha, seja no ambiente rural ou urbano, um hábito une essa gente que vive, até por características geográficas, mais perto do céu: lagartear.
O verbo pode soar estranho para quem vem de fora. Alguns talvez imaginem alguma atividade ligada à zoologia ou um esporte desconhecido. Nada disso. Lagartear é quase uma ciência. Uma filosofia. Um estado de espírito.
Consiste, basicamente, em fugir do frio e encontrar um pedaço de sol e nele permanecer pelo maior tempo possível. Como os lagartos? Como os lagartos.
Pode ser um banco de praça, um degrau de escada qualquer, uma varanda de qualquer tamanho, uma cadeira de plástico no quintal. Um muro baixo, um pedaço de gramado. Não importa.
Nas temporadas mais frias, se o sol bate ali, alguém vai aparecer para ocupar o espaço.
Nas manhãs mais frias do outono, e principalmente do inverno, o fenômeno costuma acontecer com mais intensidade. A temperatura, próxima de zero grau, no máximo um pouco acima, mas sempre na casa de um dígito, insiste em prevalecer, mas o sol já começa a fazer seu trabalho.
Nesse momento, o jordanense sai de dentro de casa – ou do ambiente de ofício, quando pode – como quem atende a um chamado ancestral: é hora de “quentá sór”. De espantar o frio. De receber os raios de sol na cabeça, nos braços, no rosto.
Em poucos minutos, as praças ganham vida.
Onde havia um “lagarto”, agora surgem dois.
E conversam: política, trabalho, amizades, futebol, dinheiro, amor, amizades. Todos os temas são possíveis quando as pessoas lagarteiam.
Alguns permanecem em silêncio.
Raros leem – limitam-se a repassar, ler e reler, as mensagens nas telas dos celulares.
Muitos apenas observam o movimento.
E há aquelas que praticam a forma mais avançada do lagarteio: não fazem absolutamente nada.
Ficam ali. Quietas. Recebendo calor e calculando o tempo que ainda resta para voltar para o interior das casas, dos escritórios. Mais tarde, quando o frio aumentar, lagartearão de novo, perfeitamente adaptados ao ecossistema serrano, até que a tarde comece a se despedir e o frio retorne com força.
É uma atividade sem pressa, sem metas e sem relatórios de desempenho. Não gera certificados nem pode ser transformada em curso de produtividade. Talvez por isso seja tão eficiente. As chefias, atentas ao cumprimento das obrigações laborais, toleram: lagartear também é cultura. Mas que ninguém abuse. O trabalho não pode esperar.
O lagarteador experiente sabe que existem horários melhores, bancos mais disputados e fachadas privilegiadas pela inclinação do sol. É um conhecimento transmitido de geração em geração e nunca documentado.
Há também os acompanhamentos tradicionais: um café (aqui não se mateia), um chocolate quente, uma mexerica (uma parente da bergamota dos gaúchos). No outono, quando a temporada permite, alguns pinhões cozidos.
Porque em Campos do Jordão, lagartear sem pinhão é possível, mas convenhamos: não é a mesma coisa.
O pinhão ajuda a marcar o ritmo da atividade. Descascá-lo exige paciência, uma característica essencial para quem pretende passar longos minutos simplesmente aproveitando o calor que cai do céu.
Talvez seja por isso que alguns visitantes se surpreendam tanto ao chegar à serra. Esperam encontrar uma cidade correndo atrás do tempo e descobrem uma população que, diante de uma bela manhã ensolarada, decide parar por alguns instantes para apreciá-la.
Não se trata de preguiça – também não é falta do que fazer.
É apenas a compreensão, adquirida ao longo de muitos invernos, de que certos dias merecem ser vividos com calma.
E quando o frio aperta, o sol aparece e os pinhões estão na panela, o mais sensato a fazer é aceitar o convite.
Sentar. Quentá sór. Conversar um pouco. Não conversar nada. Ver, ouvir e sentir a vida, apenas.
Afinal, entre as muitas tradições da serra, poucas são tão agradáveis quanto essa antiga e respeitável arte de lagartear. Aproveitar o sol em meio a dias tão frios.
E o tempo que passa mais lentamente, o calor generoso da serra, o abraço das araucárias, o céu cintilante do azul mais extraordinário.

Benilson Toniolo, professor, escritor, historiador e gestor público, atua como consultor da AME Cultura (Agência Mineira de Entretenimento) em projetos do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em diversos municípios brasileiros. Membro de várias Academias de Letras e outras entidades, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.


