Seu Décio, o homem das águas, herói discreto num mundo invertido

À distância parecia uma cena clássica de um filme bem conhecido: Um homem sozinho, abaixado, usando um chapéu marrom, malha verde e calça comprida de trabalho. Ele martela cuidadosamente uma talhadeira, tirando pedaços de pedras incrustadas e está quase oculto num recanto da mata. Os dois instrumentos tocam uma música lenta e compassada que corta o isolamento do lugar. Não há ninguém ali, só a natureza e um tímido rumor de água correndo.

O homem que trabalha sozinho poderia ser um arqueólogo famoso em busca de algum tesouro oculto por séculos. A aparência nos gestos e no vestir é incrivelmente similar. Seria ele um Indiana Jones da serra da Mantiqueira? Escavando inimagináveis preciosidades escondidas por indígenas, bandeirantes ou até talvez contrabandistas escapando do controle da corôa portuguesa.

Chego mais perto e entendo melhor a cena. O Indiana Jones da minha imaginação não é um arqueólogo estrangeiro famoso. Embora também tenha vindo de longe, é um brasileiro de Ubiratã, pequena cidade no oeste do Paraná. Ele também já foi um forasteiro, como muitos que vieram de outras terras, mineiros, nordestinos, paulistanos, cariocas e tantos outros que chegaram pelos mais diversos motivos e resolveram ficar, ajudando a construir a cidade mais alta do Brasil.

Ele é seu Décio, o homem das águas. Já o encontrei inúmeras vezes ali na fonte Simão, consertando, limpando, ajustando, pintando e fazendo todo tipo de manutenções. Num destes encontros ele fazia uma grande reforma na fonte, criando um sistema para captar a água à meia profundidade no reservatório, de modo a aproveitar sempre a porção mais limpa, sem as sujeiras do fundo ou da superfície. Depois, no acabamento, colocou uma boa torneira de metal para segurar a água, gerando mais volume e um fluxo mais forte. Não satisfeito, ainda instalou um engenhoso “ladrão”, com a missão de jogar fora o excesso de água, mantendo o equilíbrio no reservatório. Concepção e execução primorosas de um projeto simples e prefeito, como são as boas ideias.

A torneira de metal durou pouco. Alguma alma sebosa foi até lá e roubou. Seu Décio logo substituiu por outras, também de metal, mas todas foram sendo roubadas. Ele então trocou por aquelas tipo válvula, feitas em plástico, mas de boa qualidade. Estas tiveram vida mais longa, entretanto, como o valor das peças era menor, passaram a ser simplesmente quebradas, a pontapés e pauladas. Apesar de tudo, seu Décio continuou trocando as torneiras, mantendo a preciosa água da fonte Simão jorrando, de graça e para todos, como deve ser.

Mas desta vez havia algo diferente. A torneira de plástico estava inteira e funcionando. Seu Décio trabalhava ao lado, martelando suavemente na pequena base onde fica cimentada a sua criativa e funcional válvula de descarga de excesso, o popular “ladrão”. Cada batida de martelo e talhadeira feita com precisão e método, como se escavasse um artefato precioso de alguma antiga civilização perdida. Inacreditavelmente algum ser bestial, sabe-se lá por qual razão, tinha destruído a saída do cano. Provavelmente com pontapés, pauladas ou talvez até pedradas, pois não era coisa tão fácil de arrebentar. Por mais que eu tente, minha mente limitada não consegue imaginar porque uma pessoa cometeria tamanha imbecilidade, destruindo uma dádiva maravilhosa feita para todos.

A válvula vandalizada não podia ser largada quebrada. Ela tem uma grelha que atua como rede, prevenindo possíveis contaminações no reservatório. Assim, lá estava o seu Décio, mais uma vez trabalhando pelo bem de todos na nossa cidade.

Com sua fala mansa, sorriso no rosto, disposição e força, ele segue desafiando o desânimo e a vontade de jogar a toalha. “Enquanto eu estiver por aqui vou continuar lutando para manter a água jorrando limpa e livre”. Palavras sábias que soam como um exemplo de vida neste mundo corroído e invertido, onde existe gente que usa seu tempo para destruir a fonte do mais vital alimento que existe. Tiramos a sorte grande quando o paranaense de Ubiratã veio para a serra. Uma viagem até Aparecida para pagar uma promessa feita pela mãe quando seu Décio, muito jovem, quase morreu por conta de uma meningite feroz, acabou por obra do destino nos presenteando com sua vinda para cá.

Seria bacana se a nossa prefeitura pudesse ajudar neste esforço solitário, talvez colocando algumas câmeras de vigilância nesta e nas outras fontes de água, também cuidadas por seu Décio. Um olhar mais forte do poder público talvez ajudasse a afastar estes vândalos que infelizmente não valem o gole de água que lhes mata a sede.

Enquanto alguma proteção não vem, o herói discreto continua abraçado à missão que ele escolheu, velar e cuidar do mais precioso dos tesouros, a água pura da Mantiqueira.

Vida longa e saudável seu Décio e muito obrigado!

Texto e fotos por Marcelo Vigneron um paulistano, jordanense por adoção. (@marcelovigneronfotografia)

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