Três indicações: As boas notícias vêm da cultura. Por: Benilson Toniolo

Já faz algum tempo que Campos do Jordão decidiu deixar a retórica de lado e se dedicar verdadeiramente à Cultura.

Parece ter havido uma espécie de “pacto não-combinado”: pessoas, entidades, associações, empresas e poder público entenderam que havia chegado a hora de finalmente começar a construir ações culturais relevantes e permanentes, que não se limitem a aspectos performáticos e eventuais e considerem também, em seu planejamento, atividades de formação.

Os resultados não demoraram a aparecer e, nesta semana, a cidade recebeu uma grande notícia, com a indicação do Festival Curta Campos do Jordão do Cineclube Araucária, da Páscoa das Artes e do Museu Casa da Xilogravura como finalistas, em suas categorias, para concorrer ao Prêmio Governador do Estado de São Paulo para as Artes, uma das mais importantes distinções da cultura paulista.

São três iniciativas diferentes, mas que revelam uma mesma configuração: a qualidade da cultura que é feita em nossa cidade. Todas demonstram que Campos do Jordão não é apenas uma cidade que recebe cultura. É também uma cidade que produz, preserva, organiza, promove e compartilha Economia Criativa.

O Festival Curta Campos do Jordão, realizado com muito esforço e dedicação pelo Cineclube Araucária, atualmente na 11º edição, representa a força do audiovisual, da formação de público e da democratização do acesso ao cinema. Anualmente, o certame recebe centenas de trabalhos provenientes de todos os Estados do Brasil e também do exterior e promove, por meio do Espaço Cultural Dr Alem e de outros equipamentos locais, a formação, a fruição e a produção do que há de melhor na produção brasileira contemporânea na linguagem dos curtas metragens.

A Páscoa das Artes, por sua vez, demonstra a capacidade de transformar a cidade em um espaço de encontro com diferentes linguagens artísticas tendo como base uma das datas mais marcantes do calendário turístico. Música, artes visuais, literatura, teatro, dança e outras manifestações podem ocupar esses espaços e criar experiências que ultrapassam a lógica tradicional dos equipamentos culturais. É uma ação que ocupa espaços públicos, agrega moradores e visitantes em torno da criatividade em uma das datas mais simbólicas do calendário, e que promove a ideia de renascimento e recomeço.

Já o Museu Casa da Xilogravura representa a preservação e a difusão das artes visuais e da memória cultural. A existência, em nossa cidade, de uma instituição dedicada a uma técnica artística tão importante para a cultura brasileira constitui um patrimônio que ultrapassa as fronteiras do município – e nunca é demais lembrar que a fachada do Museu, de 1928, é tombada pelo Patrimônio Histórico municipal.

Experiências diferentes, mas que se complementam: uma promove o cinema. Outra amplia a circulação das artes. A terceira preserva e apresenta ao público um patrimônio artístico de excepcional relevância no Brasil e no mundo.

Juntas, elas ajudam a revelar uma cidade culturalmente mais diversa do que muitas vezes conseguimos perceber.

É importante dizer que não é a indicação que torna esses três elementos importantes. O Festival de Curtas já tinha sua relevância antes de ser indicado. A Páscoa das Artes já produzia encontros e experiências antes de chegar à seleção estadual. O Museu Casa da Xilogravura, que caminha para completar suas primeiras quatro décadas de fundação, já era um espaço de referência muito antes de ter seu trabalho reconhecido por uma premiação.

O que o reconhecimento faz é lançar luz sobre esse cenário.

Para uma cidade turística como Campos do Jordão, as indicações possuem uma importância ainda maior, pois reforçam a vocação natural do município para as artes e para proporcionar a visitantes e moradores experiências estéticas inesquecíveis.

A cultura permite que o visitante não apenas passe por Campos do Jordão, mas estabeleça uma relação mais profunda com a cidade.

Quando a cidade realiza festivais, mantém museus, promove exposições e apresenta espetáculos, estimula a produção artística e cria oportunidades para que seus próprios artistas se expressem, ela amplia sua capacidade de ser um destino turístico de experiências que envolvem não só a Cultura, mas a sensação de bem-estar, de valorização do patrimônio e de diversidade de acervos e de linguagens.

O turismo não pode depender eternamente de uma única temporada ou de um único modelo de consumo. A Cultura, por sua vez, pode contribuir para ampliar calendários, estimular a permanência dos visitantes e valorizar a imagem da cidade.

Pode ajudar também a construir uma cidade melhor também para quem nela reside. Afinal, ao contrário de um pensamento equivocado que foi gerado e mantido durante muitos anos por aqui, a Cultura não é “coisa de turista”. É patrimônio local, que compõe a nossa identidade e a nossa condição de jordanenses, nativos ou adotados. Quando fazemos Cultura, expressamos nossa condição humana, nossos valores, saberes e fazeres que nos foram transmitidos desde o nosso nascimento.

O morador também precisa ter acesso a cinema, exposições, museus, festivais, música, literatura, teatro, dança e outras manifestações artísticas realizadas em sua própria casa.

Quando a cultura é forte para os moradores, ela também se torna mais autêntica para os visitantes.

Talvez a maior importância dessas três indicações seja justamente a possibilidade de permitir com que nós, jordanenses, possamos olhar a cidade por meio de outros ângulos. Pode ser que, nas nossas conversas, nas nossas reflexões e quando nos debruçamos para desenhar o esboço de um planejamento local, falte justamente olhar não para o que já temos, mas para o que já somos.

Às vezes, é só questão de olhar mais vagarosamente, com maior atenção.

E, quando três de nossas ações culturais chegam simultaneamente à condição de finalistas de uma das mais importantes premiações da cultura paulista, talvez seja o momento de compreender que não estamos diante de casos isolados.

Estamos diante de fatos, como o que indica que a cidade já possui uma produção cultural diversificada e de qualidade – e que exige não apenas reconhecimento, mas apoio (real) e investimento.

Foi o audiovisual, foram as artes visuais, foi a preservação do patrimônio. Mas poderia ser – pode ser – a literatura, a dança, o artesanato, a fotografia, a gastronomia, o teatro, o design, a música e tantas outras categorias e modalidades existentes no nosso cenário cultural.

Campos do Jordão sabe fazer Cultura. E faz isso o ano inteiro, com prêmio ou sem prêmio, com indicação ou sem indicação.

E por isso, merece continuar ocupando com destaque o lugar que sempre foi seu – por direito, capacidade e indiscutível competência.

Benilson Toniolo, professor, escritor, historiador e gestor público, atua como consultor da AME Cultura (Agência Mineira de Entretenimento) em projetos do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em diversos municípios brasileiros. Membro de várias Academias de Letras e outras entidades, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.

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