Tubarão – “Irmão dos pobres e meu irmão”

(Saudação feita pelo Papa João Paulo II a d. Hélder Câmara)

A “missão” era simples: o motorista da prefeitura deveria passar às seis horas da manhã do sábado, dia 13 de junho, para conduzir o artista plástico Luiz Pereira Moysés, o Tubarão, até a cidade de Arceburgo, sul de Minas Gerais, onde ele receberia uma premiação pela participação em um importante salão de arte naquele pequeno município.

Tudo combinado resolvi, no final do expediente de sexta-feira, entrar em contato com o setor de Transportes para confirmar o serviço. Não, não estava confirmado. O motorista escalado para a referida viagem tinha tido um contratempo e não havia como substituí-lo. Fazer o quê? Ligar para o artista e dizer que não havia mais como levá-lo à premiação? Com que cara? Não tinha jeito. “Não tem tu, vai tu mesmo”, como dizia meu pai. Na manhã seguinte, às seis da manhã, lá estava eu com um carro da frota da prefeitura de Campos do Jordão na frente da casa do “seo Luiz” para exercer a inédita função de motorista – e acompanhante – do renomado artista até a cidade mineira – mais de quatrocentos quilômetros de distância.

Saímos cedo. Pensei que seria uma viagem mais curta. Não foi. Chegamos depois do almoço, ludibriados por um desvio na estrada depois da serra de Poços de Caldas que prolongou o trajeto por quase duas horas.

Tubarão foi um bom companheiro daquela imprevista viagem de 2015 (lá se vão dez anos…). Falamos de tudo: futebol, política, religião, mulher, casamento, exposições de arte, poesia, família… e muito de Campos do Jordão. Eu, jordanense neófito com uma sede danada de aprender sobre a cidade e sua História, procurava guardar na memória algumas pérolas que ele vinha soltando aqui e ali, pelos caminhos da conversa. Tubarão gostava de conversar. Muito.

A cerimônia foi simples, com a presença das autoridades locais em uma casa de cultura da cidade. Fotografei a premiação, retratei o artista diante da obra, ele recebendo a medalha, sendo abraçado pelas autoridades… havia uma festa gastronômica na rua, perto do hotel em que ficamos. Fomos até lá, ele foi passear em um canto, eu em outro, nos encontramos no hotel.

Na manhã seguinte, encontrei Tubarão já no café-da-manhã, contando para as pessoas como é Campos do Jordão. Uma pessoa dizia que tinha o sonho de conhecer a famosa “Suíça Brasileira”, ele se entusiasmava, “você vai adorar, é lindo, me procura!”. Tubarão e Campos do Jordão, indissociáveis.

A viagem de volta, na manhã de domingo, foi mais rápida: pegamos um atalho. Em Conceição dos Ouros ele pediu para descansar. Paramos perto de uma ponte, ele entrou em uma padaria e pediu uma coxa de frango assado que estava com um aroma pra lá de convidativo e que ele comeu de pé, no balcão. Andei um pouco ali por perto e, quando voltei, lá estava ele na calçada, conversando com três ou quatro novos “companheiros”, como ele mesmo chamava.

Fizemos outras duas viagens juntos, uma para São Paulo, quando foi premiado pelo conjunto da obra pela Secretaria de Estado da Cultura durante o Mapa Cultural Paulista, e outra para Caraguatatuba, na fase regional do mesmo certame. Nestas duas, acompanhou-nos dona Mariza, sua eterna namorada.

Penso nessas coisas enquanto essa refrescante chuvinha de meio de fevereiro se deita sobre a Montanha Magnífica nesta noite de verão. Não faz nem uma semana que, aos noventa anos, o Luiz Pereira Moysés se despediu de nós com a mesma rapidez com que entrava no Espaço Cultural Dr Alem para cumprimentar a gente e tomar um café enquanto esperava a esposa fazer suas coisas em Abernéssia. Entrava e saía rapidamente. Quando via que o serviço na Secretaria permitia quedar-se um pouco mais, sentava e papeava. Logo saía. Não queria atrapalhar.

Artista, ex-goleiro do futebol de várzea, professor, trabalhador da construção civil, político aguerrido e combatente, religioso convicto, filho saudoso, marido apaixonado, pai, amigo de muitos e “companheiro” daqueles que, por alguma afinidade, ele se permitia uma aproximação maior, Tubarão deixa um enorme vazio na vida de todos nós, que tivemos o privilégio de conviver com ele, com sua singular visão de mundo, com suas ideias.

Assim como a história que narrei acima, da nossa viagem a Arceburgo (vou ser sincero: nunca tinha ouvido falar da simpática cidade), quase todos os jordanenses têm uma história marcante ao lado desse personagem que marcou a nossa vida e a da nossa Cidade.

E não é nenhum exagero dizer que, enquanto houver um único artista pintando um quadro ou escrevendo um poema em Campos do Jordão, aí também estarão presentes o espírito e a memória desse companheiro que soube, como poucos, honrar e retratar o solo que lhe serviu de berço.

É hora de agradecer pela vida deste homem que soube, como poucos, levar adiante e para inúmeras pessoas a mensagem da Arte, da Cultura, da Fé, do Amor e da Amizade.

Chegou a hora do descanso merecido, companheiro.

Nós, os que aqui ficamos, recebemos e abraçamos, agradecidos e com os caminhos das lágrimas ainda marcando o rosto, a sua memória e o seu legado.

Viva, para sempre, a Cultura Jordanense.

Viva Luiz Pereira Moysés, nosso mestre eterno.

 

Benilson Toniolo
foi Secretário Municipal de Cultura
de  Campos do Jordão é escritor premiado
e membro de diversas academias de letras.

 

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