Dia desses, tomava um cafezinho com Edmundo Ferreira da Rocha ali na Milili quando ele falou do protagonista de um dos meus livros – Gessandro, personagem de “Depois do Último Dia”, um nordestino que trabalha como porteiro de um edifício no litoral de São Paulo. Falamos do livro, da trama, dos personagens, da história, naquela conversa amistosa de fim de manhã regada a um bom café e os salgados e doces que o Bruno, a Paulinha e toda a equipe de lá fazem com tanto carinho pra gente.
De repente, já quase na hora de ir embora, um seu – dele – conhecido aproximou-se da nossa mesa e começou a tecer palavras pouco elogiosas para se referir aos nordestinos. “Do nada”, como se diz hoje em dia, o sujeito saiu de onde estava, veio até nossa mesa e desandou a falar mal daquela região do país.
Nem vou reproduzir aqui o que ele disse porque ainda me sinto ofendido, como filho de alagoano que sou (de União dos Palmares) e pesquisador da cultura brasileira e, em especial, da nordestina. Por vários motivos – inclusive familiares – o Nordeste está presente em meu trabalho de autor e é uma das marcas daquilo que produzo em meus romances. Paciência. Cada um escreve o que quer e o que pode, e cada um lê o que gosta.
O problema não é que as pessoas tenham opiniões – isso e ótimo. O problema está no fato de as pessoas emitirem opiniões sobre assuntos que não dominam. Com as redes sociais, esse desmantelo só aumentou: o mesmo indivíduo que levou sete anos para terminar o colegial (atual Ensino Médio), desistiu da faculdade no primeiro ano e não lê um livro há uma década se senta na frente do seu computador e passa o dia a emitir opiniões, nas redes sociais, sobre absolutamente tudo: decisões do Supremo Tribunal Federal, os desafios da Educação pública, sistema eleitoral da Venezuela, a revolução no Haiti, o trânsito do Jaguaribe, o aquecimento global, as flores dos canteiros em Abernéssia, o Nobel de Literatura do ano retrasado e as tendências do breganejo no Pará, só para ficar em alguns exemplos.
Umberto Eco já tinha avisado: as redes sociais deram voz a uma legião que, na falta do que fazer, resolve manifestar opinião sobre tudo. É uma característica do nosso tempo. Resta conviver, selecionar, filtrar e saber separar as coisas, sin perder la ternura e continuar vivendo em comunidade.
A fala do moço lá na Milili revela um preconceito radical e um desconhecimento profundo acerca do que se passa no Nordeste brasileiro atualmente. O sujeito ainda processa uma imagem do século passado, quando a região (pelo menos, grande parte dela) era sinônimo de miséria, fome e extrema pobreza que, estarrecidos, assistíamos nos jornais da televisão. Mas esse quadro mudou. Não é mais assim – e faz tempo.
Poderia falar aqui dos números da Educação pública apresentados em alguns estados do Nordeste nos últimos anos (com destaque para Ceará e Piauí), por exemplo, ou pelos resultados obtidos pela Economia Criativa na Bahia e em Pernambuco, que representam hoje cerca de 3% do PIB.
Poderia abordar o progresso da ciência nas universidades públicas, que investem em soluções como a da recente crise das intoxicações por metanol, testadas e aprovadas em tempo recorde pelos órgãos federais de controle, enquanto o governador de São Paulo gargalhava em entrevista coletiva e dizia que estava “mais preocupado com a Coca-Cola”.
Ou mesmo do fato de que, recentemente, a cidade de Campina Grande, na Serra da Borborema, obteve o segundo lugar entre todos os 5.571 municípios brasileiros em qualidade na transparência e eficiência da gestão pública. O que Campina fez? Criou incubadoras de universidades dentro da prefeitura, desenvolvendo programas de estágio remunerado e oferecendo formação técnica aos estudantes no contraturno acadêmico em várias áreas do conhecimento. Não é pouca coisa.
Mas vou abordar outro assunto. Vou falar de Turismo.
O Estado da Paraíba (de onde saiu o fictício personagem do meu livro) anunciou neste ano a criação de um projeto que pretende fazer dele o primeiro estado brasileiro 100% turístico. Desenvolvido pela PBTur, órgão oficial do governo do Estado, em parceria com o sempre importante Sebrae e as Universidades Estadual e Federal, o plano é que todos os 223 municípios sejam mapeados em suas potencialidades criativas para que, de acordo com as características específicas de cultura, tradição, formação e História, as regiões a que pertencem sejam identificadas em seus potenciais de desenvolvimento e sejam feitos esforços comuns no sentido de promover desenvolvimento humano, social, econômico, ambiental, sustentável e acadêmico por meio da atividade turística.
O projeto não tem custo para os municípios: Sebrae e Governo do Estado são os responsáveis pelo investimento e pela gestão financeira.
Além do desenvolvimento dos roteiros nas quatro regiões geográficas que compõem o território – Zona da Mata (que inclui o litoral), Serra da Borborema, Agreste e Sertão -, os municípios receberão orientações técnicas para inclusão no Mapa do Turismo e inserção de empresas locais no Cadastur, o cadastro nacional do setor.
Outro benefício será o suporte para a melhoria da gestão dos pequenos negócios envolvidos nas rotas, com a capacitação em áreas como atendimento ao cliente, gestão financeira, hospitalidade, bares e restaurantes, marketing, gestão e planejamento estratégico.
Ecoturismo, aventura, lazer, cultura, turismo rural e de natureza, religiosidade, História do Brasil, literatura (as obras de Ariano Suassuna no sertão de Taperoá e a de José Lins do Rego nos antigos engenhos, por exemplo), indústria audiovisual (lembram do ‘Auto da Compadecida?’), artesanato, gastronomia e até as pegadas dos dinossauros no município de Sousa, no sertão, são alguns dos principais temas que serão considerados para promover essa grande ação que promete transformar o Estado da Paraíba em case mundial no setor.
Não há preconceito e lugar-comum que resistam a uma boa dose de informação.
Fazer uma leitura atualizada sobre o Brasil olhando apenas para o nosso quintal revela uma estreiteza de pensamento que só provoca confusão e desinformação – e isso, convenhamos, não leva a lugar nenhum.
Como todas as regiões do Brasil, o Nordeste tem muitos problemas, mas determinadas ações inovadoras merecem ser destacadas para acabar com certas bobagens que são disseminadas por aí.
Turismo é coisa séria. Equilibrar desenvolvimento econômico, sustentabilidade e defesa da identidade cultural de um povo é uma equação que exige preparo, engajamento, aprimoramento contínuo e participação de todos.
Tem gente no Brasil pensando o Turismo de maneira transversal, estratégica, planejada e inclusiva, ouvindo as pessoas envolvidas e convidando toda a população a fazer parte da discussão. É um projeto de todos, e não apenas de determinados grupos.
E a gente aqui, derrubando árvore a torto a direito, chamando o povo para passar a mão em cabeça de cobra, plantando casa de cabeça pra baixo para atrair turistas e espichando os ouvidos em direção à avenida para ver se, por algum milagre, voltamos a ouvir o bondinho da Estrada de Ferro passando pela cidade repleto de visitantes maravilhados e ávidos por viver experiencias inesquecíveis.
Como Campos do Jordão, aliás, sempre proporcionou.
Fonte: https://revistane.com.br/2025/05/19/paraiba-quer-se-tornar-1o-estado-100-turistico-do-brasil-ate-2026-com-criacao-de-44-novos-roteiros/

Benilson Toniolo, professor, escritor, historiador e gestor público, atua como consultor da AME Cultura (Agência Mineira de Entretenimento) em projetos do Sebrae para efetivação de políticas públicas de Cultura em diversos municípios brasileiros. Membro de várias Academias de Letras e outras entidades, escreve artigos sobre Política, História e Cultura.


