Em dezembro de 2023, após longas conversas e reflexões sobre o nosso uso das redes sociais, tomamos a decisão de sair delas por algum tempo.
Ao “desativar a conta temporariamente”, após a pergunta do aplicativo “Você tem certeza de que deseja fazer isso?”, a primeira sensação foi de alívio.
Deixamos de ser “usuários”… O termo define bem o incômodo que sentíamos na dinâmica das redes: estamos todos muito viciados nelas. Parece uma droga da qual não conseguimos nos livrar, nem mesmo usar com moderação.
Foi-se o tempo em que o Facebook era uma rede social para postar álbuns de fotos feitas numa viagem; o Twitter, para postar pensamentos em um número reduzido de caracteres; o Instagram, para fotos de comidas bonitas com filtro vintage. É inegável que, depois que começou a era da monetização nessas plataformas, sua estrutura de funcionamento se alterou profundamente e, consequentemente, a forma como nos relacionamos nelas (e com elas) também.
O funcionamento desses aplicativos é baseado na arquitetura dos jogos de azar. Scroll infinito, milhares de estímulos coloridos e brilhantes, musiquinhas frenéticas, vídeos hipercurtos e todo um sistema de recompensa baseado naquilo que o seu algoritmo consegue vender das informações que você fornece a partir de todos os seus cliques.
Aí, sem você perceber, na primeira pausa de 30 segundos do seu dia, você já está automaticamente pegando o celular só para dar uma olhadinha — que logo se transforma em uma imersão de horas. Horas de consumo de nada. Até hoje, entre amigos, familiares e pacientes, a posição é unânime: ninguém se sente bem de ter perdido tanto tempo com tanta coisa inútil. É uma grande distorção do tempo com um enxerto de qualidade duvidosa.
Mas será que é só a arquitetura viciante dos aplicativos que nos mantém presos a eles? O que mais, além disso, torna tão difícil o uso consciente dessas redes?
Nossa decisão de sair foi uma espécie de teste para ver o que aconteceria de fato em uma vida “offline”.
Compartilhamos aqui nossas percepções após esse período de detox.
1- QUANDO VOCÊ SAI, PARECE QUE VAI PERDER MUITA COISA
A resistência em sair parece ser fruto de um medo muito grande de exclusão. As redes se apresentam como o grande lugar de encontro de pessoas, ideias e acontecimentos, como se ali fosse o mundo real mesmo. E, se você sair, o que vai acontecer? A imaginação vai longe. O que vão pensar de mim? Vão sentir minha falta? Vou ficar por fora dos acontecimentos? Vão lembrar que eu existo? Vou ser convidado? Minha fonte de renda vai ficar comprometida? Vou sorrir menos, ter menos prazer? O que vou colocar no lugar disso, nesse tempo que sobra?
Perda, exclusão, alienação, frustração, tédio, isolamento, carência… A lista de sintomas da abstinência é tão grande que parece que você precisará de uma clínica de reabilitação para sair vivo dessa.
É que sair das redes sociais tem essa cara de “morte digital”. É como se você fosse deixar de existir. Percebe a dimensão que isso tem na nossa vida? A gente se sente meio uma alma penada que, apesar de poder voltar a qualquer momento, fica vagando e se perguntando “mas voltar para onde? Para quê? Para aquilo?”, ao mesmo tempo em que se sente em um limbo. Mesmo sabendo que as redes sociais são um buraco negro que suga sua vida, parece que é fora delas o verdadeiro purgatório.
2- VOCÊ PERCEBE O TAMANHO DO VÍCIO
Você pode tirar o aplicativo do seu celular, mas o gesto automático de ir com o dedo ali, exatamente onde estava o ícone que você apertava mil vezes por dia… Isso, sim, é duro de desinstalar da mente. Você só se dá conta do poder viciante do uso das redes quando seu corpo mostra que entrar naquele universo já não é, há muito tempo, uma escolha racional.
Logo percebe também que, nesse uso impensado, não existe mais dentro de você a possibilidade da espera ociosa. Subir no elevador, aguardar na fila, andar de transporte público… Qualquer intervalo de tempo rapidamente é preenchido com um acesso às redes, fazendo-nos esquecer que, na vida real, sim, há muitos momentos de espera e um certo tédio que os acompanha! Daí, você começa a se perguntar se aquela “ansiedadezinha” constante, que faz você se sentir acelerado o tempo todo, tem relação com isso.
Não somos só viciados em aplicativos. Somos fissurados na ilusão de preenchimento que eles nos proporcionam.
3- SEM FILTROS
Os meses vão se passando. Você se percebe, de fato, menos ansioso, mais focado, com atenção e intenção no que faz. Já conseguiu ler um livro inteiro! Pequenas vitórias…
Quando a sedução do mundo das imagens sai de cena e a gente volta o olhar para o mundo real, vai percebendo o quanto isso nos faz bem. Você toma o tempo de volta para você, de verdade. Se sente melhor com seu corpo, sua rotina, e dá mais valor para cada interação que busca ativamente com as pessoas. Nada preenche mais do que olho no olho (sem filtros), contato (com presença), cumprimentos (com corpo), tom de voz (sem acelerar a velocidade de reprodução)… A gente olha mais para aquilo que não vemos por estarmos mergulhados em uma tela.
Em contrapartida, você também se dá conta de que, das inúmeras pessoas que você seguia e com quem interagia, as relações verdadeiras e profundas são absolutamente raras, escassas mesmo, e que o “quem não é visto não é lembrado” parece se impor como uma regra fatal. “Você sumiu” é a frase número um dos reencontros fora das redes. Como se ausentar-se desses espaços fosse mesmo uma desaparição. “Não desapareci, não, estou aqui.” “Aqui”, na vida real, esse lugar que desaparece quando o mundo virtual se torna substituto supostamente mais interessante, seguro, estimulante, dinâmico e preenchedor que o mundo concreto.
Os filtros caem e muitas verdades aparecem.
4- COMO É MESMO QUE SE APRENDE ALGUMA COISA?
A quem recorrer quando o TikTok e os Reels não são mais a sua fonte de “conhecimento” sobre as coisas? O que fazer quando você quer saber uma mistura caseira nova de limpeza para manchas, uma receita de massa fresca, aprender um instrumento novo ou se inteirar sobre um assunto complexo, como o que está acontecendo entre Israel e Palestina? Sua mãe te passa a receita, você pega um livro de 600 páginas para começar a entender sobre a guerra no Oriente Médio, começa a fazer aulas com uma professora de música… O bolo sola, você sente seus neurônios queimando ao estar na página 20 do livro, e se sente uma criança em alfabetização ao tentar identificar uma nota em uma partitura.
Nesse momento é que a ficha começa a cair: aprender é muito difícil e leva bastante tempo. As coisas nunca saem de primeira, nem de segunda, e às vezes nem de terceira. A aprendizagem sobre as coisas não é linear nem simplista. Como é mesmo que aquele influenciador te convenceu de que bastava seguir 5 passos para conseguir saber profundamente tal coisa ou assunto de maneira rápida, fácil e sem complicações?
Você se dá conta de que, assim como praticamente tudo o que circula nas redes, o conhecimento está sendo usado como produto e vendido como objeto de fácil acesso, que está nas mãos de alguns poucos que supostamente o detém. Para piorar, no final das contas, o tal conhecimento é raso, caro e não acrescenta nada na sua vida. E quem está vendendo só parece que sabe. O que essas pessoas sabem mesmo é tirar dinheiro dos outros fingindo saber alguma coisa.
Aprender dói, demora e é um processo complexo. Coisa que a agilidade e superficialidade das redes não dá conta de oferecer.
5- SUA AUSÊNCIA GERA UM BOCADO DE DIFICULDADES
Muitas vezes, nossa ausência das redes virou justificativa para muitos acontecimentos: “Ah, você não ficou sabendo? Eu postei…”. “É que você não tem Facebook, aí a gente acaba falando menos.” “Não temos cardápio, só no link da bio do Insta.” “Como assim, você não viu essa notícia?” “Todas as informações estão nos destaques dos stories.” “Me passa seu Insta para eu conhecer o seu trabalho?” “Vocês não estão se isolando?”
Tudo está tão mediado pelas redes que viver sem elas parece mesmo uma alienação. A gente foi se dando conta de quanto acesso a gente perde e quanta dificuldade para fazer algumas coisas no cotidiano a gente passa.
Isso escancara um fato: você saiu, os outros não, e não se faz uma revolução sozinho. Sabe aqueles filmes de faroeste em que tem um monte de pistoleiros em um salão, cada um com duas armas apontadas para as cabeças uns dos outros? E que, se não baixarem as armas todos juntos, vai ser um tiroteio do capeta? Então. Fica muito claro que tentar esse estilo de vida vai ser sempre muito difícil se todo mundo não tentar junto também.
6- VOCÊ VOLTA E… TUDO CONTINUA IGUAL
Depois de um ano, voltamos! Aplicativos reinstalados, prontos para navegar novamente. E…?
Nada mudou. Nadinha. Talvez essa seja a sensação mais impressionante de todas: a vida continua igual, as pessoas continuam postando as mesmíssimas coisas. As selfies na academia, os posts reclamando do que cada uma sempre reclamava, o indivíduo com suas posições radicais, as fake news, a polarização política, o deleite sádico das pessoas em cancelar e destruir reputações, as discussões mal-educadas e infrutíferas, os infinitos memes e os vídeos de animais fofos. Está tudo lá, do mesmo jeito, como sempre foi.
Não parece que você ficou um ano fora. Parece que você entrou ontem e — confessamos — isso dá uma tremenda agonia. Fica claro que você não perdeu nada, o que é espantoso para 365 dias de uma vida. Talvez um conhecido tenha se casado, uma influencer engravidou, um colega viajou para algum lugar e você não soube. Mas a real é que você continua por dentro da vida das pessoas que te importam (e que se importam com você) sem depender de posts e stories para isso. O que você perdeu (perdeu?) não gerou nenhuma grande consequência. Dificuldades, sim; perdas significativas, não.
7- TODO MUNDO SE QUEIXA, SE INDIGNA, RECLAMA… MAS NÃO FAZ NADA A RESPEITO
Eventos relevantes da cidade, do país e do mundo foram discutidos no palco das redes, mas não passou disso. São tantos assuntos diferentes por segundo… Mesmo as pautas importantes e complexas viram fumaça em pouco tempo. Ninguém nem mais se lembra, pois o assunto hoje já é outro. A polêmica já é outra. O absurdo já é outro. O hate já é outro. Os stories possuem tempo de 24 horas, não é? Os assuntos veiculados neles também.
Discutem-se os temas do momento, sem que tenha ocorrido qualquer mobilização pelos temas de momentos, dias, meses atrás. De isca em isca, a atenção das pessoas nas redes sociais vai se enroscando em temas, comentando, discutindo, se indignando, mas fazendo com cada um deles o que sempre fazem: absolutamente nada.
As redes produzem essa falsa sensação de engajamento. Como é muito fácil emitir uma opinião e apertar o enter, também fica fácil confundir a expressão do que se pensa com uma mobilização efetiva, isto é, algo que tenha impacto concreto na realidade.
8- A REDE SOCIAL DISFARÇA NOSSAS PREGUIÇAS
Elas fazem a gente sentir que tem acesso a tudo e isso cai como uma luva para nossa resistência a encarar coisas que realmente dão trabalho. Elas alimentam nossa preguiça.
Preguiça de nos informarmos profundamente sobre as coisas, com fontes confiáveis, e indo além da notícia: conhecendo a história.
Preguiça de nos relacionarmos de verdade com as pessoas, com escuta, transparência, interesse, verdade, aprendendo a conversar, a superar conflitos e lidar muito melhor com as diferenças.
Preguiça de encarar o tédio, o vazio, a falta de preenchimento que faz parte da vida normal, rolando o feed pra fingir que isso não nos incomoda e nos consome.
Preguiça de encarar nossas dores, o que dá trabalho, caindo na tentação de deixar para depois ou para lá tudo que exige esforço.
Sair ou ficar? Eis a questão.
Sair ou ficar nas redes sociais certamente é uma decisão que produz impactos, e cada um precisa refletir e entender aquilo com que terá mais condições de lidar, ou aprender a lidar.
Depois do brevíssimo retorno, por exemplo, eu, Erika, não quis permanecer e logo desativei-as novamente. Prefiro mil vezes aprender a lidar com os efeitos da minha ausência nas redes do que com a presença nelas. Isso se baseia numa percepção difícil de quem eu sou quando fico engolida pelas telas e quem eu sou quando levanto o meu olhar para o mundo real. Não é fácil. Há dias em que, realmente, a sensação de “estar ficando para trás” bate forte. Mas a contrapartida no cotidiano tem me ajudado a manter a decisão. Consigo ter mais calma interna, atenção no fazer, cuidado nas interações, menos demanda de mostrar para os outros o que me acontece, aprender a me entreter de outras formas e, principalmente, a me recolher na minha desimportância. A minha vida é mesmo uma vidinha comum. E eu gosto dela assim.
E eu, Cezar, até aqui tenho escolhido fazer um uso bem limitado e consciente das redes, priorizando sustentar o contato com as pessoas que me importam por fora delas. Redes sociais, só para conhecer melhor um produto, dar um pouco de risada e pesquisar assuntos do meu interesse, mas com muita atenção ao tempo gasto com isso. O tempo que se ganha fora das redes é extraordinário. Evito ler comentários porque sei que em 95% das vezes eles só me irritam. Já entendi, depois de muita teimosia, que rede social não é lugar de bons diálogos e que ninguém é o que mostra ser tendo uma tela como escudo. Quando quero compartilhar algo da minha felicidade ou das minhas dores, faço isso de modo privado. Sou muito cético e pessimista quanto ao nosso futuro se as pessoas não tomarem uma consciência realmente iluminada sobre a manipulação das nossas vidas pelos algoritmos.
Ficando ou saindo, pensamos que, pelo menos uma vez, vale a pena experimentar ficar um tempo fora. Lembrar como é a vida sem redes sociais nos ajuda a tomar uma decisão mais clara, seja para continuar nelas, aprendendo a navegar melhor, seja para ficar mais em paz com a escolha de sair.
“É preciso sair da ilha para saber o que é a ilha”– José Saramago

Erika Faria ([email protected]) e
Cezar Perini ([email protected])
são psicólogos e psicanalistas,
moradores de Campos do Jordão.


