Não é a primeira vez que o Supremo toma uma decisão controversa. Mas há momentos em que o problema deixa de ser jurídico e passa a ser simbólico. A anulação da quebra de sigilo da empresa ligada ao Dias Toffoli, determinada por Gilmar Mendes, entra exatamente nesse terreno. Pode haver fundamentos técnicos. Pode haver argumentos processuais. O ponto é outro: quando o tribunal intervém para impedir o avanço de uma investigação que toca um de seus próprios ministros, a sociedade não enxerga apenas um despacho — enxerga proteção!
O discurso formal fala em “desvio de finalidade” e “abuso de poder” por parte da CPI. O discurso público ouve outra coisa: que, ao se aproximar demais do núcleo do poder, a investigação encontrou um limite intransponível. E é nesse espaço entre o juridicamente possível e o politicamente aceitável que a confiança começa a ruir. Porque instituições não sobrevivem só de tecnicalidades; sobrevivem de credibilidade.
O paralelo que muitos começam a fazer — ainda que de forma comparativa e não literal — com o escândalo de Jeffrey Epstein nos Estados Unidos não surge por acaso. Lá, o que devastou a confiança pública não foi apenas o crime em si, mas a revelação de que figuras influentes de diferentes correntes políticas transitavam no mesmo círculo. A sensação de promiscuidade sistêmica entre poder econômico, político e institucional foi um verdadeiro terremoto. Quando diferentes polos ideológicos aparecem tangenciados por um mesmo ambiente de interesses, o que desmorona não é um partido — é o pacto invisivel da confiança.
No Brasil, episódios envolvendo o Banco Master e decisões judiciais correlatas começam a produzir um ruído semelhante. Não se trata de afirmar equivalências criminais ou importar escândalos estrangeiros. Trata-se de reconhecer o efeito político de situações em que elites parecem gravitar em torno de estruturas comuns, independentemente de discurso ideológico. Quando direita e esquerda passam a compartilhar suspeitas sobre o funcionamento do topo do sistema, algo mais relevante está em jogo.
O perigo maior não é uma decisão isolada. É a consolidação da percepção de que o sistema se protege. Quando a sociedade começa a acreditar que as regras valem para todos — menos para quem as aplica — o desgaste institucional deixa de ser pontual e vira estrutural. E história recente mostra que descrença prolongada em instituições costuma abrir espaço para radicalismos e soluções fora do jogo democrático. A questão, portanto, já não é apenas jurídica. É sobre o quanto ainda resta de confiança no edifício institucional brasileiro.
Estou bem triste e muito chateado com esse momento. Esse Brasil vive nos desafiando. Vamos adiante!

Júlio Kok Carvalho é advogado, empresário,
amante da natureza, de Campos do Jordão
e das coisas boas da vida.


