Noite (in)feliz – Quem é você na noite de Natal?

“É Natal, é Natal, vem se sentir mal…”.

Ops, erramos… Como é a letra mesmo?

Ah, claro:

“É Natal, é Natal, clima irreal…” Não, espera.

“É Natal, é Natal, que tédio fatal…”

“É Natal, é Natal, mesmo ritual…”

“É Natal, é Natal, trauma emocional”

Vamos reconhecer: para muita gente, o Natal é um período bem desagradável. Se você não está nesse grupo, parabéns! Seu espírito natalino jubilante está intacto. Mas, com certeza, você conhece alguém que odeia essa época ou tem, no mínimo, boas ressalvas sobre a data.

É que para muitas pessoas, o Natal condensa um conjunto de sensações ruins. Sendo psicólogos, temos o “privilégio” de acessar a intimidade das pessoas e entender o que compõe os conflitos dessa época. Vamos percebendo que o mal-estar natalino, em muitos casos, parece ser mais regra do que exceção.

São várias as razões para isso, começando pela propaganda que cria aquele clima de felicidade e harmonia familiar tão distante da realidade da maioria — ou, quem sabe, de todas — as famílias. Já ouviu aquele ditado “Família perfeita, só na Santa Ceia”? Pois é, o Natal parece ser a data em que todo mundo é quase obrigado a tentar recriar essa cena.

Reencontros forçados, cobranças, comparações, discussões recorrentes, climas esquisitos, comprometimento financeiro… Os ingredientes para uma ceia indigesta são variados. Como em uma série que já está na 45a temporada, o roteiro dessa noite é manjado porque já conhecemos os personagens e seus papéis repetitivos. Assim, fica difícil esperar algo novo, e a frustração parece garantida.

Num roteiro repetitivo, atores e atrizes estão fadados a representar sempre os mesmos papéis. Já parou para pensar em qual é o seu? Quais são os personagens da sua família? Qual te dá mais trabalho? Quais te ajudam a sobreviver a essa noite?

Que tal darmos uma olhada nesse grande elenco? Hoje, queremos saber de você…

Quem é você na noite de Natal?

JULGADORA
É aquela pessoa que vai passar a noite reparando em tudo e todos, distribuindo críticas sobre aparência, peso, escolhas da vida e até o presente que deram pra ela.

DEBOÍSTA
Nada a abala, pra ela tudo está bom. Não se desagrada com nada, não discute e nem entra em confusão. Curte a noite tranquilamente, sem dramas. Só quer curtir seu salpicão em paz.

TURISTA
Ela mora longe, leva outra vida e só aparece nas datas comemorativas. Chega com ar de quem caiu de paraquedas, se sentindo meio estrangeira e por fora dos assuntos da família. Sua frase da noite? “Ah, eu nem tava sabendo!”.

ANALISTA
É aquela pessoa que fica como uma observadora externa, quase uma documentarista estudando cada comportamento, tomando notas mentais. Analisa todo mundo e traça perfis psicológicos sobre cada parente. Um Freud natalino.

PROVOCADORA
A faísca no barril de pólvora. Ela adora botar “fogo no parquinho”. Parece irresistível: se não tiver uma confusãozinha, não é Natal, né? Vai arrumar um jeito de incitar brigas, discussões. Sua sobremesa favorita é a torta de climão.

INVASIVA
A pessoa que entra de sola: “Quando vão casar? Quando vão ter bebê? Você perdeu o emprego, né?”. Acredita que todo mundo adora prestar contas da vida íntima. No filtro dela (ou, melhor, na falta de filtro), acha que tem direito de acesso irrestrito ao que não é da conta dela.

DORMINHOCA
Ela chega e se aninha no sofá. Parece a pessoa mais cansada do rolê. Depois come, deita no sofá e só levanta para ir embora. A ceia é só um intervalo entre seus cochilos.

ISOLADA
Ela está ali, mas parece que não está. Provavelmente vai se sentir em outra galáxia, mesmo cercada de gente, como se não pertencesse àquele lugar. Mais observa do que fala, sorri mecanicamente e não vê a hora daquilo tudo acabar.

CAGA-REGRA
“Mas sempre foi assim!”. Essa é a pessoa obcecada com um certo jeito das coisas funcionarem e quer prescrever como tudo deve acontecer. Amigona da repetição, força tradições que já perderam o sentido e ninguém mais liga. A cada movimento, lá vem ela corrigir e dizer como é que as coisas têm que ser.

ATRASADA
Ela aparece quando o peru já está esfriando e deixa todo mundo esperando. Seja por ser uma pessoa enrolada ou por querer ficar o menor tempo possível, acaba fazendo a festa girar em torno de seu relógio.

RESSENTIDA
O mundo está em dívida com ela, coitada. Na família toda, nenhuma pessoa é tão injustiçada como ela. Vítima da insensibilidade dos outros, crê que suas dificuldades são as piores. Ninguém a entende, ninguém a enxerga. Sente a necessidade de mostrar como tudo é mais difícil pra ela, porque ninguém se solidariza com suas batalhas. Protagonista do melodrama natalino, passa a noite se incomodando e pondo a culpa das próprias frustrações nos outros.

RECLAMONA
Nada nunca está bom para essa pessoa. Está sempre de olho no que falta, no que falha. Põe defeito em tudo. Se 99% está perfeito, ela vai olhar para o 1% que não está. A ceia está deliciosa? “Mas podia ter mais sal na carne”. A decoração ficou muito fofa, “mas aquele arranjo da mesa ficou meio cafona”. A pessoa cronicamente insatisfeita que sempre acha pelo em ovo.

CANCELADORA
Problematiza tudo e qualquer coisa. Ela tem o dom de transformar assuntos banais em um grande debate. As pessoas provavelmente têm receio de falar com ela, porque sua punição frente à discordância é o cancelamento.

OSTENTADORA
Faz do Natal uma vitrine. Essa pessoa passa a maior parte do tempo mostrando como sua vida é incrível. Com aquela humildade de boteco, adora desfilar o que tem e o que faz, pra tentar parecer algo que não é. E, se ninguém perguntar, casualmente dá um jeitinho de mostrar mesmo assim. Não quer presente, quer troféu.

AGRADADORA COMPULSIVA
Faz um esforço danado para deixar todo mundo feliz. Querem farofa? Ela corre pra fazer. Reclamaram do calor? Já chega com o ventilador na mão! Que siricutico de tapar todas as faltas! Uma demanda não atendida vira uma missão instantânea.

BODE EXPIATÓRIO
Aquela pessoa azarada que a família elege pra pegar no pé. É fácil ela se tornar “o” assunto da roda, ter que aguentar piadinhas ou virar a culpada de alguma coisa.

SAUDOSISTA
Não dá presente: dá passado. Bobeou, ela está lembrando dos natais de 15 anos atrás, falando de quem morreu, dos parentes que não vê mais e dizendo que antigamente era tudo melhor. De saudade em saudade, instaura um clima melancólico e faz o momento presente ficar devendo muito.

DUAS CARAS
Passou o ano inteiro criando caos, mas no Natal vem de “paz e amor”. Dá beijinho em quem sempre critica, faz discurso de harmonia e manda até um “o que importa é a família sempre unida” no meio do brinde. Mais fácil acreditar em Papai Noel…

SOBRECARREGADA
Pobre criatura. Ela é a pessoa que cozinha, organiza, serve, limpa. E no final, todo mundo está relaxando enquanto ela se ressente em silêncio na pia cheia de louça. Termina a noite se prometendo: “ano que vem não vai ser assim não!”. Mas sabe que vai.

ABANDONADA
Ah, o ninho vazio… Essa pessoa não supera que os filhos, sobrinhos ou netos ousaram passar o Natal em outro lugar. Para ela, isso é uma afronta pessoal, uma ingratidão. E faz questão de repetir: “Antigamente, todo mundo passava junto… Agora é isso de cada um pra um lado… Que absurdo…”.

FILHA DE PAIS DIVORCIADOS
Seu Natal é uma gincana de logística emocional. Corre pra cá e pra lá para passar o Natal com os dois lados da família, sem conseguir relaxar. De um lado, culpa. Do outro, cobrança. No meio, ela, não querendo decepcionar ninguém.

AGREGADA
Namoradas novas, vizinhos, pessoas solitárias ou amigos que não se sentem parte daquele núcleo familiar. Seja quem for, ela é “de fora” e seu não-pertencimento grita no ambiente (pelo menos é o que parece na cabeça dela). Vai comer sua rabanada em silêncio e contar os minutos pra ir embora.

MEDIADORA
Ela passa a noite apagando incêndios e gerenciando as emoções alheias. Briga no corredor? Lá vai ela com o “deixa disso, gente!”. Discussão sobre política? Ela entra no meio com o pavê. O sucesso dessa noite, pra ela, tem a ver com evitar qualquer mal-estar e impedir arranhões na imagem da família harmônica.

ANTISSOCIAL
É a pessoa que diz que o Natal é um dia como outro qualquer e prefere ficar só. Cria um mal-estar na família, que se sente incomodada com sua escolha. Mesmo ausente na festa, se faz presente: vai ser o centro de muitos comentários. É tipo ir sem precisar ir. Genial.

INSTAGRAMMER
Não importa o tamanho do caos familiar, o importante pra ela é postar fotos lindas, escrever “gratidão” na legenda e dizer que ama muito todo mundo, mesmo fervendo por dentro. Seu espírito natalino é photoshopado, mas não importa ser: basta parecer.

ANTICONSUMISTA
Trata o Natal como uma data comercial, sem qualquer sentido simbólico, se irrita com o trânsito, o corre-corre frenético das compras e preparativos, e fica pensando no dinheiro que nem tem e vai ter que gastar com presentes.

FALIDA
É a pessoa que está com a conta no vermelho, mais dura que pão de anteontem, mas quando lhe perguntam sobre o trabalho, fala de novos projetos à vista, sem perder a pose. Tem sempre uma ideia, um convite, uma oportunidade excelente que está para acontecer a qualquer momento.

NARCISISTA
O Natal não poderia passar sem ela, não é mesmo? Vai ficar a noite inteira falando apenas de si. Em qualquer assunto que estiver circulando, ela vai dar um jeito de contar uma história dela, sempre se enaltecendo. E vai demorar, claro. Afinal, não são histórias, são sagas, epopeias. Porque tudo sobre ela é sempre muito interessante e especial. Se o assunto mudar para qualquer outra coisa, perderá imediatamente o interesse.

PAI / MÃE DE ALECRIM DOURADO
Seus filhos são o centro da festa – e do mundo. Rendem assunto para a noite toda. Essa pessoa é o reflexo orgulhoso do brilho de seus pimpolhos e ela adora isso.

AUTOSSUFICIENTE
Ela se isola no canto, interagindo só quando necessário. Celular, TV ou um prato de comida são sua companhia. Socializar? Só na próxima encarnação. Basicamente um fantasma na festa.

FOLGADA
Acha que a ceia brota do nada em cima da mesa. Enquanto os outros suam pra organizar tudo, ela é a pessoa que está confortável, só esperando ser servida. Para ela, a magia do Natal é curtir tudo sem precisar mexer um dedo.

ANIMADORA DE AUDITÓRIO
Ela é o alívio cômico da noite, com piadas, imitações e sacadas brilhantes. Todo mundo ri com ela – ou dela. O importante é manter o clima leve e divertido!

As uvas-passas continuarão existindo

Se você se identificou ou identificou algum parente seu em algum desses papéis, saiba que você não está só.

As neuroses familiares, que habitam silenciosamente cada lar, encontram nessa data o seu episódio “Especial de Natal”. Mas, assim como em toda série, a única diferença desse episódio para os outros é a decoração e as musiquinhas. A magia prometida não rola e, muitas vezes, só reforça o que já vivemos o ano todo: os mesmos papéis, conflitos e expectativas frustradas. A vida segue como sempre foi.

Se tirarmos a pressão de fazer desse dia uma data de grande harmonia, de renovações, de reatar vínculos rompidos ou dissolver conflitos históricos (muitos que atravessam gerações) de uma única vez, então, talvez, poderemos vivenciar uma noite mais leve e comum, que não seja tão levada a sério – como nesse texto. Podemos até descobrir os prazeres que são possíveis nesse lugar, com essas pessoas ou, ao menos, algumas delas. Algo que dê sentido ao estar ali, para além do suposto dever de estar presente.

O mal-estar existe, mas não precisa ser o protagonista da noite. Não precisa ser uma noite feliz. Basta que seja uma noite possível.

 

Nos vemos aos sábados, quinzenalmente, aqui no Guiacampos.com.

 

Erika Faria ([email protected]) e
Cezar Perini ([email protected])
são psicólogos e psicanalistas,
moradores de Campos do Jordão.

 

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