O carnaval no alto da serra

Baile de Carnaval - Abernéssia Futebol Clube - Década de 1950 - Na foto a Familia Cintra - Aristides e Rosa, José e Norma, Joaquim e Noêmia, Pedro e Ada, o amigo José Bernardino e outros familiares
Baile de Carnaval - Abernéssia Futebol Clube - Década de 1950 - Na foto a Familia Cintra - Aristides e Rosa, José e Norma, Joaquim e Noêmia, Pedro e Ada, o amigo José Bernardino e outros familiares

A folia de Momo no alto da serra é um verdadeiro patrimônio cultural local. Nem o auge da luta contra a tuberculose impediu, no final dos anos 1950, o surgimento dos primeiros blocos carnavalescos organizados nos bairros, levando os jordanenses a cair na folia  tanto nas ruas de Abernéssia, onde os encontros dos mascarados eram mais comuns, quanto nos clubes.

Durante muitos anos, as sedes sociais do Abernéssia, do Tênis Clube, do Campos do Jordão, Jaguaribe, Abissínia e do Círculo Operário, entre outras, recebiam as famílias locais e também as visitantes, em bailes, matinês e concursos de fantasias muitas vezes transmitidos ao vivo pela inesquecível Rádio Emissora, sob o prefixo ZYL-6, “a mais alta do Brasil”.

Rainhas e reis momos saíam temporariamente do anonimato para serem eleitos e celebrados em festas populares por um povo que, amante do Carnaval, botava para fora toda a sua alegria e amor pelo samba acumulados durante um ano inteiro em quatro noites invariavelmente chuvosas do verão jordanense, enquanto, durante o dia, dedicavam-se ao trabalho nos hotéis, pousadas, pensões, restaurantes e nas casas de família, fazendo girar a incipiente economia do Turismo.

A Embaixada da Vila Ferraz, conduzida por carnavalescos históricos como Dalva Soares Guedes, Tioco, Tadeu Rodrigues, Toninho, Celso, Rui e seu “treme-terra”, foi uma das escolas de samba pioneiras da cidade nos desfiles de antigamente. De lá para cá, Piranhas da Vila Sodipe, Broconhoca, Santa Cruz, Monte Carlo, Vai-Vai, Império, Acadêmicos do Britador, Morro das Andorinhas, Unidos da Vila Santo Antonio, entre outras agremiações, de existência muitas vezes efêmera, marcaram época no carnaval jordanense.

Na segunda metade da década de 1970, o incansável José Corrêa Cintra, o Zezinho, cria o Festival de Músicas Carnavalescas, o tradicional FEMUCAR, evento de marchinhas inéditas atualmente na 39º edição que, até hoje, distribui grandes prêmios entre os compositores e cantores de Campos do Jordão e região.

Ao longo dos anos, a cidade viu nascer verdadeiras lendas do Carnaval, figuras populares que até hoje habitam a memória local, como Orlandinho e Márcio Corrêa dos Santos, que já não estão entre nós, e compositores de samba-enredo que em nada deixam a desejar aos  grandes compositores dos carnavais cariocas, como o já citado Tadeu e Lourival de Souza, o Trovão, multicampeão do Femucar.

Vale lembrar também a grande contribuição da comunidade do Britador, proveniente do Rio de Janeiro para atuar na extração de pedras na pedreira existente naquele local, para o desenvolvimento do samba e da atividade carnavalesca na cidade. Até hoje, o bairro do Britador mantém e cultiva a cultura do samba genuíno ao longo  de todo o ano, em encontros em plena  rua José Braz, enchendo a Abernéssia inteira com os sons dos batuques, dos cavaquinhos, tamborins e agogôs.

Atraídos pelo clima ameno, pela paisagem bucólica e pela oportunidade de passar pelo menos quatro dias em descanso do cotidiano das grandes cidades, aos poucos os turistas passaram a escolher Campos do Jordão como seu destino preferido também no Carnaval. As bandas de marchinhas, compostas em sua maioria por músicos locais, desfilam pelo Capivari convidando famílias inteiras para alguns passos ao som das músicas do passado – mas por pouco tempo, que logo já é hora de se sentar de novo em uma das mesas dos restaurantes locais para um chope, um suco, uma água – e beliscar alguma iguaria, que Campos do Jordão é lugar de se comer bem.

Hoje, o Carnaval jordanense segue cada vez mais ativo – apesar da não realização dos desfiles de rua nos últimos anos, em razão dos altos custos de organização alegados pela prefeitura. Poder público, empresários e sociedade civil continuam se ocupando em proporcionar a jordanenses e visitantes um reinado de Momo marcado pela alegria e pela participação popular.

Para os jordanenses, as marchinhas, as matinês e as rodas de samba no Britador dão o tom da folia; para turistas, uma programação diversificada e ampla, com temperatura amena e a insuperável paisagem jordanense servindo de pano de fundo.

Que aqueles que organizam o nosso Carnaval continuem prestigiando os músicos locais, que os principais palcos estejam cada vez mais abertos e disponíveis para os nossos artistas e a cidade continue a celebrar esta que é a mais autêntica manifestação da diversidade cultural brasileira.

No Carnaval de Campos do Jordão, quem pede passagem é a alegria.

Sejam bem-vindos, então, ao reinado de Momo na Montanha Magnífica.

Benilson Toniolo
foi Secretário Municipal de Cultura
de Campos do Jordão é escritor premiado
e membro de diversas academias de letras

 

 

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