Aqueles que se dedicam a ler e pesquisar a História de Campos do Jordão sabem que, a grosso modo, o papel da mulher sempre foi, de maneira geral, relegado a segundo plano. Nas narrativas presentes em nossa historiografia – livros, jornais e almanaques de todos os períodos -, dificilmente a mulher jordanense foi retratada com papel de protagonista.
Exceções? Flora Cayubi, primeira presidente do Tênis Clube; Belma Rosa e Carmem Astolfi, primeiras vereadoras; Maria Emilia Sampaio Camargo, fundadora dos Sanatorinhos; Leonor de Moraes Barros, fundadora do sanatório Santa Cruz; Baby Gonçalves, benemérita e fundadora da escola de enfermagem que foi batizada com seu nome… De modo geral, é isso.
O problema é que, até bem pouco tempo, só nós referíamos à mulher jordanense como sendo a “sombra” de alguém. Era a “mulher do médico”, a “esposa do prefeito”, a “viúva do engenheiro”, “a que era o braço direito do padre”, “aquela que era professora”… ou seja, sempre um aposto, um apêndice, um “penduricalho” que mais se referia à sua condição conjugal ou social do que à sua personalidade ou mesmo à sua importância enquanto cidadã, com participação efetiva na vida da cidade. Mesmo a conhecida dona Leonor Mendes de Barros, a quem foi dado o apelido de “anjo da guarda de Campos do Jordão” por suas ações beneméritas e beneficentes, sempre foi tratada como a “esposa do doutor Adhemar”, interventor federal e depois governador do Estado de São Paulo em tempos conturbados da vida política brasileira.
Essa característica não é exclusividade da cidade e nem da sociedade que formamos. A cidade, não nos esqueçamos, é reflexo da comunidade que a compõe, e esta é vinculada à formação social e histórica que contextualizou seu nascimento e desenvolvimento. Ou seja: em linhas gerais, a formação social brasileira, por sua própria condição, relegou à mulher o papel de coadjuvante. E mais grave: ela aceitou. Não tinha como não aceitar. Como jordanenses, apenas reproduzimos esse pensamento.
Ao longo do tempo, nos habituamos a ler e ouvir falar dos prefeitos, dos engenheiros, dos médicos, dos empresários, dos presidentes de associações. São sempre eles os entrevistados, os consultados, os tidos como exemplo. Poucas vezes nos referimos à mulher jordanense como protagonista e personagem principal da sua e da nossa História. A referência é sempre o homem.
Quem ainda se lembra de Maria Miné, de Violinha, da dona Eunice do Pracinha, da Cida Café, das benzedeiras das vilas, das professoras e das que contaram e recontaram a vida jordanense, que muitas vezes foram à luta para garantir as contas do mês, o prato de comida em cima da mesa e a dignidade de suas famílias? E as que fundaram e presidiram associações, entidades, colegiados? Onde está o registro dessas mulheres – suas origens, sua formação, sua motivação, sua luta?
Quem se lembra de Malu Donato, fazendo protestos, organizando manifestações e lutando contra a derrubada de árvores e a instalação de fábricas e indústrias que representavam sério risco à integridade dos jordanenses?
Engrácia Maria de Jesus de Bellis, que construiu a sede oficial da Associação Comercial somente com seu trabalho, seu arrojo, liderando equipes e concluindo a obra com a dignidade de quem não deixou dívida nenhuma?
Maria José Ávila, a Zezé, lutadora pela Cultura e pela Educação, primeira presidente da Academia de Letras de Campos do Jordão? Foi-se há pouco, e dela quase não se fala mais.
Os grandes religiosos que construíram sanatórios e escolas certamente não teriam conseguido alcançar seus objetivos se não fosse o trabalho abnegado das mulheres que estiveram ao seu lado, recebendo os doentes, tratando, alimentando e ajudando a curar e reconstruir suas vidas.
É hora de ouvir, com atenção, o que têm a dizer as mulheres que, assim como seus esposos, companheiros, pais e filhos, construíram Campos do Jordão como hoje a conhecemos, com suas personalidades próprias e que também colocaram em prática seus sonhos e vocações.
Deixemos que falem e ocupem seus merecidos espaços – e não somente neste oito de março – as mulheres jordanenses, protagonistas de sua -e da nossa – verdadeira História.

Benilson Toniolo
foi Secretário Municipal de Cultura
de Campos do Jordão é escritor premiado
e membro de diversas academias de letras


